Europa – Um continente envolvido numa crise económica, social e política

Os trabalhadores começam a resistir e a procurar uma verdadeira alternativa socialista

Sarah Sachs-Eldridge, Socialist Party (CIT na Inglaterra e no País de Gales)

Embora existam variações na evolução económica, social e político por toda a Europa, nenhum país escapou dos efeitos da pior crise económica desde a Grande Depressão da década de 1930. O Comité Executivo Internacional do CIT debateu e analisou as consequências da situação para a classe operária e demais trabalhadores e da luta para defender as condições de vida face às tentativas de fazer os trabalhadores e jovens pagarem o preço da crise.

Na sua introdução ao debate, Tony Saunois, Secretário Internacional do CIT, descreveu as sombrias perspectivas económicas para a região. As perspectivas de recuperação económica no curto prazo são anémicas, na melhor das hipóteses, em alguns países, e estão completamente postas de parte noutros.

Sempre que alguns governos alegam “recuperação” esta nunca é no sentido de um regresso aos níveis anteriores à crise de crédito. O fraco crescimento em países como a Alemanha é, na realidade, sem criação de emprego e com base em pacotes de estímulo a curto prazo, como o esquema “dinheiro por ferro-velho”[i] e outras medidas específicas.

O quadro geral é de um mal-estar económico, com aumento das dívidas nacionais e desemprego crescente. Na verdade, a retirada das medidas de estímulo, que poderiam afastar as possibilidades de uma crise económica mais prolongada, nesta fase, poderé ser o gatilho para um mergulho ainda mais profundo.

Durante o debate, Danny Byrne informou que a Espanha prevê um retorno ao crescimento para 2011 e pretende retirar os pacotes de estímulo nessa altura – uma indicação de ataques maciços contra a classe trabalhadora. Mas o governo espanhol ainda tem de enfrentar os principais batalhões da classe trabalhadora do Estado Espanhol e há o potencial para enormes explosões nesta situação.

Os pacotes de estímulo foram introduzidos como reacções automáticas pelos governos para tentar evitar o colapso económico completo. Tony referiu que as nacionalizações no sector bancário não representam uma ruptura com as políticas neoliberais de privatização. O governo britânico anunciou a sua intenção de vender de qualquer parte rentável do sector bancário nacionalizado no primeiro momento possível. Incentivado pelas políticas anti-laborais das instituições da União Europeia (UE), os governos britânico e francês estão a continuar os planos de privatização dos serviços postais.

A Irlanda e a Espanha, até muito recentemente, as ‘Histórias de Sucesso’ da UE, enquanto o crescimento económico disparava, estão agora a enfrentar crises profundas. O governo irlandês está a contrair empréstimos semanais de € 500 milhões e os jovens espanhóis são confrontados com 38% de desemprego. Juntamente com Portugal, a Grécia e Europa Oriental, eles formam um “arco de instabilidade”. Numa dura advertência de que esta situação pode acontecer em qualquer outro país, metade dos hospitais na Letónia foram fechados e os salários do sector público foi reduzido em 40%, como o FMI a exigir medidas brutais em troca de um empréstimo de emergência.

Sem emprego e prespectivas

Por detrás dos números da Alemanha para o crescimento global nacional, os detalhes da situação traiem a perspectiva de problemas para o futuro, mesmo no curto prazo. Aron explicou que 30% das fábricas no sudoeste, uma área de produção industial, principalmente na indústria automóvel, irá cair na falência, descrevendo a situação como “Detroit a chegar Estugarda”[ii]. Existe na indústria automóvel um excesso de capacidade de produção, estimado entre 40-50%, mas as novas indústrias, como o sector de alta tecnologia também foram duramente atingidos.

Com países como a Islândia a falir, os elementos de instabilidade associados a muitas economias latino-americanas tinham vindo para a Europa. Estes elementos não só observáveis nas dramáticas mudanças no plano económico, mas também socialmente. Um retrato vivo da miséria que se está a abater sobre os trabalhadores e a juventude foi mostrado na descrição de uma faixa de terra nos arredores de Madrid, na Espanha, anteriormente um dos principais beneficiários do boom, onde se estebeleceu recentemente um bairro de lata. Os barões da droga exploraram 30.000 pessoas desesperadas por dia.

Cedric Gerome pintou um quadro devastador de Portugal, o “doente” da Europa. Trinta e cinco anos depois de ter conquistador a independência de Portugal, Angola vê agora imigrantes vindos da ex-potência colonial, com 60.000 a 100.000 portugueses a procura de trabalho na antiga colónia. Cerca de 92% dos portugueses vê as perspectivas económicas como más e a maioria está insatisfeitos com a vida.

Sascha da Alemanha descreve algumas das consequências psicológicas da recessão, com grandes aumentos no stress causado aos trabalhadores que sentem insegurança em relação aos postos de trabalho e salários. Uma onda de suicídios entre os funcionários da France Telecom e a simpatia generalizada face ao suicídio do guarda-redes da Seleção Alemã de Futebol estão entre os exemplos que ilustram a pressão que os povos sofrem.

Instabilidade

Nenhum governo europeu pode reivindicar uma estabilidade de longo prazo. É impossível falar de um governo estável ou forte. Alguns actualmente não enfrentam  uma alternativa séria e à falta de uma alternativa política da classe trabalhadora enfraquece o potencial de resistência e luta da classe operária e demais trabalhadores. No entanto, ao colocar o custo da crise sobre nos ombros dos trabalhadores e da juventude, os governos só irão aprofundar a crise e enfrentar a oposição de massa e as explosões sociais, num dado momento. O governo de Angela Merkel na Alemanha, foi recentemente reeleito, mas as frisuras no governo já se começam a mostrar. O novo ministro do trabalho, Franz Josef Jung, teve de renunciar face alegações de tentativas de encobrimento relacionadas com um ataque mortal aéreo da NATO no Afeganistão.

Na França, 64% da população acha que o governo de Nicolas Sarkozy está no caminho errado. Apesar da intervenção do Estado para socorrer os bancos, a direcção principal de sua administração foi uma continuação com um brutal programa neo-liberal. Alex de França descreveu a realidade de 60.000 novos desempregados à espera de ser processados nos centros de emprego, de uma crise de falta de professores e das greves gerais que se realizaram.

Mesmo na Rússia, onde Putin goza de 65% de apoio, há sinais de tensões crescentes. Igor, de Moscovo, descreveu a resistência à intervenção estatal do s patrões das grandes empresas e um potencial para se desenvolver uma divisão entre a elite dominante.

O “Mal Menor” é agora um recurso, com governos odiados a serem eleitos ou a manterem-se no poder com base em não serem tão odiados ou receados como outros partidos capitalistas. Na Grã-Bretanha, o New Labour, que é detestado, poderá não enfrentar um colapso total – simplesmente porque  os conservadores têm demonstrado intenção de realizar selváticos selvagem cortes sociais num curto espaço de tempo e também da memória que existe do odioso período de Thatcher -, mas não há diferença significativa entre as políticas dos dois partidos.

Um novo governo na Grécia foi eleito em Outubro de 2009. O PASOK, o partido social-democrata, foi eleito com base do ódio ao governo de direita e não com base do apoio popular às suas políticas. O outro lado da vitória PASOK foi a fraqueza da esquerda na Grécia, para responder à crise. Por demasiadas vezes os partidos de esquerda limitam as suas exigências e programa.

Com a mudança dos antigos partidos da social-democracia para a direita, na maioria dos países a classe trabalhadora enfrenta um enorme vácuo político. Onde novas formações políticas de esquerda foram lançadas, como com SYRIZA na Grécia, o Novo Partido Anti-capitalista (NPA – Nouveau Parti anticapitaliste) em França, e o Partido de Esquerda (Die Linke), na Alemanha, está-se a travar uma batalha para que estes sejam partidos combativos

O SYRIZA tinha-se tornado um real ponto de referência para a esquerda grega e, num dado momento, tiveram 18% nas sondagens, mas teve apenas 4,8% nas eleições europeias. Nikos da Grécia disse que o SYRIZA pagou pela sua incapacidade de desempenhar um papel activo nas lutas da classe trabalhadora e da juventude. Quando os movimentos de juventude, paralisaram o país, no final de 2008, o SYRIZA era o único que apoiava os jovens, mas não conseguiu empenhar-se activamente na luta e, como resultado, perdeu apoio. A direita de SYRIZA foi capaz de ganhar alguma influência. Mas os membros do CIT no SYRIZA participam no ‘Segunda Onda’, um bloco de esquerda dentro do SYRIZA, na tentativa de democratizar e reestruturar o partido e para colocá-lo numa posição mais política. O futuro do SYRIZA ainda não está decidido, mas vai depender da sua capacidade de orientação para as lutas que se avizinham.

O Novo Partido Anti-capitalista (NPA – Nouveau Parti Anticapitalist) também sofreu uma queda no apoio nas eleições europeias. Virginie da França afirmou que a resposta da liderança não foi envolver-se nas lutas dos trabalhadores e ganhar apoio, mas virar para a direita. A extensão dessa falta de confiança na luta pode ser vista no programa proposto pela NPA para as próximas eleições. Limita-se a colocar reivindicações aos governos regionais em vez de as colocar ao governo nacional – portanto, não levantando oposição real aos corte de empregos ou aos congelamento salarial que exigem uma intervenção por parte do governo nacional. Militantes do CIT participam agora numa alternativa de esquerda no NPA, defendendo um programa de luta.

Judy Beishon descreveu o processo que está em curso na Grã-Bretanha, no qual os componentes do “No2EU-Sim para a Democracia”, uma coligação eleitoral envolvendo um sindicato nacional, o sindicato dos trabalhadores dos transportes RMT, e que disputou as eleições europeias, estão a debater uma aliança de sindicalistas e socialistas para as próximas eleições gerais britânicas.

Sempre que os trabalhadores tenham uma alternativa de esquerda pode haver grande apoio para as políticas socialistas. Em Portugal um quinto do eleitorado votou para o Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista (PC). Infelizmente, esses partidos correm agora o risco de minar o apoio para a esquerda e para o socialismo, ao não fazerem jus ao seu potencial. O Bloco de Esquerda concentra-se no plano eleitoral em detrimento de luta da classe trabalhadora. O Partido Comunista, apesar de ganhar 40% em algumas áreas industriais importantes, não usa sua posição para liderar comabitvamente as lutas.

O Die Linke (Partido de Esquerda), na Alemanha, tem tido algum sucesso eleitoral e tem sido capaz de cortar o crescimento da extrema-direita a nível nacional, mas também diminuiu seu anti-capitalismo em certa medida. Está agora colocada a questão da entrar coligações com partidos capitalistas. O Die Linke faria bem em estudar as lições que levaram à liquidação da Partido da Refundação Comunista (PRC), em Itália, onde a participação no governo capitalista e a administração de cortes sociais e ataques contra a classe trabalhadora no base do chamado “pragmatismo“, levou ao colapso quase total do partido. É agora necessário para os socialistas revolucionários na Itália reconstruam uma esquerda combativa e de massas. O CIT na Itália e apoiantes da Contra Corrente, em conjunto com activistas de esquerda sindical, irá participar de um debate numa das maiores federações sindicais da Itália, a CGIL, relativo a um documento apelando a um sindicalismo combativo e que foi apresentado pelo Sindicato dos Metalúrgicos.

Sectarismo e racismo

Na Escócia, o governo minoritário do Partido Nacionalista Escocês, (SNP), eleito em 2007, evocou a ideia de um arco de prosperidade, formado por Irlanda, Islândia e Noruega. Esta ideia está, agora, de alguma forma, ferida. Mas Philip, de Dundee, Escócia, previu que a eleição de um governo conservador, em Westminster podirá levar ao desenvolvimento de um forte aumento do sentimento pró independência.

Na ausência de partidos dos trabalhadores de massas e de lideranças comabtivas dos sindicatos, organizações de extrema-direita, sectárias e racista e foram capazes de ganhar espaço com as suas tácticas simplistas de tornar bodes expiatórios da crise os imigrantes e as minorias. Muitos dos principais partidos deram-lhes legitimidade, tomando para si aspectos do programa dos racistas.

Muitas cidades na Irlanda do Norte viram o desemprego duplicar, como Gary explicou, com um em cada três trabalhadores empregados directamente no sector público, isso deverá aumentar ainda mais após as eleições gerais, quando estão já anunciados grandes cortes sociais. A Fundação Joseph Rowntree estima que 50% das crianças na Irlanda do Norte vive abaixo da linha da pobreza. Houve um dramático aumento do sectarismo no terreno, com a violência a transbordar, neste momento, no centro da cidade de Belfast.

Na França, um debate sobre a “identidade nacional” dá uma oportunidade ideias dos racistas e da extrema-direita a serem discutidas. Existe um sentimento anti-muçulmano que levou a que um referendo sobre a questão dos minaretes, na Suíça, esteja a ser agitada partidos de extrema-direita e racistas na Dinamarca e na Áustria.

Na Itália, Berlusconi adoptou todo o programa da Liga do Norte neo-fascista e há grandes ataques contra imigrantes e sobre a classe trabalhadora em geral.

Que futuro para a UE?

As instituições da União Europeia estão sob enormes tensões devido à gravidade da crise económica. Entre 2007 e 2010, haverão oito milhões de pessoas desempregadas na zona Euro e PIB está previsto uma queda de 4% no PIB este ano.

Joe Higgins, deputado europeu e o Socialist Party na Irlanda foram capazes de tornar como questão central torno da votação sobre o Tratado de Lisboa na Irlanda do Sul, a questão das condições dos trabalhadores. Apesar de uma boa campanha do ‘Não’, o Tratado passou. Apesar desta “vitória” para os patrões europeus, a crise está a criar a possibilidade de países como a Grécia serem forçados a sair da zona do euro.

Andros, de Atenas, Grécia argumentou que pode revelar-se muito difícil para a Grécia permanecer dentro da zona do euro, dadas as limitações impostas pelas taxas de juro e as limitações dos governos para desvalorizar as suas moedas como medidas de curto prazo para evitar a crise. Mas Andros explicou também que o governo grego teria dificuldades deveria ser derrubado. Anteriormente, quando a economia grega estava numa situação desastrosa, o governo grego intimidou a classe operária a aceitar ataques contra as suas condições com a promessa que esses cortes feitos seriam compensados por verbas da EU o que seria a sua salvação. Isso não é mais possível. E se o governo grego decidir sair da zona do euro, já não poderá usar as exigências da legislação da UE como uma desculpa para fazer cortes ou privatização de serviços.

Um importante ponto de interrogação agora paira sobre a expansão da UE. Per-Åke da Suécia, que visitou recentemente a Letónia, descreveu a situação económica desastrosa do país. A Letónia passou de crescimento de 9% para uma queda de -18% e a taxa de desemprego oficial é de 19,7%. O FMI exige cortes drásticos em troca de um empréstimo. Dada aos protestos indignados que já ocorreram, o governo está hesitante, mas tem poucas opções. A moeda letã, o lat, está actualmente indexada ao euro, em preparação para a adesão à Zona Euro. No entanto, a adesão iria limitar as opções da Letónia para lidar com a crise e afastar a desvalorização.

Fases da luta

Tony descreveu como, na sua resposta à crise, a classe trabalhadora passou por diferentes fases. Houve, em muitos casos, um choque inicial, como o horror da crise económica foi sentida. Houve raiva, à medida que se tornou evidente quem iria sofrer e pagar os custos da crise. Houve grandes protestos de estudantes e pensionistas, na Irlanda, no final de 2008, e as greves e protestos dos trabalhadores do sector público este ano. No final de 2008, assistimos a movimentos de juventude na Grécia. Seções de trabalhadores, privados dos seus direitos e confrontado com nenhuma outra opção, tornaram claras a sua raiva e frustração. Às vezes, medidas desesperadas têm sido empregadas, como “o sequestro de patrões “, na França. Os trabalhadores em fábricas francesas geridas pela Sony, Caterpillar, 3M e fabricante alemão de peças para automóveis, Continental, tomarão como reféns os administradores, em protesto contra as propostas de despedimentos e encerramentos de fábricas. Em Vigo, na Galiza, Estado Espanhol, os metalúrgicos construíram barricadas e confrontaram-se com a polícia, defendendo o seu direito à manifestação e entrando em greve por aumentos salariais. Na França, os camionistas ameaçaram fazer explodir os seus camiões, quando enfrentam a possibilidade da sua empresa ser comprada por um patrão que impõe salários baixos.

Apesar disso, o desenvolvimento das lutas que tiveram lugar tem sido limitado, devido ao papel covarde dos líderes sindicais e à esperança, entre uma camada de trabalhadores, que a crise poderia ser temporária. No entanto, isso não vai durar, porque os efeitos da crise irão continuar a devastar e a aprofundar-se. Isso resultará numa nova fase da luta.

A participação dos jovens trabalhadores anteriormente desorganizados também tem sido uma característica das lutas, como os trabalhadores que ocuparam a fábrica de aerogeradores Vestas na Ilha de Wight, Inglaterra, e os agentes de viagens da Thomas Cooke, em Dublin, na Irlanda. Também tem havido movimentos estudantis na Áustria e na Alemanha, que seguem as ocupações de universidades e protestos estudantis de 2008 na Espanha, na Grécia e na Itália. Na Alemanha, alguns dos slogans dos estudantes têm um carácter de classe: “pais ricos para todos!” Mas, na ausência de luta de liderança, um sentido de fatalismo pode ser percebido entre os 5.000 estudantes que protestaram contra as crescentes propinas na Letónia, com uma faixa com os dizeres: “O último aluno a sair vai apagar a luz do aeroporto”!

Na França, os estudantes entraram em luta e ainda não foram derrotados.

Tem havido uma certa demora em termos de uma resposta generalizada, já que os trabalhadores têm tido esperança que as coisas vão voltar ao “normal” e que esta crise económica é apenas um problema temporário. Evidentemente, essa esperança equivocada é reforçada por relatos de recuperação económica promovida pelos governos, desesperados, para evitar enfrentar lutas de massas dos trabalhadores.

Judy informou sobre o aumento acentuado na luta operária e grevista na Grã-Bretanha. Os trabalhadores foram forçados a tomar medidas para defender os seus direitos, mesmo quando os dirigentes sindicais não os apoiaram, e tem havido uma série de ocupações e greves, algumas das quais ignorando as brutais anti-leis sindicais.

Períodos de teste para lideranças sindicais

Os dirigentes sindicais irlandeses enfrentam um severo teste com o governo irlandês a anunciar cortes de 4 mil milhões € no orçamento. Após duas décadas de “parceria” entre os sindicatos e o governo irlandês, os dirigentes sindicais e as estruturas estão mal equipados para a batalha épica em defenda dos seus membros atingidos pelos ataques. Os trabalhadores irlandeses mostraram a sua profunda revolta e seu o desejo de acção com a participação maciça dos trabalhadores do sector público nas greves e manifestações que tiveram lugar até agora. Mas agora os dirigentes sindicais venderam-nos. Na verdade, até propuseram em “nome dos trabalhadores”, doze dias de férias não remuneradas – um corte de pagamento de uma forma ligeiramente diferente!

Mas não é só na Irlanda, onde os dirigentes sindicais agem de forma omissa e hesitante. A necessidade de organizações da classe trabalhadora que estejam à altura das necessidades neste período de ofensiva contra os padrões de vida dos trabalhadores é uma das tarefas agora colocadas.

Joe Higgins, deputado europeu do Socialist Party da Irlanda, descreveu a preferência de muitos líderes sindicais em tentar um acordo com os patrões. Mas, como Joe advertiu com uma citação do grande marxista irlandês, James Connolly: “a timidez no escravo induz a audácia do tirano”! A experiência tem demonstrado que onde os trabalhadores aceitam qualquer redução na remuneração e condições, os patrões irão exigir ainda mais.

Na Alemanha, onde nove milhões de trabalhadores estarão em processos de negociações salariais do próximo ano, os líderes sindicais metalúrgicos estão a propor uma semana de trabalho mais curta, com perda de remuneração como a única alternativa aos cortes de empregos. O CIT exige uma semana de trabalho mais curta, mas sem perda de remuneração, como um aspecto de um programa contra o desemprego em massa. O CIT propõe uma estratégia de defesa dos salários e condições de trabalho.

Els da Bélgica, informou sobre a luta dos trabalhadores da indústria química Bayer, em Antuérpia. Estes trabalhadores foram ameaçados com um congelamento de salários de quatro anos e uma tentativa de prolongar a semana de trabalho. Um membro do CIT está em uma posição de liderança no sindicato dos trabalhadores da Bayer e ganhou o apoio à posição de que os trabalhadores não aceitaram “nem um minuto a mais do dia, nem um centavo a menos no salário”. A luta foi-se ampliando e ganhou o apoio de toda a indústria química em Antuérpia e, por fim, da direcção do sindicato.

Não há retorno ao ‘normal’

Na conclusão dos debates sobre a Europa, Niall Mulholland do Secretariado Internacional do CIT, salientou que ainda estamos na primeira fase da crise e das suas consequências e seria um erro pensar que as coisas continuarão como estão.

A ressaca do colapso do estalinismo e o impacto que teve na consciência de massa ainda estão para ser superados, tal como o papel de bloqueio desempenhado por muitos líderes sindicais.

As sondagens feitas no último ano mostraram que, apesar Tony Blair e outros como eles tentarem fazer passar que os trabalhadores são a “classe média”, eles estão cada vez mais conscientes de sua posição de classe na sociedade. Amplos sectores da classe média também estão também a ser martelados pela crise, com, por exemplo, milhares de advogados a perderem os seus empregos na cidade financeira de Londres, a City.

Embora a consciência de classe ainda tem um longo caminho para se desenvolver, o debate mostrou a preparação de grandes secções da classe trabalhadora para lutar contra os ataques que eles enfrentam. Quando a espera prolongada por um regresso ao ‘normal’ desaparecer e uma maior compreensão do futuro, sem emprego e sem perspectivas se enraizar, as lutas de massa e a oposição ao capitalismo irão crescer.

Nikos, da Grécia relatou os movimentos da juventude no final de 2008. Eles foram desencadeados pelo assassinato de um adolescente pela polícia, mas as razões eram as condições de vida dos jovens no trabalho e no ensino. Embora o desemprego e muitos trabalhos a tempo parcial e precário sejam extremos na Grécia, com 25% de desemprego, as condições dos jovens em toda a Europa estão similares e o surgimento de movimentos similares é cada vez mais possível. Na Irlanda, um quarto dos que vivem do subsídio de desemprego tem menos de 23 anos de idade. Isso ainda não provocou a oposição e os protestos em massa, mas as campanhas, como a Youth Fight for Jobs (Juventude em Luta por Trabalho) irá fornecer um veículo para que os jovens se interliguem e organizem e partam para a luta.

Joe Higgins sublinhou que agora, quando os movimentos da classe trabalhadora ocorrem, o programa de luta de classes e por uma alternativa socialista do CIT toma um significado mais concreto para a população trabalhadora e da juventude e ganha um eco muito maior.

O CIT irá desempenhar um papel importante no processo de radicalização dos trabalhadores e da juventude, com, por exemplo, Joe Higgins, no Parlamento Europeu, os vereadores do CIT em alguns países europeus e com a ênfase que o CIT coloca na luta de massas, através do nossos trabalho nos novos partidos de esquerda e nos sindicatos.

À medida que mais e mais pessoas em toda a Europa tirarem a conclusão de que outra forma de organização da sociedade é necessária para acabar com o desperdício e o caos do capitalismo, aumentará o número de trabalhadores e jovens que procuraram uma Alternativa Socialista.


[i] O Esquema “Dinheiro por ferro-velho”é uma modalidade de saque dos orçamentos estatais que compram equipamento obsoleto como se fosse novo. (Nota do Tradutor)

[ii] Detroit, a Capital da indústria automóvel norte-americana, foi “arrasada” com as falências sucessivas das multinacionais do sector. (Nota do Tradutor)

12 Responses “Europa – Um continente envolvido numa crise económica, social e política” →
  1. como a crise da U.E foi sentida pelo mundo

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