Ecologia: a perspectiva marxista

Artigo de Gonçalo Romeiro, Socialismo Revolucionário.

Pupils Strike For Climate Change

Estudantes do ensino secundário durante uma greve e protesto exigindo ao governo políticas ambientalistas eficazes. 25 de Janeiro de 2019, Berlim, Alemanha. (Fotografia de Omer Messinger/Getty Images)

“Mesmo toda uma sociedade, uma nação, ou todas as sociedades existentes simultaneamente, como um todo, não são os donos da Terra. São simplesmente os seus possuidores, os seus beneficiários, e têm de a legar em estado melhorado às próximas gerações, como bons chefes de família.”

– Karl Marx, Terceiro Volume d’O Capital

Antropoceno na era do Capital

A Humanidade surgiu na Terra há cerca de 1 milhão de anos. Na luta por sobreviver e prosperar, alterou radicalmente os seus ecossistemas. Ao moldar a natureza às nossas necessidades, moldámos a nossa própria evolução biológica e social. O desenvolvimento da agricultura e da sociedade de classes, assim como da indústria moderna, representaram saltos titânicos na nossa relação com a natureza, acelerando drasticamente o nosso impacto sobre toda a vida do planeta. Apesar da juventude da nossa espécie quando comparada com os 4,5 mil milhões de anos da Terra, inaugurámos uma nova era geológica: o Antropoceno, onde a actividade da sociedade humana impacta decisivamente a evolução das restantes formas de vida.

O Antropoceno na era capitalista, em que os meios de produção e reprodução da vida se encontram nas mãos de uma ínfima minoria, constitui o seu estádio inferior e destrutivo. Nas suas mãos, o conhecimento técnico não está ao serviço da prosperidade humana e da sustentabilidade ambiental, mas sim da lógica febril da acumulação privada. Hoje, as 26 pessoas mais ricas do mundo detêm tanta propriedade como os 3,8 mil milhões que compõem a metade mais pobre. Apenas 100 empresas são responsáveis por 71% das emissões de gases com efeito de estufa desde 1988. Começou a 6ª extinção em massa e a burguesia dirige a humanidade a todo o vapor para o abismo da destruição climática.

O que propomos, no entanto, não é fazer retroceder a roda da história, fantasiando o regresso à “vida do campo” ou aos caçadores recolectores — onde a nossa esperança média de vida mal excedia a do chimpanzé. Muito menos aceitamos a visão reaccionária que olha para a humanidade como um cancro na natureza. A ideia da humanidade contraposta à natureza nasce em capitalismo, com o desenvolvimento da indústria moderna e a migração de milhões de camponeses, que viviam intimamente ligados à natureza, para grandes centros urbanos. Essa ideia perecerá com o capitalismo.

Nós, marxistas, não rejeitamos avanços técnicos. Damos as boas-vindas ao Antropoceno! A burguesia, na sua marcha cega para a acumulação de capital, não consegue evitar desenvolver as forças da sua própria destruição: a grande massa de despossuídos, o proletariado tem o interesse e o potencial para derrubar o capitalismo e construir uma sociedade que beneficie a maioria. Com o controlo dos meios de produção, a classe trabalhadora poderá levar a cabo um investimento massivo em energias limpas, planear a limpeza de rios e oceanos, assim como da própria atmosfera. Poderemos inclusivamente restaurar espécies essenciais para a vida como a conhecemos, e que hoje se encontram em vias de extinção. Em suma, poderemos não só prevenir a catástrofe que o capitalismo cria como ainda inaugurar uma era de verdadeiro domínio humano sobre as forças da natureza; o Antropoceno socialista.

A impossibilidade do capitalismo verde

Há mais de 30 anos que os líderes burgueses de todo o mundo reconheceram as alterações climáticas, em particular o aquecimento global, como um problema central a nível planetário. Cimeira após cimeira são-nos apresentados cenários e perspectivas cada vez mais desastrosas. Os dirigentes burgueses mais esclarecidos reconhecem que o impacto das alterações climáticas também afectará os seus lucros e riqueza a longo prazo. Ainda assim, ano após ano, a burguesia é incapaz de chegar a acordo sobre medidas eficazes. As taxas sobre emissões de carbono, que tentaram colocar limites de emissões a Estados e empresas, foram um falhanço. Mesmo os subsídios públicos a energias renováveis, uma medida mais promissora pelos seus elementos de intervenção estatal i.e. de alguma planificação económica , nunca funcionaram e, após a crise de 2008, entraram em declínio à medida que a burguesia se dedicou a viver cada vez mais do rentismo dos seus Estados, cortando o financiamento destes programas de transição energética.

Perceber a impossibilidade de a burguesia resolver um problema que a afectará a longo prazo implica ter em conta a lógica interna do capitalismo, particularmente na sua era decadente. A competição desenfreada pelo mercado mundial e a natureza caótica da produção de mercadorias, exacerbadas pela crise, levam à incapacidade de planeamento por parte da burguesia. Uma cooperação a nível mundial, necessária para travar as alterações climáticas, é inconciliável com a luta por lucros trimestrais. O burguês luta, em primeiro lugar, pelo seu lucro particular. Nessa luta, a sua ferramenta mais poderosa continua a ser o Estado-nação. Assim se explica a atitude dos governos estado-unidenses face aos protocolos de Kyoto em 1998 e, mais recentemente, aos acordos de Paris em 2015. A burguesia yankee recusa-se a pagar pelas alterações climáticas.

Olhando para a China, podemos entender a profundidade destas contradições. Por um lado, a intervenção estatal possibilitou o crescimento acelerado da produção de energia solar, catapultando a potência ascendente para a posição de líder mundial do sector. Por outro lado, a China tornou-se em simultâneo o maior emissor de CO2 do planeta, mostrando-se incapaz de ultrapassar o uso de combustíveis fósseis como o petróleo e o carvão.

A deterioração das relações entre as potências imperialistas apontam-nos claramente o futuro que o capitalismo nos reserva, tão distante dos sonhos liberais e reformistas de uma transição energética nos limites do mercado. O “capitalismo verde” não passa de um rótulo para vender mercadorias. Só resolve os problemas de consciência da pequena-burguesia endinheirada.

Em menos de duas décadas a lista de guerras por petróleo é extensa: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. A tentativa de golpe de Estado em curso na Venezuela é apenas o último exemplo deste caminho ruinoso. Trump e Bolsonaro, ambos negacionistas das alterações climáticas, são os rostos do capitalismo da nossa era.

Só a classe trabalhadora tem a solução

Ao contrário dos mitos anti-ecologistas propagados por todos os difamadores do marxismo, Marx foi pioneiro na sua análise sobre a inter-relação entre a humanidade e a natureza, assim como das consequências ecológicas do capitalismo. Mais tarde, o primeiro Estado Operário do mundo a Rússia Soviética foi pioneiro no desenvolvimento de políticas ecologistas abrangentes. Sob a direcção do Partido Comunista de Lenin e Trotsky, as primeiras reservas naturais do mundo foram criadas, de forma a conservar a natureza e a avançar no seu estudo científico. A primeira metade da década de 1920 foi marcada por uma política revolucionária em relação à gestão da terra, das florestas e dos oceanos. A contra-revolução estalinista marcou o fim deste caminho iniciado pela classe trabalhadora, mas não apagou o seu legado.

Relembrar a história e colocar de novo a classe trabalhadora no centro da luta contra as alterações climáticas nunca foi tão urgente. Não há tempo para os jogos sangrentos da burguesia mundial, que passeia entre cimeiras e guerras. Não há tempo para as falsas soluções de consumo “ecológico” individual que são propagadas por todos os porta-vozes da burguesia e da pequena-burguesia — essa culpabilização de trabalhadores e pobres pela destruição que causa o capitalismo.

Nem o mercado, nem os Estados burgueses oferecem qualquer solução. Tentar conciliar os lucros da burguesia com a salvação da humanidade, em suma, tentar encontrar uma solução dentro dos limites do capitalismo, é afundar a humanidade na barbárie, e possivelmente levá-la à extinção.

O movimento ecologista, hoje liderado pela pequena-burguesia e até por elementos da burguesia, mas composto por uma crescente base jovem e proletária, deve ligar-se à luta da classe trabalhadora nos locais de trabalho. Só a classe trabalhadora, pela sua capacidade não só de parar como de controlar a produção, tem as armas para derrubar o capitalismo. A greve mundial climática do próximo 15 de Março, convocada por estudantes numa resposta magnífica ao apelo de Greta Thunberg, é um passo histórico nessa direcção. Parar as aulas pelo futuro deve ser o primeiro passo para parar a produção e tomar a produção pelo futuro.

A classe trabalhadora não é apenas o sujeito com o poder para evitar a catástrofe climática, é também a classe mais afectada por ela, logo, a mais interessada no sucesso desta luta. As organizações laborais, sociais e políticas dos trabalhadores devem formar uma frente unida pelo clima, concretizando um plano de luta que termine aquilo que a juventude começou. Essa luta não pode apontar a meias-medidas para domar um sistema moribundo. Começando pela nacionalização do sector energético e de transportes sob controlo operário, esse controlo deve alargar-se à banca e às multinacionais de forma a colocar toda a riqueza da sociedade ao serviço das necessidades da humanidade e do planeta. Hoje, mais do que nunca, a luta pelo ambiente é a luta pelo socialismo.

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