Ambiente: um mundo de mudança

Por Jess Spear, Socialist Alternative (CIT nos EUA) a 23 de Dezembro de 2015, traduzido pelo Socialismo Revolucionário. Original aqui.


68e90b92d814b0d74d6776a5dc813108Arábia Saudita, 2015

Ambiente: Um mundo de mudança

Os seres humanos alteraram radicalmente a Terra, adaptando a natureza na luta pela sobrevivência e prosperidade. O ritmo da mudança acelerou rapidamente com o desenvolvimento da agricultura e da sociedade de classes. Este atingiu uma velocidade vertiginosa na revolução industrial e com os avanços científicos e tecnológicos do pós-guerra. Muitos agora dizem que entrámos numa época geológica distinta – uma nova era humana, o Antropoceno.

Os humanos, entrando em cena aproximadamente há um milhão de anos e construindo a sociedade industrial moderna como a conhecemos apenas há 50 anos, representam um instante na história de 4.5 mil milhões de anos da Terra. Ainda assim, em cada fase de desenvolvimento da humanidade, temos modificado a natureza e por isso modificado a nossa própria evolução, preparando o caminho para mudanças biológicas e sociais. Do simples cultivo até à exploração de combustíveis fósseis e ao lançamento de bombas atómicas, a nossa interacção com a natureza passou de local a global. A humanidade deixou, sem dúvida, a sua marca no planeta.

Conseguimos descobrir o aspecto da Terra, a forma e a posição dos continentes à medida que se têm afastado e recombinado a cada 300-500 milhões de anos, que criaturas vaguearam pelos seus mares e terras, e que plantas cobriam a superfície, pelo decifrar dos indícios químicos ou físicos deixadas pela sua existência. E o que aprendemos foi que o planeta nunca está estático. O planeta – como o conhecemos, o sistema terrestre compreendido por rocha, água e atmosfera em constantes ciclos de trocas de energia interligados – sempre esteve em tumulto, com extinções em massa e alterações climáticas. A história da Terra está repleta de mudanças radicais.

No entanto, os cientistas hoje soam os alarmes pela rapidez da mudança que estamos a testemunhar comparada com a que existiu antes da sociedade humana. Os cientistas do clima apontam para a rápida alteração dos gases com efeito de estufa, os biólogos para o crescente número de extinções de espécies, os oceanógrafos para acidez crescente do oceano e os cientistas do solo para o esgotamento de nutrientes e degradação das terras cultiváveis como prova de que a actividade produtiva da humanidade está a devastar o sistema terrestre. A taxa de aumento do dióxido de carbono (CO2) não é comparável com nada que se tenha visto na história da Terra pelo menos nos últimos 800,000 anos.

As alterações climáticas e a depressão económica, as crises duais do capitalismo, têm produzido uma crescente revolta global e uma busca por ideias e estratégias para acabar com a nossa miséria e proteger as gerações futuras. Os movimentos de massas contra a austeridade demonstram que os trabalhadores se recusam a aceitar um sistema que exige cortes severos aos níveis de vida para satisfazer os 1%. O que ainda não é claro para a vasta maioria das pessoas que se revoltam contra a elite dominante é com o que substituir este sistema podre e como fazê-lo. Com a janela de oportunidade para mitigar as consequências das alterações climáticas e impedir uma disrupção mais profunda a fechar-se de ano para ano, ganhar a classe trabalhadora para uma alternativa socialista é ainda mais urgente. Apenas o socialismo científico pode armar a classe trabalhadora com um programa e uma estratégia capaz de unir e lutar contra o domínio da 1%, transferir o poder para os 99% e rapidamente implementar um plano para desenvolver a sociedade em linhas sustentáveis.

Mais calor, mais problemas

Nós vivemos vidas relativamente breves. Com pouco menos de um século como referência, a nossa perspectiva das mudanças globais é correspondentemente estreita. Para complicar ainda mais, a Terra é bastante grande, por isso não reparamos nos efeitos acumulados da desflorestação, no recuo dos glaciares e nas monumentais pilhas de lixo que se estão a amontoar nos giros oceânicos do Pacífico e Atlântico. A subida da temperatura da Terra em quase um grau Celsius não significa virtualmente nada para as comunidades que diariamente sentem flutuações maiores.

Que tenhamos desenterrado e queimado tanto carbono, alterando quimicamente o ar que respiramos, que agora haja 400 moléculas de CO2 por cada milhão de moléculas no ar – um nível nunca visto, talvez, nos últimos 25 milhões de anos – onde antes havia cerca de 280, passa geralmente despercebido. No entanto, independentemente da nossa incapacidade para perceber a transformação radical da nossa atmosfera e com o privilégio geral de “longe da vista, longe do pensamento” que os  países desenvolvidos têm no que toca à poluição e à destruição ambiental, estamos a atingir perigosos pontos de viragem.

As consequências de queimar combustíveis fósseis já são há muito conhecidas. Tão cedo como em 1896, Svante Arrhenius publicou um artigo detalhando como o CO2 absorve a luz reflectida da superfície da Terra, impedindo-a de escapar do sistema terrestre (isto é, o efeito de estufa). No final dos anos 50, Charles Keeling começou a medir a concentração de CO2 na atmosfera. Dentro de apenas alguns anos ele chegou à alarmante descoberta de que não só existem flutuações sazonais de CO2 relacionadas com a sua absorção pelas plantas, seguida da devolução à atmosfera quando estas se decompõe, mas que a concentração em geral estava a crescer rapidamente todos os anos. A Curva de  Keeling – que continua a crescer à medida que medições são acrescentadas a um registo contínuo, desde 1958 até hoje – é considerada como a primeira prova de que a actividade industrial estava a transformar a concentração atmosférica dos gases com efeito de estufa.

Todavia, o canário na mina de carvão é a dramática e rápida diminuição das calotes polares da Terra. A notícia no ano passado de que o manto de gelo da Antártida ocidental se desestabilizou, e é esperado que se desintegre durante os próximos séculos, deveria ter evocado uma resposta imediata dos líderes mundiais. O manto de gelo possui água suficiente para subir o nível global das águas do mar por cerca de 3.3 metros! Não há maneira de impedir o seu desaparecimento. Agora apenas nos podemos adaptar à subida da água. Somando a isto está a notícia de que uma secção do manto de gelo da Gronelândia, que contém o equivalente a uma subida de meio metro do nível médio do mar, também está a derreter rapidamente. O gelo do mar do Ártico também tem sido reduzido dramaticamente e os cientistas esperam que o Árctico esteja livre de gelo durante o verão tão cedo como em 2020.

Os glaciares e mantos de gelo da Terra agem como um ar condicionado global, mantendo o planeta mais fresco do que estaria ao reflectirem a luz solar. A perda do gelo da Terra (gelo terrestre) não vai apenas fazer subir o nível do mar, desalojando mais de mil milhões de pessoas que habitam as linhas costeiras mais baixas. Também vai aprofundar a disrupção do clima, agindo em retroalimentação positiva reforçando o aquecimento global. À medida que o gelo derrete, a Terra absorve mais calor, mais gelo derrete, e assim por diante.

Ainda assim, para a maioria das pessoas, as alterações climáticas significam verões mais quentes e eventos climáticos extremos. Não estamos apenas a falar do nosso futuro – que vai sem dúvida ficar mais quente, com eventos meteorológicos mais intensos – mas da nossa situação actual. 2015 está a caminho de ser o ano, desde que há registos, mais quente. Atingimos agora a marca de 1 grau (acima dos níveis pré-industriais) para a subida média da temperatura global (subiu de 0,85 graus). Este aumento da temperatura produziu ondas de calor, cheias e eventos meteorológicos mortais que nos forçam a reconhecer que as perturbações do clima não são meramente algo que os cientistas possam debater e discutir para gerações futuras. As alterações climáticas são o nosso presente.

Em 2003, estima-se que 70.000 pessoas tenham morrido devido à onda de calor que atingiu a Europa. Desde os anos 60 que os eventos meteorológicos extremos têm mais que triplicado, matando agora cerca de 60.000 pessoas, maioritariamente de países subdesenvolvidos. A Organização Mundial de Saúde estima que sem esforços de mitigação podemos esperar que mais um quarto de milhão de pessoas sejam mortas por causas relacionadas com as alterações climáticas a partir de 2030-50.

Quando pensamos em futuras alterações climáticas é importante reter em mente que as alterações climáticas globais partem apenas de um pequeno aumento na temperatura global. Apenas um grau Celsius. Imaginem os impactos sobre nós, o ambiente que nos sustenta, o sistema terrestre em si, quando a Terra aquecer mais um grau. Isto é o que os cientistas dizem que podemos esperar até ao fim do século, se não pararmos o “business-as-usual”, isto é, se não pararmos de fazer as coisas como fizemos até agora.\

Bem-Vindos ao Antropoceno

A alteração do nosso planeta devido à actividade humana, desde o topo da atmosfera até ao fundo do oceano, é tão extensa que um número crescente de cientistas que estudam a história e o sistema da Terra estão agora a debater calorosamente se entrámos numa nova época geológica, o Antropoceno (anthropo – humano, ceno – novo), ou se já tínhamos entrado há séculos e não o sabíamos.

Propor uma nova época geológica não significa apenas adicionar uma data e um nome à escala de tempo geológico, que se estende 4,5 mil milhões de anos desde a formação do sistema solar até hoje. De facto, a escala de tempo geológico não é uma mera lista de datas e nomes. Também é uma ferramenta – uma medida comum que os cientistas usam para entender como as mudanças no nosso planeta ocorreram, desde o seu nascimento até agora. Os éons, as eras e as épocas que a compreendem são distinguidas por mudanças rápidas no planeta inteiro. Aceitar o Antropoceno como uma nova época é por isso uma questão de compreender se o impacto que a humanidade teve é abrupto, discernível a nível global e indubitavelmente diferente da época anterior, o Holoceno (e antes disso, o Pleistoceno). Por outras palavras, terá a actividade humana fundamentalmente alterado o sistema terrestre de maneira a que seja visível nas rochas, na água, na atmosfera e que os cientistas do futuro o possam ver também?

Os que defendem acrescentar esta nova época à escala de tempo geológico discordam sobre quando, exactamente, começou o Antropoceno. Actualmente há três datas a serem debatidas – há 8.000 anos, na revolução industrial e em 1945 – que representam marcos ao longo do caminho para a civilização à medida que a humanidade descobriu e aplicou novas maneiras de modificar a natureza para satisfazer as nossas necessidades básicas. Alguns defendem que começou há volta de 8.000 anos quando os humanos começaram a desmatar florestas e a cultivar arroz, o que alterou a concentração atmosférica dos gases com efeito de estufa.

Outros defendem que o Antropoceno começou de facto no início da revolução industrial quando o uso generalizado dos combustíveis fósseis começou a perturbar o sistema terrestre,levando aos efeitos que estamos a presenciar hoje e iremos testemunhar no futuro. Os testes indiscriminados da bomba atómica, começando com a Experiência “Trinity” em 1945, são a última data proposta. Esta data não é apoiada porque os testes em si perturbaram o sistema terrestre – no entanto não devemos esquecer que os cientistas advertiram para os perigos de ‘inverno atómico’ induzido por uma guerra nuclear – mas porque as bombas atómicas deixam uma impressão digital global facilmente vista e medida, e os testes atómicos marcam o aumento do período de expansão sem precedentes do capitalismo Norte Americano.

Ao contrário de alterações prévias à escala de tempo geológico, estas propostas têm implicações políticas e sociais. O facto dos cientistas estarem a sugerir uma nova época marcada pelas alterações causadas pela actividade humana tem sido correctamente apropriado pelos ambientalistas como prova concreta de que estamos de facto a alterar o planeta radicalmente.

A resposta da esquerda tem sido uma mistura de confusão e ambiguidade do debate científico acompanhado da previsível resposta política. Alguns anti-capitalistas discordam sobre o nome da época. Argumentam que o foco nos humanos insinua que todos os humanos são responsáveis, escondendo a causa real das rápidas mudanças que estão a ocorrer: nomeadamente, o capitalismo. Para outros, particularmente ecologistas verdes empedernidos, é a prova que a humanidade é em grande parte sociopática – como nos atrevemos a baptizar uma época por causa dos humanos! – e que o problema é a civilização, não os humanos.

Estes argumentos nascem ou da incompreensão ou da falta de conhecimento de como a humanidade e a sociedade humana se desenvolveram ao longo dos últimos milhões de anos. Uma análise materialista histórica da história humana e pré-história é de facto a chave para abrir a porta para o nosso futuro sustentável.

A mudança é constante

“A história pode ser vista de dois lados: pode ser dividida em história da natureza e em história do homem. Os dois lados, no entanto, não devem ser vistos como entidades independentes. Desde que o homem existe, a natureza e o homem têm-se influenciado mutuamente”, escreveram Karl Marx e Friedrich Engels na Ideologia Alemã (1846). Muitos no movimento ambiental, no entanto, acreditam que não conseguimos interagir na natureza sem causar dano porque nós, humanos, somos separados da natureza. Este argumento está incorporado num livro escrito pelo líder ambiental e fundador do 350.org, Bill McKibben, The End of Nature (1989).

greenmarx

Fonte: ecosocialismcanada.blogspot.com

Semelhante à Primavera Silenciosa (1962) de Rachel Carson, o livro de McKibben é visto como um dos primeiros a avisar a humanidade dos perigos do aquecimento global. Nele McKibben não só adverte para a poluição de carbono como apaixonadamente afirma que a humanidade destruiu a natureza, que “acabámos com a coisa que tem, pelo menos nos tempos modernos, definido a natureza para nós – a sua separação da sociedade humana”. Alterámos a composição química da atmosfera, diz ele, portanto não há nenhum lugar na Terra que se possa visitar que esteja intocado pela humanidade.

Contudo, a nossa “separação da natureza” é um fenómeno recente, um produto do capitalismo, que combinou o trabalho assalariado com a produção social para atingir lucro privado, separando os humanos da Terra na qual trabalhavam para se sustentar. Durante a larga maioria da existência humana estávamos intimamente ligados à Terra, aprendíamos e acumulávamos conhecimento sobre as suas mudanças sazonais e experienciávamo-las como parte da nossa existência, mesmo não percebendo as forças por detrás destas. Como Marx explicou, “o homem vive da natureza, ou seja, a natureza é o seu corpo e ele deve manter um diálogo continuado com ela se não quiser morrer”. Então, a concepção de que somos separados da natureza é também recente e está ligada ao desenvolvimento do capitalismo.

A noção de que o problema é a sociedade industrial moderna, e que voltar a viver directamente a partir da Terra é a solução, é ao mesmo tempo excessivamente simplista e a-histórico. Extrai a civilização da história da humanidade e mede o seu impacto baseada na presunção que a situação que existia antes da civilização era melhor – para a Terra, mas claramente não para os humanos uma vez que morríamos de todos os tipos de problemas de saúde, que são agora tratáveis e preveníveis.

Ainda para mais, ignora que os humanos pré-modernos também alteraram em grande modo a Terra. Desde que temos barcos (10.000+ anos) e que as pessoas atravessaram os mares, primeiro na busca de alimento, depois para conquista imperialista e/ou à procura de liberdade religiosa, temos sem saber (mas muitas vezes sabendo) transportado espécies de um lado da Terra para o outro, alterando radicalmente os ecossistemas, fazendo algumas espécies florescer em novos ambientes e levando outras a serem extintas. Os defensores da primeira data para o começo do Antropoceno iriam argumentar que o advento da agricultura no fim da última idade do gelo chegou até a alterar a composição química da atmosfera, prova de que os humanos já estavam a alterar radicalmente o planeta tão cedo como há 8.000 anos.

De facto, não somos sequer a primeira espécie a transformar a atmosfera. Para dar um exemplo extremo, há cerca de 2,7 mil milhões de anos, apareceram as cianobactérias (algas verde-azuladas), tornando-se nos primeiros organismos a realizar a fotossíntese e a produzir oxigénio como subproduto. Antes de evoluírem e começarem a produzir oxigénio, praticamente não existia oxigénio na atmosfera. Sem as cianobactérias não existiríamos.

Interagir com a natureza sem a alterar é impossível. Os organismos vivos têm de trocar matéria com a Terra para viver, influenciando assim o seu ambiente, afectando a sua evolução e a de outras espécies. Como Richard Levins e Richard Lewontin escreveram no The Dialectical Biologist (1985), “o ambiente e o organismo codeterminam-se um ao outro”. Mas se todas a espécies impactam a natureza de alguma maneira, somos nós, com o nosso aumento da população e vasta actividade industrial, relegados para o papel de destruidores perpétuos da natureza?

Dentro ou fora?

A nossa capacidade para perceber o impacto que estamos a ter no planeta, que vai ter consequências negativas para nós tanto no curto como no longo prazo e as decisões que tomamos para alterar o rumo da história é o que nos separa das cianobactérias e de outros organismos. O trabalho não é só uma fonte de riqueza. Foi também o que criou a humanidade, o pensamento consciente, o planeamento consciente e a acumulação de conhecimento.

O advento das ferramentas, e com isto o co-desenvolvimento da mente, a actividade social da caça e o desenvolvimento da linguagem, põe-nos num caminho que produz um excedente de alimento, a própria base da sociedade de classes, da civilização e do conhecimento científico. Resumindo, toda a história da humanidade pode ser destilada até à organização do trabalho e da técnica, e às mudanças simultâneas na cultura, sociedade e ambiente.

Quando o capitalismo substituiu o feudalismo, começou o longo processo de conduzir amplas secções da população para longe das quintas e para dentro das fábricas e das cidades, e mudou as nossas ideias sobre a natureza em relação a nós próprios. Deixámos de nos ver como parte da natureza para nos vermos separados dela. Para os capitalistas a natureza tornou-se uma fonte de riqueza gratuita que, moldada pelo trabalho humano, lhes proporcionava lucros enormes. Para a nova classe trabalhadora, alienada da natureza, o destroçar da Terra para obter matéria-prima, o despejar de toxinas nos rios e os céus fuliginosos sobre os centros urbanos representavam um assalto à natureza, a degradação de áreas, em tempos, belas. Em cada momento, enquanto a humanidade saltava da revolução agrícola para a revolução industrial, as nossas ideias sobre nós próprios em relação com a natureza mudaram.

Rumo a um futuro socialista

“Não queremos apenas uma melhoria da sociedade presente, mas o estabelecimento de uma nova”. (Engels, citado por John Green em A Revolutionary Life, 2008) O capitalismo já ultrapassou a sua utilidade para a humanidade. Está a destruir o ambiente, a perturbar o clima e a relegar mil milhões de pessoas para uma morte lenta por fome e desnutrição. Ninguém pode argumentar que um sistema baseado na obtenção de lucro pode resolver um problema do qual depende para existir. O capitalismo não pode oferecer os meios para restabelecer o equilíbrio ecológico porque não atribui valor algum à natureza. Ainda assim, atirar toda a civilização moderna, promovida pela tremenda riqueza, pela tecnologia e recursos desenvolvidos pelo capitalismo, para o caixote do lixo, como alguns sugerem que façamos, porque também contribuiu para a destruição ambiental é estar a ignorar o potencial, também criado por este sistema, para criar um futuro sustentável.

Quando o capitalismo triunfou sobre o feudalismo, libertou a ciência das garras da religião que procurava abafar as descobertas que contestassem o seu domínio. O avanço da técnica capitalista, da produção socializada, da divisão do trabalho e da maquinaria requereu grandes saltos no domínio da ciência. E mesmo com o investimento na investigação científica focado em primeiro lugar em maximizar ainda mais os lucros, a classe dominante de hoje não consegue travar descobertas que eventualmente prejudiquem a sua autoridade. Quer seja plástico feito de cascas de banana ou estradas solares, a ciência aplicada aos problemas ambientais e sociais está a erodir a autoridade daqueles que dizem necessários os combustíveis fósseis.

O capitalismo também desenvolveu a força que tem o poder de libertar toda a humanidade: a classe trabalhadora. À medida que o capitalismo tirou as pessoas do campo para o trabalho assalariado maioritariamente urbano, criou a força que tem o interesse comum e o potencial de o derrubar, e criar uma sociedade que beneficie a maioria. Em todo o lado vês os trabalhadores a erguerem-se e a exigir mudança, porque não só o capitalismo atrasa a transição para a energia renovável mas também se recusa a investir na sociedade.

A corrida ao lucro põe as grandes empresas e os mais pequenos negócios a competir por uma quota de mercado, a diminuir os salários, a cortar nos benefícios e a ameaçar com ruína económica para obter impostos mais baixos. O capitalismo já não consegue fazer crescer reservas suficientes para oferecer à classe trabalhadora uma parte dos lucros. A elite dominante a nível mundial não faz ideia de como restaurar o crescimento económico e, ao mesmo tempo, assegurar os pagamentos aos maiores titulares da dívida soberana.

Os movimentos anti-austeridade desde a Irlanda ao Estado Espanhol e até à heróica classe trabalhadora na Grécia têm-se recusado a aceitar o seu destino. Os protestos contra novos acordos comerciais – a Parceria Transpacífica e o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento – revelam que os trabalhadores compreendem que as empresas estão à procura de cimentar o seu domínio no direito internacional, ignorando as necessidades das pessoas e do planeta.

Superar um sistema que se baseia na exploração de todos nós, que nos separou da natureza e que nos está a dirigir para um futuro completamente insustentável, começa antes de mais nada com a rejeição das suas ideias. Se limitarmos o que a humanidade é, ignorarmos o que foi e, mais importante, não percebermos como mudou de uma para a outra, então estamos efectivamente a rejeitar a ideia de que evoluímos e que, crucialmente, ainda estamos no processo de evoluir.

O estado do planeta durante o Antropoceno, quer aceitemos a primeira data ou a última, é um de constante mudança. A nossa evolução de caçadores-recolectores até à sociedade industrial moderna envolveu constante interacção com o nosso ambiente. Isso moldou-nos. Nós moldámo-lo. Através deste processo desenvolvemos ideias sobre aquilo que somos, o que o nosso ambiente é e as nossas relações um com o outro. A humanidade, com todo o conhecimento acumulado e a experiências das gerações passadas, tem, passado todo este tempo, desenvolvido a capacidade para finalmente passar de meramente sobreviver para passar a viver de facto.

Os vastos recursos, a tecnologia, a riqueza e a engenho humano podem ser aproveitados e direccionados para acabar com o sofrimento desnecessário, subir os níveis de vida globalmente e atingir o equilíbrio ecológico. Se compreendermos este facto e o usarmos para guiar as nossas acções, podemos então tomar o controlo sobre as mudanças que estão a acontecer agora e que vão ocorrer no futuro. Esta visão tem o potencial de unir a classe trabalhadora na sua tarefa histórica de derrubar o capitalismo. Estamos à beira de um precipício do qual podemos escolher ou saltar, na esperança que o capitalismo consiga encontrar uma maneira de lucrar com a construção de uma rede de segurança que nos apanhe, ou podemos aproveitar as ferramentas, a tecnologia e os recursos para construirmos uma ponte para um futuro socialista.

iu-7Fonte: http://sydney.edu.au/environment-institute/events/climate-change-capitalism-corporations/

 

 

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