Em defesa do feminismo socialista: Como acabar com a opressão?

Christine Thomas, artigo da revista teórica do Socialist Party of England and Wales Socialism Today, Dezembro de 2018

International Women's Day 2018 in Madrid

Manifestação no dia da Greve Geral a 8 de Março de 2018, Madrid. Foto de Juan Naharro Gimenez/Getty Imagens

À medida que a era de austeridade resultante da crise de 2007-2008 entra na sua segunda década, começa a tomar forma um novo movimento formado por mulheres que lutam contra a sua opressão. Mas ideias erradas sobre como acabar contra a opressão também voltaram à tona. As ideias do feminismo socialista são cada vez mais relevantes.

O feminismo está de volta. Por todo o mundo, mulheres têm saído à rua protestando contra opressão de género. Surgiram enormes protestos contra a violência contra mulheres, em resposta a homicídios e horríveis violações na Índia e Argentina. No dia 14 de novembro, mais de 1.5 milhões de estudantes responderam ao apelo de greve por parte do Sindicato de Estudiantes (SE) e da Libres y Combativas, a plataforma feminista socialista do SE e Izquierda Revolucionaria (CIT) contra o sexismo nas escolas e no sistema jurídico do Estado Espanhol. Na Irlanda, Polónia e Argentina, as mulheres têm-se organizado para derrotar restrições reaccionárias, tanto impostas recentemente como já existentes, sobre os seus direitos reprodutivos, desafiando assim a influência arrebatadora da Igreja Católica sobre questões sociais.

O movimento #MeToo espalhou-se à volta do mundo aumentando a consciência do problema grave que é o assédio sexual, enquanto que as eleições de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil provocaram enormes movimentos contra o sexismo de ambos os presidentes, em defesa dos direitos arduamente conquistados para as mulheres e contra os ataques antecipados. Na Escócia, mais de 8,000 mulheres trabalhadoras com salários miseráveis, empregadas pela Câmara de Glasgow, tomaram uma iniciativa de greve histórica numa luta por um salário igual.

Apesar destes movimentos serem na sua maioria diferentes, nem todos os países foram afectados da mesma maneira, não seria exagerado dizer que uma terceira onda feminista está a decorrer. Esta surge no seguimento da primeira onda na primeira metade do século XIX, e da segunda que teve efeito no final da década de 1960 e de 1970. Cada uma foi marcada pelas suas próprias características, moldada pelas condições económicas e sociais prevalentes. Contudo, é ainda possível identificar cadeias de pensamento e práticas recorrentes nestes movimentos que devem ser abordados pelos feministas socialistas.

O movimento pelos direitos das mulheres do século XIX emergiu nos EUA a partir da luta pela abolição da escravatura. Se as pessoas negras tinham o direito à igualdade, as mulheres também o tinham. À cabeça deste primeiro movimento estavam quase unicamente mulheres de classe média que se focavam principalmente nos seus direitos de igualdade legal e política comparando com os homens da sua própria classe. Estavam incluídos neste movimento o direito de voto e de acesso à educação superior, empregabilidade em áreas profissionais e políticas, que eram consideradas exclusivamente dos homens em contraste com as áreas domésticas consideradas exclusivamente das mulheres. Por outro lado, em muitos outros países este século estava também a ficar marcado com uma crescente confiança entre operários industriais, lutas explosivas em sectores com trabalhadores sobreexplorados, muitos dos quais eram mulheres, a consequente ascensão de novas formas de organizações sindicais e o desenvolvimento de organizações socialistas e Marxistas.

O aumento do acesso ao ensino superior e ao trabalho fora do lar incentivou um questionamento mais abrangente da igualdade de género por parte das mulheres envolvidas na segunda onda do movimento. O movimento de libertação das mulheres, apesar de nunca ter alcançado grandes dimensões de forma organizada, conseguiu trazer questões relacionadas com a sexualidade, violência de género e controlo do próprio corpo para a consciência popular. Este movimento desenvolveu-se num período rico em radicalização social e movimentos de massas tais como: protestos internacionais contra a guerra do Vietname, o movimento dos direitos civis nos EUA e a luta de libertação nacional nos países coloniais. Greves gerais e lutas industriais também surgiram em muitos países, em alturas adquirindo um potencial revolucionário.

Nos EUA, a relação com os movimentos dos trabalhadores era bastante fraca. No entanto, em Itália este movimento surgiu directamente das lutas de massas de trabalhadores e manteve-se intimamente ligado a estas. Noutros países tais como a Grã-Bretanha, o movimento dos trabalhadores teve uma influência importante no movimento feminista. Tratava-se de uma altura onde o potencial de uma classe trabalhadora organizada como mecanismo viável para mudanças sociais fundamentais era evidente. Mas estas lutas e greves mostram como, em tempos de lutas de massas, a relações entre a classe trabalhadora, a liderança política revolucionária e as mudanças no sistema necessitam de ser delineadas com a maior atenção. Isto é evidente pelos eventos em França em 1968, nos quais a classe trabalhadora foi impedida de derrubar o capitalismo devido à ausência de liderança do poderoso Partido Comunista.

A nova onda

A onda de protestos actual desenvolveu-se no contexto da maior crise económica do pós-guerra e das consequências devastadoras de uma década de austeridade na maioria dos países. Por um lado, a severidade da crise teve um efeito radicalizante na consciência, resultando numa crescente rejeição das várias instituições e instrumentos usados historicamente pelo capitalismo, tais como a comunicação social, a igreja e, mais dramaticamente, os partidos políticos tradicionais. Como podemos ver pelos movimentos de mulheres, esta mudança de consciência tem dado origem ao desafio da ideologia sexista e divisiva que o capitalismo tem usado para fortalecer o seu controlo económico e social.

Enquanto isto acontece, no entanto, a consciência continua a ser afectada pelo legado da época anterior à crise, na qual os trabalhadores eram enfraquecidos por ataques neoliberais e pela aceitação da ideologia capitalista dominante, resultante da queda da União Soviética Estalinista. Apesar de surgirem algumas lutas de trabalhadores importantes, particularmente na Grécia, em Portugal e outros países europeus imediatamente após a crise, a luta colectiva atingiu um novo mínimo em muitos dos países capitalistas mais desenvolvidos. A incompetência ou falta de vontade de combater o neoliberalismo, a austeridade e os efeitos da globalização por parte dos líderes políticos levou em muitos dos casos a uma rejeição dos partidos políticos e cepticismo na capacidade da classe trabalhadora de se organizar enquanto uma força colectiva capaz de mudança.

O actual movimento global de mulheres combina elementos de uma nova consciência combinado com alguns remanescentes da antiga. O facto que as mulheres, e outros grupos oprimidos, estão a combinar as suas lutas contra uma opressão partilhada é um sinal muito positivo, especialmente visto que nas passadas duas décadas o ênfase era na luta individual ao invés da colectiva. Ideias “pós-feministas” atingiram o seu pico na década de 90 e no final do século. Uma das mensagens principais transmitidas através da comunicação social, cultura pop e figuras políticas era que, ao mudar as suas próprias atitudes, afastar-se da imagem de vítima e adoptar uma certa determinação, muitos dos obstáculos para a igualdade de género podiam ser ultrapassados. Como consequência, problemas como o assédio sexual passaram a ser vistos como problemas individuais.

Actualmente, as lutas colectivas que envolvem uma nova geração de jovens estão novamente a alertar para problemas como a violência de género, o sexismo e a desigualdade. Embora o #MeToo se ter desenvolvido como um “movimento” das redes sociais dominado por mulheres com salários elevados na indústria do entretenimento, tornou-se num aviso, expondo os casos de assédio sexual e abuso por parte de homens em posições de poder e controlo. Com a confirmação inicial de Brett Kavanaugh como juíz do supremo tribunal nos EUA o movimento foi levado para as ruas. O impacto deste transcendeu o mundo do entretenimento e da política quando os trabalhadores do McDonald’s entraram em greve em dez cidades dos EUA em Setembro para protestar contra o assédio sexual no trabalho e na greve global por parte de milhares de trabalhadores da Google.

Como nas ondas anteriores, este movimento apresenta contradições, com ideias e estratégias concorrentes. Estas dão origem a desafios estratégicos e teóricos para os feministas socialistas. Durante a primeira onda feminista, o maior debate dos marxistas e feministas socialistas revolvia à volta de como se relacionar com o movimento das mulheres “burguesas”, como ficou conhecido, especialmente quando as reivindicações do direito de voto e igualdade legal estavam a ganhar tracção com mulheres da classe trabalhadora.

Muitos socialistas, homens e mulheres, sentiram que não era possível abordar estes assuntos especificamente relacionados com mulheres sem resultar numa divisão entre trabalhadores e trabalhadoras. Existiam medos que ao apoiar o movimento de mulheres burguesas e as suas reivindicações para mudanças legais dentro do sistema iria resultar numa absorção destas ideias por parte das organizações de trabalhadores, tirando força da luta pela mudança económica e social fundamental para o benefício de toda a classe trabalhadora. Estas ideias foram resistidas com sucesso por mulheres como Alexandra Kollontai na Rússia e Sylvia Pankhurst na Grã-Bretanha.

Feminismos Radicais

Os perigos da adaptação estão presentes em qualquer movimento onde diferentes tendências ideológicas surjam. As principais tendências que competiam na segunda onda eram a burguesa, ou feminismo liberal, o feminismo radical e o feminismo socialista. Seria mais correcto falar de “feminismos” radicais já que havia diferentes ideias acerca da origem da dominação masculina. Para alguns esta residia no controlo da sexualidade da Mulher por parte do Homem. Para outras esta estava enraizada na violência masculina.

No entanto, ao contrário das feministas liberais, para as quais a desigualdade das mulheres é causada por discriminação e preconceito, o feminismo radical tentou elaborar uma teoria sobre a estrutura social na base da opressão da Mulher. Este enquadrava a desigualdade de género num sistema patriarcal onde os homens enquanto grupo dominam as mulheres enquanto grupo. Para a maior parte das feministas radicais, o patriarcado era considerado um sistema social separado do capitalismo ou outros sistemas de desigualdade económica e social.

Esta teoria do “patriarcado” tem sido contraposta por marxistas e feministas socialistas. Baseando-nos fortemente na obra de Friedrich Engels, “A Origem da Família, Propriedade Privada e do Estado”, argumentamos que a dominância masculina institucionalizada não é universal, que existiram sociedades onde relações sociais igualitárias prevaleceram. A opressão da Mulher está enraizada no surgimento de sociedades baseadas em divisões de classe. Está tão intrinsecamente interligada a estas, incluindo a forma dominante actual, o capitalismo, que não pode ser analisada em separado ou terminada sem derrubar a sociedade de classes em si.

Nem sempre é fácil manter-se ideologicamente firme face a um novo e entusiasmante movimento radicalizado. Certas organizações socialistas, algumas até se auto-intitulando “marxistas”, deixaram-se levar por esta segunda onda, adaptando-se ao movimento e aceitando as suas ideias e estratégias sem as criticar. Até o uso de terminologia é importante visto que reflecte ideias subjacentes. Um uso descuidado do termo patriarcado, por exemplo, adoptado acriticamente das feministas radicais, daria crédito não só à ideia da existência de dois sistemas separados, mas também à estratégia errada que flui dela – uma luta contra o patriarcado separada da luta contra o capitalismo.

O segundo movimento de mulheres contribuiu para alcançar vitórias importantes em muitos países, incluindo o direito ao divórcio, acesso ao aborto e contracepção, e legislação que torna ilegal a desigualdade salarial e a discriminação. O separatismo mais extremo do feminismo radical, no entanto, falhou em providenciar uma estratégia viável para acabar com a opressão das mulheres, e desde então a sua influência tem-se desvanecido.

De facto, outra característica positiva dos movimentos actuais tem sido precisamente a abertura da nova geração de mulheres para envolver homens na sua luta, assim como formar alianças com outros grupos oprimidos. A ideia de que diferentes opressões se “intersectam” é de certa forma um passo em frente em relação às ideias mais cruas das feministas radicais que tendiam a ver as mulheres como uma categoria social indiferenciada, ignorando ou menosprezando diferenças baseadas na raça, classe, etc. A ‘Interseccionalidade’, no entanto, tende a ver a classe apenas como uma forma de opressão entre muitas, e falha em perceber como todas as opressões estão enraizadas na estrutura da sociedade de classes.

Os efeitos da austeridade

A crise económica levou a um enfraquecimento da noção feminista liberal de que é possível garantir a igualdade de género através de melhorias graduais dentro do sistema capitalista. Mesmo antes da crise, as muito celebradas melhorias económicas e progressões de carreira para as mulheres estavam na sua maioria confinadas à classe média, e a desigualdade entre mulheres aumentou. Mesmo assim, a ideia de que um progresso contínuo era possível ganhou tracção entre muitas mulheres da classe trabalhadora. A crise e as suas consequências destruíram muitas destas expectativas, matando à nascença as esperanças e aspirações de uma nova geração de mulheres.

Apesar de não haver um esforço consciente de voltar atrás e afastar as mulheres da força de trabalho retornando-as ao meio doméstico, os despedimentos no sector privado, e principalmente o machado da austeridade no sector público, acabaram com o emprego de muitas mulheres e aumentaram a precariedade das que permaneceram. Simultaneamente, através dos cortes nos serviços públicos como lares e creches, as famílias de classe trabalhadora em particular não têm outra opção senão suportar estas dificuldades sozinhas. A maior parte destes cuidados, bem como as consequências financeiras, de saúde e nas relações pessoais, recaem sobre as mulheres.

Com a predominância das mulheres enquanto as responsáveis pelo cuidado das crianças dentro da família, especialmente na altura pré-escolar, e a falta de creches a preços acessíveis, estas ficam cada vez mais dependentes de trabalhos em regime parcial, com salários baixos, precários e em sectores dominados por mulheres, e são estes os principais factores que contribuem para a desigualdade salarial e diferença nas pensões. Salários baixos implicam que as mulheres e famílias de classe trabalhadora não conseguem suportar os custos de creches privadas com os seus vencimentos, enquanto que a crise económica estrutural significa que o investimento público em creches públicas e os subsídios para cobrir os custos no sector privado são cortados.

Está então presente nestes grandes movimentos de mulheres não só uma rejeição inerente de certas instituições capitalistas e ideologias sexistas, mas também o potencial para o amadurecimento de um ponto de vista anticapitalista e socialista mais geral. Este processo, no entanto, não é automático. A incapacidade do capitalismo em satisfazer os interesses materiais das mulheres de classe trabalhadora — trabalhos, salários, subsídios, pensões, etc. — pode ser observada claramente durante uma crise. A ligação entre a sociedade de classes e outros aspectos da opressão de género, tais como a violência, assédio sexual e sexismo, é menos óbvia.

Nos movimentos recentes, há a tendência de considerar estes problemas como resultantes de comportamentos misóginos de homens individuais, ou de uma “cultura” abstrata que encoraja a violação e o sexismo, sem fazer uma ligação de como estes comportamentos e cultura são influenciados e moldados pela sociedade capitalista e por ideais remanescentes de sociedades de classe anteriores. O ênfase tem sido então no aumento da consciência, na educação dos homens e na mudança de atitudes e comportamentos sem criar uma ligação a mudanças económicas e estruturais mais gerais — duma maneira análoga à das feministas liberais em movimentos passados.

Sociedade de classes

As e os feministas socialistas acreditam que todos estes parâmetros são importantes. Os comportamentos violentos e sexistas exibidos por homens individuais devem ser combatidos sempre que ocorram. Sempre criticámos aqueles que ignoraram e suavizaram tais comportamentos em nome de uma alegada “união” entre trabalhadoras e trabalhadores. Iniciámos campanhas alargadas que aumentaram a consciência sobre a violência doméstica (Grã-Bretanha) e o sexismo nas escolas (Suécia). Ambas estas campanhas tiveram sucesso em mudar atitudes e comportamentos, e no caso da Campanha Contra a Violência Doméstica mudar até leis. Mas devido à natureza da sociedade capitalista, a reforma legal, o aumento de consciência, a mudança de comportamentos individuais, nos outros e em nós mesmos, só consegue chegar até certo ponto.

A violência contra as mulheres, o assédio sexual, as restrições à sexualidade e ao controlo do próprio corpo das mulheres, o sexismo e estereótipos de género estão todos enraizados em relações de poder e controlo desiguais. Como parte do processo da criação das primeiras sociedades de classe baseadas em relações de propriedade privada, as mulheres tornaram-se propriedade dos homens no seio da unidade familiar – uma instituição social que zelava pelos interesses da classe dominante em termos de produção e reprodução. Os homens no seio da família, pais e maridos, controlavam os corpos das mulheres no sentido da sua sexualidade e reprodução, muitas vezes recorrendo ao uso de violência socialmente aceite e encorajada. O estatuto inferior das mulheres entranhou-se no sistema legal, apoiado pela igreja e outras instituições benéficas para a classe dominante. Para exemplificar, a violação era considerada um crime contra os homens da família, cuja propriedade tinha sido corrompida.

Passados milhares de anos, encontramo-nos numa situação contraditória. O capitalismo herdou a ideologia de género das sociedades antecedentes assim como a instituição da família, que depois moldou para servir os seus interesses económicos. À medida que as condições sociais e económicas mudaram, a instituição da família sofreu mudanças drásticas em alguns países capitalistas desenvolvidos, principalmente nas últimas décadas. Os papéis de género rígidos e a ideia da família tradicional têm sido postas em causa pela entrada massiva das mulheres na força de trabalho, o aumento do número de pais solteiros, casamentos homossexuais e a crescente aceitação de pessoas transgénero. A vitória do movimento para a legalização do aborto na Irlanda, e a quase vitória na Argentina, mostrou como podem ser vencidas as noções reaccionárias promovidas pela Igreja Católica no que toca aos direitos reprodutivos das mulheres.

De qualquer maneira, as atitudes e comportamentos retrógrados podem continuar a florescer muito depois da base material responsável pelo seu surgimento ter desaparecido. O sistema capitalista, por exemplo, deixou de promover directamente a violência contra as mulheres na maior parte dos países capitalistas desenvolvidos. Pelo contrário, leis importantes têm sido redigidas para combater estes problemas e estes são geralmente vistos como um problema social que não pode ser tolerado.

No entanto, o capitalismo baseia-se em relações económicas e sociais desiguais no local de trabalho, na família e na sociedade como um todo. A segregação das mulheres para trabalhos com salários mais baixos em conjunto com a transferência das responsabilidades dos serviços sociais para as famílias dificulta o abandono de relações violentas por parte das mulheres. Para além disto, estes factores alimentam a desigualdade e o estatuto inferior das mulheres das quais deriva a violência de género.

Os papéis de género, comportamento, vestuário e imagem são alimentados e modelados desde a sua origem e até ao seu fim, são reforçados por instituições capitalistas como a comunicação social, o sistema de educação, o sistema judicial, etc., bem como pelas indústrias de beleza, lazer e moda. O capitalismo é um sistema onde mercadorias são vendidas no mercado de modo a fazer lucro. Esta tendência de tornar tudo numa mercadoria propagou-se de modo a incluir os corpos das mulheres, tanto directamente através da indústria do “sexo”, como indirectamente através da imagem e da escrita. A internet e as redes sociais meramente expandiram os instrumentos através dos quais estes papéis de género podem ser difundidos. Desta maneira, a violação, o assédio sexual, a violência doméstica, o sexismo e a discriminação de género não podem ser erradicados sem uma mudança fundamental na estrutura — derrubando o sistema capitalista e a rede de relações económicas e sociais desiguais na qual é baseado.

O papel da classe trabalhadora

Um dos desafios para as feministas socialistas é explicar a importância da classe trabalhadora no processo de mudança da sociedade — devido ao seu papel no processo de produção capitalista e à sua potencial consciência coletiva — e orientar a nova geração de mulheres lutadoras ao movimento da classe trabalhadora. Um dos pontos fortes da Campanha Contra a Violência Doméstica, lançada no início dos anos 1990 e que criou rapidamente uma base ampla, foi a sua capacidade de se alinhar com a luta da classe trabalhadora.

Pela primeira vez, a violência doméstica foi estabelecida como um problema dos locais de trabalho e das organizações sindicais. Este movimento explicou como a violência sofrida pelas mulheres no lar afectava também a sua vida profissional e o papel que as organizações sindicais podiam desempenhar ao assegurar uma mudança económica e social que permitisse às mulheres sair de relações violentas e viverem vidas independentes. Isto foi alcançado apesar do facto da ligação entre a violência doméstica e o local de trabalho não ser imediata e da oposição das feministas radicais a qualquer aliança com organizações sindicais “dominadas por homens”.

Numa época em que as lutas industriais e nos locais de trabalho estão num mínimo histórico, a explicação do papel essencial da classe trabalhadora não é um assunto simples. No entanto, um aspecto positivo do movimento internacional actual é a adopção de greves como arma para a luta (por exemplo, a 8 de Março, dia Dia Internacional da Mulher) e o recurso à solidariedade dos trabalhadores. A greve de dois dias por parte das trabalhadoras da Câmara Municipal de Glasgow foi de extrema significância. Milhares de trabalhadoras pararam de trabalhar para reivindicar salários iguais, enquanto trabalhadores e outras pessoas se recusaram, de forma ilegal, a atravessar o piquete de greve como um gesto de apoio. As greves do McDonald’s e da Google contra o assédio sexual e salário desigual foram também fortes exemplos da potencial união de trabalhadores e trabalhadoras sobre várias faces da opressão de género, neste caso em sectores maioritariamente desorganizadas da classe trabalhadora.

Desafiando o populismo de direita

Outro desafio é a necessidade de criar e desenvolver instrumentos políticos necessários à mudança do sistema. Por um lado, as crises económicas e políticas do capitalismo têm alimentado a rejeição das instituições e ideologia capitalistas. Por outro lado, a falência dos partidos tradicionais da classe trabalhadora e a ausência de alternativas anti-capitalistas viáveis culminaram no encaminhamento de eleitores com sentimentos anti-sistema para populismos de extrema-direita em vários países.

Trump, Bolsonaro, Matteo Salvini e a Lega em Itália, expressaram abertamente as suas opiniões e comportamentos sexistas e expressaram ideias sociais reaccionárias. Apesar destas ideias não serem necessariamente apoiadas pela maior parte da população, ou até mesmo pela maioria dos seus eleitores, estas apresentam um perigo real para os direitos sociais das mulheres e de outros grupos oprimidos. Em particular, a base social criada por Trump dentro de uma camada social de homens brancos que se sentem alienados e enfraquecidos pela crise económica e pela mudança social, e estão receptivos a preconceitos e ideias retrógradas sobre mulheres e outros grupos sociais.

Nos EUA, está a ser preparado o terreno para um maior ataque ao direito ao aborto e aos direitos de pessoas transgénero. Na Polónia, foi lançado um ataque contra o direito ao aborto, que já se encontra muito limitado. Em Itália, o governo está a discutir uma lei que dificulta o divórcio para mulheres com filhos e promove a violência doméstica, tudo em nome da igualdade “parental”. Os protestos de massas no dia de tomada de posse de Trump, e a enchente de mulheres que saíram à rua nos protestos #EleNão contra Bolsonaro, antes e após a sua eleição, dão uma indicação da escala da resistência que pode ser gerada por mais ataques deste tipo.

Em Itália, Non Una di Meno, inspirado pelo movimento na Argentina, tornou-se um dos grupos de mulheres mais organizado e influente internacionalmente, capaz de mobilizar dezenas de milhares de mulheres e homens. Vitórias podem ser alcançadas, como acabámos de ver em vários países, mas estas conquistas estão vulneráveis a ataques futuros, como o revitalizado ataque na Polónia mostra, a não ser que uma alternativa política seja criada para combater as causas fundamentais dos problemas que as mulheres enfrentam.

Apesar de todas as contradições, este novo movimento de mulheres representa um dos primeiros sinais do potencial desenvolvimento de uma luta anti-capitalista e da classe trabalhadora mais ampla. Esta nova geração de mulheres está a ser radicalizada e mobilizada, e pode ser ganha para a luta por uma mudança socialista. Existirão tentativas para encaminhar estes movimentos para partidos políticos capitalistas tradicionais — por exemplo, para o Partido Democrata nos EUA — ou para que estes movimentos se mantenham independentes de qualquer partido político, independentemente da sua orientação, como é o caso do Non Una di Meno. O desafio para as feministas socialistas é participar nestes movimentos, debater as ideias e estratégias que surgem, enquanto mantêm a sua clareza ideológica. É necessário também explicar como a luta para acabar com a opressão de género em todas as suas formas e feitios só é vitoriosa se for incluída na luta mais abrangente da classe trabalhadora contra o próprio sistema capitalista.

 

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