História: Centenário dos assassinatos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht

Robert Bechert, Comité por uma Internacional dos Trabalhadores, artigo traduzido de socialistworld.net

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Esta semana marca o centésimo aniversário dos assassinatos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, dois dos mais destacados líderes do movimento operário alemão e internacional. São figuras que ainda hoje simbolizam a oposição intransigente ao capitalismo e à guerra imperialista, que lutaram e morreram por um futuro socialista. Eles deixaram-nos um legado importante e são símbolos da luta pelo socialismo.

Como acontece com todos os símbolos de oposição ao capitalismo, há tentativas de neutralizá-los. Os apologistas do capitalismo tentam usar as críticas privadas de Luxemburgo a aspectos do domínio bolchevique na Rússia em 1917 e 1918, escritos que ela nunca publicou em vida. Mas aqueles que usam estes escritos privados não mencionam o seu louvor inicial à Revolução Russa: «O que um partido poderia oferecer de coragem, visão e consistência revolucionárias numa hora histórica, Lenin, Trotsky e todos os outros camaradas têm dado em boa medida…A sua insurreição de Outubro não foi apenas a verdadeira salvação da Revolução Russa; foi também a salvação da honra do socialismo internacional.»

Ela conclui os seus comentários afirmando: «O que é importante é saber distinguir o essencial do não essencial, o núcleo das excrescências acidentais na política dos bolcheviques. No período actual, quando enfrentamos lutas decisivas em todo o mundo, a questão fundamental do socialismo foi e é a questão urgente do nosso tempo.

«Não é a questão deste ou daquele detalhe táctico secundário, mas sim da capacidade de acção do proletariado, da sua força para agir, do seu intento socialista de tomar o poder. Nisto, Lenin e Trotsky e os seus companheiros foram os primeiros, aqueles que foram à frente como exemplo para o proletariado do mundo inteiro; eles ainda são os únicos até agora que podem clamar como Hutten: “Eu atrevi-me!”

Luxemburgo e Liebknecht morreram num período crítico da história do movimento operário internacional e é bastante legítimo dizer que as suas mortes prematuras abriram o caminho para os horrores dos últimos 100 anos, onde as oportunidades perdidas e as derrotas para o movimento dos trabalhadores permitiram a continuação do sistema capitalista, o desenvolvimento do stalinismo na década de 1920 e a posterior vitória do fascismo de Hitler.

Revolução e Contra-Revolução

No final de 1918 e início de 1919, a Alemanha estava no centro da onda internacional de revoluções que tanto ajudaram a acabar com a Primeira Guerra Mundial como colocaram em cima da mesa a questão da sobrevivência do capitalismo na Europa. Em muitos países uma profunda desconfiança, hostilidade e muitas vezes ódio aberto às classes dominantes, combinado com o impacto internacional da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, alimentaram uma vaga popular de viragem à esquerda, o enorme crescimento das organizações de trabalhadores e um desejo de seguir o exemplo dos trabalhadores na Rússia.

Impérios, ditaduras, regimes autoritários caíram, os trabalhadores ganharam confiança e o medo da revolução aumentou entre capitalistas e classes dominantes. Estes estavam determinados a lutar para impedir a propagação de revoluções socialistas e para derrubar o governo revolucionário dos bolcheviques na Rússia. Isto não se limitou apenas a uma luta política, mas também a uma luta armada como quando a Rússia revolucionária foi invadida por 21 exércitos imperialistas e, país após país, forças militares e milícias armadas contra-revolucionárias procuraram a oportunidade de esmagar a onda revolucionária.

Por um período a Alemanha era a chave para o que poderia acontecer. Apesar da sua derrota militar a Alemanha ainda tinha a maior população na Europa.  Pelo final da guerra era a segunda maior economia europeia, mas mantinha ainda assim um enorme potencial económico, tendo sido a maior economia europeia antes de 1914.

Mas a Alemanha também tinha historicamente o movimento de trabalhadores mais forte da Europa, com tradições de luta que renasceram durante os crescentes protestos anti-guerra e que eclodiu na luta de massas da revolução de Novembro de 1918. Em poucos dias o Império Alemão, o Kaiser e o governo foram derrubados. Trabalhadores, soldados e marinheiros seguiram o exemplo dos sovietes (conselhos) criados na Revolução Russa, formando conselhos em todo o país que desafiavam o poder estatal existente, e frequentemente chegavam a governar efectivamente certas áreas.

Isto não só chocou e assustou a classe dominante e os líderes militares alemães, mas também o Partido Social Democrata (SPD) e os líderes sindicais que, em 1914, abandonaram os princípios socialistas para apoiar o imperialismo alemão na guerra. Este apoio dos líderes do SPD ao capitalismo alemão estendeu-se naturalmente a uma amarga oposição à revolução. Assim, à medida que a revolução de Novembro se desenrolava, Ebert, o presidente do SPD, advertiu que “se o Kaiser não abdicar a revolução social será inevitável. Mas eu não a quero; de facto odeio-a como ao pecado”. Usando o prestígio histórico do SPD, ainda visto por muitos trabalhadores alemães como o “seu” partido, os líderes do SPD esforçaram-se em ganhar tempo para a estabilização do capitalismo. Os líderes do SPD estavam também abertos a propostas do alto comando militar. A 10 de Novembro, um dia depois de se tornar chanceler alemão (primeiro-ministro), Ebert aceitou a proposta do novo chefe do exército, o general Groener, para a formação de uma “frente comum contra o bolchevismo”. Noutras palavras, Ebert e os líderes centrais do SPD estavam a preparar desde o princípio da nova república as forças militares contra a revolução.

Inicialmente era uma solução de último recurso, e os líderes do SPD valiam-se de  gestos radicais para tentar aplacar os trabalhadores. No dia a seguir ao acordo com o general Groener, o SPD formou um governo que adoptou o nome Rat der Volksbeauftragten (RdV, “Conselho dos Comissários do Povo”), quase uma tradução exacta do nome do governo bolchevique na Rússia soviética. Para tentar controlar o crescimento da esquerda eles trouxeram para o governo o recém-formado Partido Social-Democrata Independente (USPD), de esquerda e anti-guerra, um partido cujos membros variavam entre reformistas e revolucionários. Mas, enquanto o nome do governo era praticamente o mesmo, havia uma diferença fundamental entre o SPD que trabalhava para salvar o capitalismo e o governo bolchevique que se esforçava para lhe pôr um fim a nível internacional.

O SPD temia particularmente a influência de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg. Liebknecht, filho de um dos fundadores do SPD, tinha uma posição proeminente como militante de esquerda e anti-militarista mesmo antes de 1914. A sua posição consolidou-se quando se tornou no primeiro deputado do SPD a votar contra a guerra. Depois do encarceramento de Liebknecht a quatro anos de trabalho forçado por fazer um discurso anti-guerra no 1º de Maio, mais de 55.000 trabalhadores de Berlim manifestaram-se em Junho de 1916, na primeira greve política contra a Primeira Guerra Mundial na Alemanha. Rapidamente Liebknecht tornou-se um símbolo de oposição à guerra, desfrutando de ampla popularidade.

Rosa Luxemburg havia sido durante muitos anos uma das principais líderes da esquerda revolucionária do SPD e, após 1914, da oposição à guerra. No entanto, por muito tempo, ao contrário dos bolcheviques que lutaram entre 1903 e 1912 por políticas revolucionárias no seio da social-democracia russa, Luxemburgo não havia reunido a ala marxista numa oposição coerente e organizada que lutasse sistematicamente tanto pelo seu programa como por uma base de apoio. Apesar de Luxemburgo e outros terem formado no início de 1916 o grupo Spartakus (Liga Spartacus), vagamente organizado e ferozmente reprimido, foi apenas quando a revolução se começou a desenvolver é que os passos foram tomados para reunir e organizar as forças revolucionárias num partido. No final de 1918 observou-se a formação do Partido Comunista (KPD) com Liebknecht e Luxemburgo como os seus principais líderes públicos.

À medida que  1918 chegava ao fim, os líderes do SPD começaram a agir para travar a revolução, especialmente em Berlim, onde a onda revolucionária era mais forte. Berlim era um campo de batalha chave, então a quarta cidade mais populosa do mundo e, internacionalmente, a maior cidade industrial.

Receando uma maior radicalização e crescente apoio à esquerda, os líderes do SPD agiram para reafirmar o seu controlo. A 24 de Dezembro, ordenaram um ataque militar à Divisão Naval do Povo (Volksmarinedivision), uma força que originalmente fora enviada a Berlim para salvaguardar o SPD, mas que se havia tornado cada vez mais radical. Embora o ataque tenha sido repelido, este conduziu a uma crise no governo e à saída dos ministros do USPD. Foram substituídos por representantes do SPD, incluindo Gustav Noske, que, tornando-se responsável pelo exército e pela marinha, rapidamente começou a organizar as forças militares da contra-revolução, a milícia Freikorps (muitos dos quais na década de 1920 se juntariam aos Nazis). No final de 1918, o SPD começou a enviar unidades da Freikorp para os arredores de Berlim, em preparação do golpe contra a revolução.

A Alemanha ainda enfrentava uma situação de duplo poder. Por um lado, a revolução varreu do poder grande parte do anterior regime. Durante algumas semanas, pelo menos, muitos conselhos de operários, soldados e marinheiros detiveram o poder, mas este não foi consolidado. Desde o início da revolução os líderes do SPD estavam a trabalhar com os capitalistas para neutralizar os sovietes e restaurar o governo burguês normal. Mas o SPD teve que agir com muito cuidado porque a maré revolucionária ainda não tinha entrado em refluxo. Mesmo assim, como acontece na maioria das revoluções, chegou-se a um ponto em que sectores da classe trabalhadora sentiram que o seu poder estava a enfraquecer e que a ordem capitalista estava a ser reposta. Em muitos casos, como nos “Dias de Julho” da Revolução Russa de 1917, isto pode levar a tentativas espontâneas para impedir a reversão da revolução. Os líderes do SPD estavam cientes disto e  tentaram provocar os trabalhadores mais radicalizados para que agissem prematuramente, prematuramente porque a massa de trabalhadores ainda não tinham chegado às mesmas conclusões que estes, mais radicalizados, tinham.

Em Dezembro, o governo do SPD decidiu organizar um acto de provocação em Berlim. Reunindo tropas da contra-revolucionária Freikorp nos arredores da cidade, ordenaram a demissão do chefe da polícia de Berlim, o membro da USPD Emil Eichhorn a 4 de Janeiro. Em protesto o USPD de Berlim, os Sindicatos Revolucionários e o novo Partido Comunista (KPD) convocaram uma manifestação para o dia 5 de Janeiro para defender a posição de Eichhorn em que cerca de 200.000 pessoas participaram. O sucesso do protesto convenceu alguns dos líderes de que era possível derrubar o governo e um “Comité Revolucionário Interino” foi estabelecido. Neste comité Liebknecht, apoiado pelo mais tarde líder da Alemanha Oriental, Wilhelm Pieck, argumentou, desafiando a política do KPD, que era “possível e necessário” derrubar o governo do SPD. No dia seguinte, 6 de janeiro, Berlim viu uma manifestação de cerca de 500.000 trabalhadores, muitos armados, que esperaram horas à chuva antes de dispersarem, quando o Comité Revolucionário não conseguiu avançar com propostas sobre o que deveriam fazer.

Esta tentativa de tomada do poder foi prematura, caindo-se na armadilha dos líderes do SPD, que podiam considerá-la como um ataque contra o governo, contra a maioria dos conselhos de trabalhadores e soldados e também contra as eleições, que se aproximavam, para a assembleia nacional. É provável que no protesto de 5 de janeiro agentes provocadores tenham encorajado a ocupação dos escritórios do SPD e dos jornais burgueses, que não eram os alvos prioritários para uma revolução bem-sucedida, mas sim os alvos convenientes para as tropas Freikorps. Embora os trabalhadores revolucionários fossem provavelmente fortes o suficiente para governar Berlim tal não era o caso no resto da Alemanha, onde ainda existiam ilusões e esperanças no governo do SPD. Como foi visto noutras cidades alemãs nos meses seguintes, naquele momento uma insurreição vitoriosa em Berlim provavelmente teria ficado isolada e aberta a um ataque contra-revolucionário.

A 8 de Janeiro, as tropas de Noske começaram a sua ofensiva, justificando-a como uma luta contra o “terrorismo”. Num comunicado, Noske, alegando defender a história do SPD e a unidade dos trabalhadores disse que ele “[como] um trabalhador, situa-se no cume do poder da república socialista”. A realidade era brutalmente diferente. Noske não mentiu quando disse antes da ofensiva “alguém tem que ser o cão-de-caça. Eu não vou fugir da responsabilidade”. Noske ajudou a organizar as Freikorps como força contra-revolucionária, cuja tarefa era decapitar a revolução eliminando os comunistas mais conhecidos, Luxemburgo e Liebknecht, e suprimi-la na capital, então uma das áreas mais radicalizadas.

A propaganda do SPD preparou o caminho para isto. Dois dias antes de Luxemburgo e Liebknecht serem mortos, Vorwärts, o principal jornal diário do SPD, encerrava um poema apelando ao seu assassinato, que terminava com as palavras:

Muitas centenas de cadáveres em sucessão —

Proletários!

Karl, Radek, Rosa e Co. —

Nem um deles lá está, nem um deles lá está!

Proletários!

Liebknecht e Luxemburgo foram assassinados a sangue frio após a sua detenção por agentes da Freikorp a 15 de Janeiro, três dias depois dos combates terem cessado. Isto não foi acidental. Poucos dias depois numa sessão de homenagem em Petrogrado, Leon Trotsky, um dos líderes centrais da Revolução de Outubro, traçou paralelos com 1917, falou de como a “burguesia e forças armadas aprenderam com nossa experiência de Julho e Outubro” e actuaram para decapitar a revolução.

À medida que os combates em Berlim chegavam ao fim uma república conselhista (dos sovietes) foi proclamada em Bremen e, depois de terminar em Berlim, Noske ordenou que as unidades da Freikorp esmagassem ali o movimento. Isto, por sua vez, provocou greves de massas no Vale do Ruhr, na Renânia, na Saxónia e, no início de Março, uma greve geral e mais combates em Berlim. Noutras áreas, como Hamburgo e Turíngia, a situação era quase de guerra civil, enquanto que em Munique a república conselhista foi das últimas a cair, no início de Maio.

No entanto, mesmo quando inicialmente derrotado e com milhares de mortos em 1919, a força do movimento era suficiente para impedir que a contra-revolução esmagasse todos os direitos democráticos conquistados. De mãos dadas com a repressão sangrenta, a contra-revolução foi forçada a adoptar uma forma parcialmente “democrática”, chegando por vezes a embelezar-se com uma fraseologia “socialista” – durante um determinado período.

Mas o SPD pagou um enorme preço pelo papel jogado: milhões de trabalhadores afastaram-se do partido em repulsa. Tendo ganhado um recorde de 11.509.000 votos nas eleições de Janeiro de 1919, dezoito meses depois o voto no SPD caiu para 5.617.000. Ao mesmo tempo o partido de esquerda USPD viu o seu voto aumentar para mais do dobro, de 2.317.000 para 4.897.000 em comparação com os 442.000 votos no KPD. Alguns meses depois, em Outubro de 1920, a maioria do Congresso do USPD em Halle votou a favor da unificação com o KPD.

Isto deu ao recém-unificado KPD uma base de massas e a oportunidade para aprender com as experiências da revolução de Novembro. O capitalismo sobreviveu na primeira volta, mas a Revolução Alemã ainda não tinha acabado, com milhões de trabalhadores a moverem-se para a esquerda, a virarem as costas ao SPD e, no final de 1920, tornaram o KPD uma verdadeira força de massas. A tragédia é que, depois de uma série de lutas heróicas, o KPD conseguiu o apoio da maioria dos trabalhadores por alguns meses em 1923 mas deixou escapar a oportunidade, com consequências desastrosas: em vez do mundo ser completamente transformado viu-se a ascensão do stalinismo e depois a vitória de Hitler, com tudo o que esses eventos significaram para a humanidade.

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