1918: Enquanto uma radicalização internacional abalava o mundo, a Revolução pôs fim à Primeira Guerra Mundial

Bob Labi, Comité por uma Internacional dos Trabalhadores, artigo publicado em http://socialistworld.net/ a 13/11/2018

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O horrível massacre da Primeira Guerra Mundial assombrou gerações. Quando terminou, colocou em questão o “direito” das classes dominantes em governar, algo que ajudou a provocar revoluções e lutas de massas em todo o mundo. As enormes baixas militares, oficialmente quase 10 milhões de soldados mortos, talvez mais, e outros tantos milhões de feridos levaram a uma repulsa contra uma guerra que muitos viam como uma disputa entre impérios e poderes rivais, muitas vezes sem diferenças fundamentais reais entre eles.

Para muitas pessoas, as comemorações atuais serão para aqueles que morreram e foram feridos naquele massacre, não para os governos e impérios que lutaram entre si. Nenhum dos principais países combatentes eram sequer formalmente democráticos, pois nenhuma mulher e nem todos os homens podiam votar. A Rússia, um dos principais aliados da Grã-Bretanha, era um império ditatorial autocraticamente governado por uma família real anti-semita.

A propaganda britânica no início da guerra focou-se na invasão alemã da Bélgica. Mas a Bélgica, embora pequena, era governada por uma classe dominante tão imperialista quanto seus rivais, algo testemunhado pela sua brutal governação do Congo. Por coincidência, quase simultaneamente, enquanto a classe dominante britânica argumentava que a nova guerra europeia era contra o “militarismo alemão”, o exército britânico procurava trazer o povo Egba no oeste da Nigéria para o domínio imperial britânico, uma campanha que viu depois de um protesto, o tiroteio de 36 civis desarmados e a destruição generalizada na cidade de Abeokuta.

Face à repulsa generalizada questionando a guerra, especialmente após a revolução russa de 1917, e, por implicação, todo o sistema, a própria classe dominante britânica passou por uma série de mudanças cosméticas ao mesmo tempo em que concedia algumas reformas. Uma das primeiras mudanças foi o abandono do nome de família “Saxe-Coburg-Gotha” pela monarquia britânica em favor de Windsor, uma vez que buscava minimizar os laços familiares extremamente próximos com as famílias imperiais alemã e russa. Até hoje, o uniforme do Marechal de Campo alemão, uma vez usado pelo rei George V, avô da rainha e rei britânico durante a Primeira Guerra Mundial, é mantido escondido no Castelo de Windsor (ver artigo relacionado aqui).

Isso significava que as celebrações militares da “vitória” eram mantidas em segundo plano e cada vez mais o ênfase oficial era colocada nos horrores reais que os soldados enfrentavam, seus enormes sacrifícios pessoais e o impacto da guerra sobre os civis. Naturalmente, isso refletia a simpatia popular generalizada, não pela guerra, mas por aqueles que sofreram nela.

Foi o que observámos em quase todas as cerimónias públicas que marcam o 100º aniversário do fim formal da Primeira Guerra Mundial. No entanto, embora em agosto deste ano tenha havido alguma menção na Grã-Bretanha da Batalha de Amiens em 1918 como ponto de viragem, quase nada foi dito a respeito do porquê da guerra ter terminado, com o exército alemão ainda na Bélgica e na França e em retirada, não decisivamente derrotado.

A razão é simples, tanto a classe dominante quanto os seus defensores não querem explicar o papel desempenhado pela revolução, no medo que esta provocava nas classes dominantes que as levou a finalmente terminar a Primeira Guerra Mundial.

Certamente durante o outono de 1918 o comando militar alemão chegou à conclusão de que não conseguiria mais vencer a guerra. O fracasso das ofensivas de Hindenburg daquele ano, combinado com a chegada de cada vez mais tropas dos EUA à Europa, estava a virar a balança de poder contra estes. No final de setembro de 1918, Ludendorff e Hindenburg, os governantes militares de fato da Alemanha de 1916 em diante, disseram ao imperador alemão que deveriam acordar imediatamente com um armistício. No início de outubro, entregaram as rédeas do governo a civis, liderados pelo príncipe Max de Baden, primo do imperador alemão, acusado de acordar um armistício com o presidente americano Woodrow Wilson. Os generais esperavam com esta medida não carregar o ódio da derrota. Rapidamente o novo governo escreveu a Wilson e, após desacordos internos, a 5 de novembro, os aliados ocidentais concordaram em iniciar negociações para uma trégua e indenizações.

No entanto os eventos na Alemanha também estavam a acelerar o fim formal da guerra. Para números crescentes, estava a tornar-se cada vez mais claro que a guerra estava nos seus últimos estágios. Por essa altura, os horrores da guerra, a privação massiva em casa e o exemplo da revolução russa de 1917 tinham acentuado a oposição à guerra tanto na Alemanha quanto no império Austro-Húngaro. Ocorreram protestos e greves anti-guerra significativos, particularmente no início de 1918, e a sua participação aumentou quando começou a parecer que a guerra estava a chegar ao fim. No final de setembro a Bulgária, um dos aliados da Alemanha, decidiu pedir a paz. O exemplo foi seguido em meados de outubro pelos líderes do império Austro-Húngaro, o principal aliado da Alemanha, que decidiram pedir um acordo de paz separado vendo-se a braços com um império multinacional que se começava a desintegrar entre protestos e revoltas em massa.

Na Alemanha a faísca que desencadeou a revolução foi a recusa, a 3 de novembro, de marinheiros alemães em Kiel partirem para o que apelidaram de “Cruzeiro da Morte”, uma última batalha suicida contra a marinha britânica. Após breves combates com as forças pró-governo, os marinheiros, a 4 de novembro, uniram-se aos trabalhadores locais para formar um “conselho de trabalhadores e soldados” para administrar a cidade. Não foi de todo acidental que esse nome fosse escolhido. Tinham como exemplo a revolução russa onde, quase exatamente um ano antes, organizações populares com nomes semelhantes tinham tomado o poder na revolução de outubro e formado um governo operário. Nos cinco dias seguintes, uma onda revolucionária espalhou-se pela Alemanha, com conselhos de trabalhadores sendo formados cidade após cidade, governantes locais sendo derrubados, declaração de repúblicas  nas partes constituintes do império alemão e, a 9 de novembro, o próprio Império entrando em colapso e uma república alemã declarada.

Naquela mesma noite, 9 de novembro, o gabinete britânico reuniu-se para discutir a situação. Já temendo a revolução, os acontecimentos na Alemanha e noutros lugares deram uma nova urgência às discussões do governo em acordar um armistício. O chefe do Estado-Maior Imperial, a mais alta patente militar do Império Britânico, presente nessa reunião, escreveu posteriormente no seu diário que o líder francês Clemenceau escrevera dizendo estar “com medo de que a Alemanha pudesse colapsar e o bolchevismo ganhasse controlo. (O Primeiro-Ministro) Lloyd George perguntou-me se eu queria que isso acontecesse ou se eu não preferia um armistício. Sem hesitar, respondi “Armistício”. Todo o gabinete concordou comigo.”

Dois dias depois, o acordo foi concluído, um armistício assinado às 5h12 de 11 de novembro para os combates cessarem às 11h, horário de Paris, desse mesmo dia. Simultaneamente, os olhos das classes dominantes viravam-se para um novo inimigo crescente – a ameaça da revolução socialista, resumida na palavra “bolchevismo”, e eles estavam preparados para combater conjuntamente essa ameaça ao seu poder e governo. Assim, enquanto as unidades do exército alemão da Bélgica, França e de outros lugares recebiam ordens para retirarem rapidamente, as unidades no leste europeu continuaram lá estacionadas para ajudar a contra-revolução. De fato, no dia anterior ao término da guerra, em outra reunião do gabinete britânico, Churchill comentou que “Poderemos ter que reconstruir o exército alemão, pois é importante voltar a colocar a Alemanha de pé por medo da disseminação do bolchevismo”.

Mas enquanto a Guerra Mundial terminou, o mesmo não se pode dizer da luta. Em vez disso houve anos de guerras civis e guerras locais ou regionais à medida que os impérios se desfaziam, novos países eram estabelecidos ou, como os britânicos no Iraque, recém-chegados tentavam estabelecer o seu próprio domínio colonial. Mas o que realmente caracterizou o imediato pós-Primeira Guerra Mundial foram as revoluções e contra-revoluções que varreram país após país.

A Primeira Guerra Mundial não era inesperada. A Europa tinha presenciado diferentes crises antes de 1914. Os socialistas há muito debatiam como se opor a uma guerra entre as potências imperialistas rivais e o que fazer caso isso acontecesse. No Congresso da Segunda Internacional de 1907, o órgão que unia os partidos socialistas, foi acordada uma resolução sobre “Guerra e Militarismo” que terminava argumentando que para os socialistas “caso a guerra se inicie, é seu dever intervir para seu rápido término e lutar com todo o seu poder para utilizar a crise econômica e política criada pela guerra para despertar as massas e, assim, fomentar a queda da classe capitalista ”.

Esta expectativa de que a guerra produziria radicalização e revoluções foi completamente corroborada. A primeira experiência foi a Revolta da Páscoa de 1916 em Dublin, seguida no ano seguinte pela revolução russa, um evento que imediatamente surtiu impacto a nível internacional. O derrube da autocracia czarista colocou as questões dos direitos democráticos e dos objetivos de guerra no centro das atenções. A segunda revolução, em outubro de 1917, deu o primeiro exemplo da classe trabalhadora derrubando o capitalismo e começando a governar a sociedade, apelando aos trabalhadores a nível internacional para seguirem o exemplo.

A Revolução de Outubro teve um impacto crescente ao longo de 1918 e quando as revoluções começaram a espalhar-se pela Europa no final de 1918, foi vista como o exemplo a seguir. A repulsa ao massacre que havia ocorrido e a amargura em relação às classes dominantes que haviam sido responsáveis fortaleceram uma profunda oposição ao capitalismo e, inspiradas pelo exemplo russo, uma disposição de lutar pela mudança socialista. Por isso o medo crescente das classes dominantes em relação ao “bolchevismo” e sua disposição de se lhe opor.

Na Europa, as revoluções varreram a Alemanha, a Itália e muitas partes dos antigos impérios Austro-Húngaro e Russo. A Irlanda viu uma intensificação da oposição ao domínio britânico e da luta, especialmente no sul, pela independência que, em Limerick, deu origem a uma greve geral e à formação de um “soviete” em abril de 1919. Greves gerais ou de massa foram uma característica destes movimentos a nível internacional tal como a formação de comités para organizar a luta, muitas vezes inspirada no exemplo dos soviéticos na revolução russa e por vezes usando o mesmo nome.

A combinação dos efeitos da guerra mundial e do impacto da revolução russa foi sentida em toda a parte. Como parte de uma radicalização na classe trabalhadora, e de uma rejeição dos líderes social-democratas que apoiavam as “suas próprias” classes capitalistas, a Internacional Comunista tornou-se o maior movimento revolucionário mundial organizado visto até hoje. No mundo colonial, o caráter imperialista da guerra mostrou-se muito claramente quando o Tratado de Versalhes de 1919 dividiu as possessões coloniais alemãs entre os estados imperialistas vencedores.

Assim, os antigos territórios alemães na China foram entregues ao Japão, ao invés de voltarem para a China, uma decisão que produziu o Movimento de 4 de maio que iniciou a revolução que tomou conta da China durante toda a década de 1920. Da mesma forma, o Massacre de Amritsar em 1919, quando tropas britânicas mataram 379 manifestantes e feriram mais de 1.200, impulsionou significativamente a luta anticolonial na Índia, enquanto os movimentos no Egito aumentaram contra o chamado “protetorado” britânico, uma forma de domínio colonial disfarçada.

A onda revolucionária originou greves poderosas nos EUA, incluindo uma greve geral de 5 dias em Seattle por salários mais altos, e também uma onda de repressão contra a esquerda que incluiu aprisionamento de socialistas e deportação de migrantes nascidos no estrangeiro que eram ativistas.

A Grã-Bretanha em 1919 não era imune a estes movimentos, embora não tivessem atingido o patamar revolucionário dos da Alemanha. Em Janeiro houve uma greve geral local em Glasgow por uma semana de 40 horas foi rechaçada por tropas e tanques enviados para as ruas da cidade. O governo temia que essa greve, depois de uma série de batalhas por salários e rendas, se pudesse transformar em algo mais sério. Uma situação similar aconteceu em Belfast na mesma época. O envio de tropas armadas pelo governo britânico contra grevistas e outros manifestantes não era incomum no início do século 20, mas depois da Primeira Guerra Mundial as forças do Estado revoltavam-se por vezes elas mesmas. Na Grã-Bretanha criaram-se novos sindicatos entre as forças armadas (SSAU) e polícias e guardas prisionais (NUPPO). Havia motins entre os militares exigindo a desmobilização, com 20 mil participando na maior em Calais, enquanto numa ocasião 1.500 soldados deslocaram-se dos seus quartéis no oeste de Londres para protestar em Whitehall.

Temendo a revolução, a classe dominante britânica fez muitas concessões, como dar a todos os homens adultos e algumas mulheres o voto. Mas a promessa do primeiro-ministro britânico Lloyd George, “Terra adequada para heróis” (“Land fit for heroes”), nunca se materializou e, no início dos anos 20, o governo e os patrões lançaram uma contra-ofensiva que serviu de pano de fundo à greve geral de 1926. Estes eventos radicalizaram o Partido Trabalhista e, em 1918, adotaram o objetivo socialista. No entanto, a sua ala pró-capitalista trabalhou para garantir que o partido não desafiasse o capitalismo e começou, no início da década de 1920, os seus primeiros esforços para expulsar os marxistas do Partido e torná-lo “seguro” para a classe dominante.

Agora, 100 anos depois desses grandes eventos, eles têm ótimas lições para os socialistas de hoje. Enquanto o movimento socialista anterior à Primeira Guerra Mundial previu a guerra e o que adviria dela, os movimentos revolucionários que dela se seguiram não conseguiram acabar com o capitalismo. Uma das principais razões para isso foi que a maioria dos líderes “socialistas” pré-guerra passou a aceitar a continuação do capitalismo e, nessa base, apoiou as suas “próprias” classes dominantes na guerra. A partir daí, para alguns, foi um pequeno passo para reprimir ativamente a revolução, como fez a liderança social-democrata alemã. Ao mesmo tempo, os jovens e relativamente inexperientes revolucionários dos partidos comunistas recém-formados não conseguiram desenvolver imediatamente a força ou aplicar consistentemente as políticas e o programa necessários para obter o apoio das massas e completar as revoluções.

Enquanto os últimos 100 anos viram muitos movimentos e revoluções, o capitalismo tem conseguido manter-se. A questão de acabar com o capitalismo e com os horrores que este acarreta – guerras, pobreza, crise ambiental, booms e recessões – não está apenas nas lutas, mas também na construção de um movimento com um programa claro de como, e vontade para, atingir esse objetivo.

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