França em Rebelião

Clare Doyle, Comité por uma Internacional dos Trabalhadores, originalmente publicado em socialistworld.net a 11/12/2018

Les gilets jaunes en manifestation à Toulouse Foto Michel Viala Maxppp

‘Coletes Amarelos’ reunem-se a acção da CGT em Toulouse. Foto: Michel Viala

Há mais de um mês, desde 17 de novembro, que a França tem visto uma revolta aparentemente imparável. Uma enorme onda de protestos varreu o país, inicialmente contra o aumento do imposto sobre a gasolina, mas rapidamente tornando-se uma revolta dos oprimidos contra “o presidente dos ricos”, Emmanuel Macron.

Na noite de 10 de Dezembro, depois de um dia de discussões entre empresários, sindicalistas e governo, este impopular presidente quebrou o silêncio para se dirigir à nação, reconhecendo que havia “perturbado” pessoas. Confirmando a reversão do aumento do imposto sobre o combustível, ele delineou um pacote de 10 mil milhões de euros que incluía um aumento de 100 euros do salário mínimo, uma revisão dos impostos sobre as reformas, uma redução na tributação sobre horas extras e encorajou os patrões a dar um bónus de Natal aos seus trabalhadores se o conseguissem pagar!

Macron derramou algumas lágrimas de crocodilo, mas não mencionou a reversão dos enormes alívios fiscais aos super-ricos dos primeiros dias do seu ainda curto “reinado”. Laetitia Dewalle, representante dos gilets jaunes, convidada a comentar por um dos principais canais de televisão estatais, o France2, exclamou “Claro que não é suficiente!”, acrescentando: “Se ele esteve ausente por dez dias, foi obviamente para ter aulas de teatro”. “Por que devo eu ouvir o que [Macron] tem para dizer?” – disse alguém assistindo à transmissão – “Ele não nos ouve a nós!”

No dia seguinte, terça-feira dia 11 de Dezembro, houve uma nova onda de protestos, incluindo batalhas violentas entre polícias e manifestantes, com um grande número de estudantes mobilizados. Podem desenvolver-se diversos cenários.

Macron renuncia!

Juntamente com o seu partido La Republique en Marche, Macron só está no poder há 18 meses. Tendo-se fazer parecer com um Júpiter ou Napoleão, a sua demissão é o que todos os manifestantes exigem. Alguns manifestantes são veteranos do mês da revolução em 1968, quando o destino do General de Gaulle foi posto em xeque. Outros referem-se, em jeito de gozo, ao modo como Louis XVl encontrou o seu fim na revolução de 1789!

Isso ainda não é uma revolução, mas uma revolta muito determinada dos sectores negligenciados e pobres da população, especialmente no campo. Mas cada vez mais, encontra eco entre camadas da heróica classe trabalhadora da França.

O ‘invisível’ tornou-se visível com as coletes amarelos “Hi Viz” – o uniforme do movimento. Os bloqueios de estradas e portagens por todo o país tornaram-se uma nova, mas agora recorrente, característica desta revolta.

O aumento do imposto sobre o combustível – uma forma barata  do governo arrecadar dinheiro e fingir preocupar-se com o meio ambiente – foi a última gota para muitos na sociedade francesa, que viram a sua qualidade de vida baixar para níveis de pobreza. Com o crescimento dos protestos, que incluem pessoas de todas as convicções políticas, cresceram também as reivindicações. Na quarta semana já apresentavam uma lista de “sugestões para acabar com a crise”.

Em relação à “Economia/trabalho” exigem um aumento de 40% do salário mínimo, reformas e benefícios, “contratações em massa” no sector estatal,5 milhões de novas habitações. No que toca à “Política” a França deveria deixar a UE, reverter todas as privatizações, remover todos os radares e câmaras de velocidade “inúteis” (!) e reformar a educação. Para a “Saúde / Meio Ambiente” exigem uma garantia de 10 anos para acabar com a obsolescência planeada, a proibição de alimentos transgénicos, de pesticidas carcinogénicos, monocultura e a reindustrialização de França para reduzir a poluição. Já na “Geopolítica”, exigem a saída da NATO e das guerras no estrangeiro e o fim do saque da África francófona… em suma, ter leis que cubram tudo e todos!

Quem está envolvido?

Aos protestos juntaram-se trabalhadores nos bloqueios e nas manifestações em Paris e pelo resto do país. Têm inspirado trabalhadores e jovens do outro lado da fronteira na Bélgica e em outros lugares, que estão fartos de austeridade e de Governos que beneficiam os ricos. O movimento, especialmente se conquistar uma grande vitória, pode espalhar-se pela Europa e além. Muitos trabalhadores e jovens admiram a predilecção pelo protesto e a determinação da população francesa. O ditador egípcio, General Sisi, proibiu a venda de coletes amarelos hi-viz e até em Mosul no Iraque já existem relatos de pequenos protestos com coletes amarelos.

A Juventude entra na luta

A 10 de Dezembro, deu-se um novo ímpeto à “revolta” quando os estudantes de 100 escolas organizaram bloqueios e se juntaram à luta. Os estudantes estão indignados com as chamadas “reformas”, que lhes negam o acesso irrestrito à universidade. A sua entrada em cena foi, sem dúvida, um factor importante por trás das concessões feitas pelo primeiro-ministro, Édouard Phillippe, anunciadas na terça-feira dia 11 de Dezembro.

As cenas chocantes de estudantes do secundário de joelhos, com as mãos na nuca ou amarradas às costas e com a polícia totalmente armada a controlá-los tornaram-se virais. Isto despertou uma onda de raiva além das fronteiras da França. Em muitas das manifestações do último sábado houve encenações de policiais armados contra crianças nas praças das cidades do país.

A princípio, os coletes amarelos eram na sua maioria camadas empobrecidas da pequena-burguesia e pobres, distantes e alienadas pelo que consideravam ser o burguês mimado da capital. Quando as manifestações de sábado em Paris terminaram em violência e queimas de símbolos de um modo de vida luxuoso, os manifestantes comentaram aos media: “Nós próprios não escolheríamos agir daquela forma, mas gostamos dos resultados!”

A natureza plebeia das camadas originais envolvidas neste movimento encontra expressão na sua hostilidade aos complacentemente ricos – os “BoBos” ou “boêmios burgueses” de Paris e de outros lugares – dos quais estão alienados. O presidente, que é visto como representando essas pessoas e não a maioria da população, desceu a pique nas sondagens, descendo mais do que qualquer presidente anterior. Tem agora menos apoio que os 24% do eleitorado que o apoiaram no primeiro turno da eleição presidencial de 2017.

O seu partido está fracturado, o seu governo já “perdeu” sete ministros. Ele pode vir a sacrificar o seu primeiro-ministro, como outros presidentes fizeram face à revolta contra os seus governos. Macron está desesperado para que não seja a sua própria cabeça a rolar.

Características de uma revolução

O uso brutal das forças do Estado, em muitos lugares, só aumentou a determinação dos manifestantes para lutar até ao fim. A classe dominante da sociedade não sabe como proceder. As camadas intermédias já estão envolvidas. As forças do Estado estão sobrecarregadas e prontas para desertar.

O que falta é uma mobilização em massa da força mais poderosa da sociedade – a classe trabalhadora nas fábricas, nos armazéns, nas estações, nos escritórios, nas escolas e nos hospitais. Todos esses trabalhadores já expressaram a sua frustração contra os seus patrões, o governo ou ambos. Muitos estiveram envolvidos em lutas e greves determinadas, mas dispersas.

O Comité para uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) baseia-se no princípio de que a única força que pode levar a uma vitória decisiva e duradoura sobre o sistema capitalista é a classe trabalhadora, em movimento e com uma liderança clara e revolucionária. Até agora estes factores estão em falta.

A maior federação sindical de França – a CGT – pediu, tardiamente, a intensificação de greves e manifestações a partir desta sexta-feira dia 14, e uma greve geral pode desenvolver-se, mesmo sem ser convocada, como aconteceu em 1968. Alternativamente, pode ser uma ação limitada, mas bem sucedida, como a mobilização de dois milhões de grevistas do sector público nas ruas em 1995, que derrotaram as reformas das pensões de Jacques Chirac (e viram a renúncia de seu primeiro ministro, Alain Juppé). A estratégia (em ambos os lados) pode ser permitir um momento para respirar durante o período de Natal antes de se iniciar uma nova ronda de lutas no Ano Novo.

Aconteça o que acontecer, é claro que esta luta com Macron e os seus financiadores ainda não acabou.

Jean-Luc Mélenchon, líder da France Insoumise (França Insubmissa), e o candidato da esquerda que conseguiu mais de 7 milhões de votos no primeiro turno das últimas eleições presidenciais, pediu que os manifestantes convergissem em Paris e outras cidades para o “Acto 5” das manifestações de sábado. Ele fala de uma continuação da Revolução Cidadã, mas não faz propostas concretas para organizar um movimento capaz de as realizar.

Programa e Liderança

As forças do CIT em França – Gauche Révolutionnaire – e apoiantes de outras secções, são participantes activos no movimento – nos bloqueios, nos liceus e nos protestos em massa. Têm uma edição especial de seu jornal – “Égalité” – onde aponta a greve geral de um dia como o próximo passo para a mobilização que permitirá derrubar o odiado governo.

A fome de mudança tem vindo a aumentar com este movimento inspirador. É difuso, mas a natureza das reivindicações reflecte claramente a raiva que existe numa sociedade com níveis de desigualdade cada vez maiores – aumentos enormes da riqueza das elites e sacrifícios cada vez maiores para a classe trabalhadora e os pobres.

Uma característica deste movimento tem sido os comentários disseminados de camadas anteriormente confortáveis da classe média, agora forçadas a entrar nas fileiras da classe trabalhadora. Marx e Engels explicaram exactamente este processo que ocorre durante as crises do capitalismo no “Manifesto Comunista” publicado pela primeira vez há 170 anos. Sentimentos semelhantes estão por trás de grande parte do crescimento do populismo de direita e de esquerda noutros países, juntamente com a ainda sobrevivente hostilidade pós-stalinista em relação à organização de partidos, as preocupações com a formulação de políticas de cima para baixo. Isto significa que o movimento é difuso. Não ter liderança é uma vantagem nalguns aspectos, mas um obstáculo à tomada de decisões democráticas e ao desenvolvimento de quadros e liderança.

A figura da extrema-direita, Marine le Pen, culpou a globalização e a imigração pela crise na sociedade francesa. Alguns dos protestos originalmente repetiam esses sentimentos, mas tais visões foram superadas pelo clima de luta comum contra o governo.

Agora os coletes amarelos são verdadeiramente um movimento de “tous ensemble” (“todos juntos”). O elemento crucial que pode transformar esse grito maciço de ira numa força para transformar a sociedade, em linhas socialistas, é um partido que tenha esse como seu objetivo claro – não apenas no seu nome, desprovido de qualquer significado, como o do desacreditado Partido Socialista Francês. O Partido Comunista Francês não tem o apoio que teve outrora, quando era um partido de massas da classe trabalhadora. Mas isso também significa que não pode desempenhar o papel de enorme bloqueio ao movimento operário que desempenhou em 1968 quando este estava prestes a tomar o poder.

Luta Socialista

Uma das características do actual movimento é que aparentemente não tem líderes e, portanto, não existe ninguém a quem o governo possa convencer a cancelar a acção. Tem porta-vozes, como Benjamin Cauchy, que declara que o movimento não ficará satisfeito com migalhas – quer a baguete.

Enquanto socialistas, diríamos, por que não a padaria? Macron pode “sacrificar” o seu primeiro ministro. Ele pode até ser forçado a resignar. Novas eleições podem ser chamadas. Mas qualquer governo que permaneça encarregue de uma economia onde as decisões continuam na sua grande parte nas mãos da burguesia retornará, repetidas vezes, para fazer com que os trabalhadores e os pobres paguem pelas suas crises recorrentes.

“Agora que sentem o vosso poder”, diríamos nós: “porque não vincular comités eleitos a nível local, regional e nacional para substituir o governo?” Jean-Luc Mélenchon chamou por uma Assembleia Constituinte. Porque não fazer disso uma assembleia da revolta, com representantes democraticamente eleitos, a todos os níveis, inclusive em assembleias nos locais de trabalho, escritórios, escolas, bairros e fábricas?

Tais comités poderiam transformar-se num governo de trabalhadores e pessoas pobres. Pode ter como programa todas as reivindicações do movimento e a expropriação pública dos grandes bancos e das principais empresas – o ‘CAC 40’ – que formam a base do capitalismo francês (e a partir de onde os amigos de Macron obtêm a sua riqueza). As palavras de ordem da Revolução de 1789 – “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” – só podem ser asseguradas com base no socialismo!

Como diz a edição especial do jornal da Gauche Révolutionnaire, o movimento francês precisa de ligar a luta imediata por um salário mínimo, o restabelecimento dos impostos sobre os super-ricos e uma injeção de milhões na educação, saúde e meio ambiente com a luta pelo socialismo. Isto implica lutar por uma sociedade que seja “planeada democraticamente e ecologicamente para satisfazer as necessidades de todos e não os lucros de um punhado de super-ricos… uma sociedade verdadeiramente democrática, fraterna e tolerante, livre de guerras, pobreza, racismo e sexismo”.

 

 

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