Escócia: Rebelião de Glasgow por salário igual mostra poder da classe trabalhadora

Matt Dobson, Socialist Party Scotland – CIT na Escócia, tradução do artigo publicado na página socialistworld.net a 25/10/2018

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Nos dias 23 e 24 de Outubro, cerca de 8.500 mulheres de Glasgow fizeram história ao tomarem acção industrial. Foi “uma das maiores greves do Reino Unido no que toca à questão da igualdade salarial” segundo os comentários da BBC News. Na verdade foi mais uma revolta na qual o poder da classe trabalhadora foi claramente demonstrado.

Montaram-se piquetes de greve em centenas de escolas, infantários, centros de reciclagem e edifícios camarários, num esforço logístico fenomenal. Feito que por si demonstrou a participação massiva que marcou a greve. Uma maré colorida de 10.000 grevistas, dominada por bandeiras, faixas e pancartas da Unison e da GMB, assim como de sindicalistas e apoiantes que marcharam num bloco vibrante e sonoro no primeiro dia de greve que abalou as rua de Glasgow Green até à George Square.

O ponto central da mobilização foi a capacidade de luta tremenda das mulheres trabalhadoras mal-remuneradas que representavam 90% das grevistas. Traídas pelo anterior gabinete Trabalhista que presidiu durante 10 anos de escandalosa discriminação salarial – e pela liderança do Partido Escocês Nacional (SNP) que prometeu uma resolução justa mas que se tem vindo a arrastar- as mulheres trabalhadoras decidiram que bastava.

A greve reflectiu 12 anos de fúria reprimida por salários baixos e carreiras desvalorizadas, assim como a experiência de austeridade capitalista da última década.

O contexto

“Queremos justiça. Sou uma mãe solteira que passa dificuldades para apoiar a minha família com 800 libras por mês” dizia uma grevista entrevistada pelos media. Carol Qua, grevista, frisou que apesar de ter 3 empregos municipais passava dificuldades financeiras.

A frustração foi finalmente veiculada e estas trabalhadoras entusiasticamente aproveitaram a oportunidade para mostrar a sua força trabalhadora.

A greve começou no turno da noite, na segunda-feira de 22 de outubro, com um piquete massivo na sede da antiga Cordia (uma prestadora de serviços falhada, criada pela administração de direita do Novo Trabalhismo). Na madrugada de terça-feira, centenas de piquetes reuniram-se, então, em toda a cidade.

Não se tinha de andar muito para encontrar uma linha de piquete ou ouvir um! No fim dos piquetes um mar de grevistas inundou Glasgow Green reunindo-se para a manifestação.

O autocarro 75 de Castlemilk estava quase inteiramente lotado por grevistas entoando cantigas a caminho da manifestação. Os motoristas permitiram que as grevistas fizessem a viagem gratuitamente até Glasgow Green. Houve apoio massivo por quem assistia à manifestação. Quando a manifestação chegou ao centro da cidade os lojistas aplaudiram. Isto tudo apesar da propaganda anti-grevista, via imprensa, por parte da câmara na noite que antecedeu a greve.

Acção Solidária

A administração dos Serviços Ambientais e Terrestres inicialmente ameaçou disciplinar qualquer trabalhador que não trabalhasse durante a greve. No turno da manhã, e numa demonstração maravilhosa de solidariedade, todos os 600 trabalhadores da limpeza, onde quase todos são do sexo masculino, saíram em solidariedade com as mulheres recusando recolher o lixo, na luta pelo salário igual. A recolha do lixo foi completamente parada.

John O’Connor, representante da GMB para os trabalhadores da limpeza na cidade afirmou no diário Herald: “Sabemos das greves, de hoje e amanhã, por um salário igual. Como trabalhadores da limpeza viemos trabalhar como num dia normal, mas não quisemos quebrar o piquete visto que estamos totalmente solidários com as mulheres.

“A gerência entrou na nossa cantina e leu uma declaração oficial da Câmara dizendo que, se não trabalhássemos, haveria uma acção disciplinar tomada contra nós. Eles basicamente disseram que se não quebrássemos o piquete para ir trabalhar, não seríamos pagos. Em apoio às mulheres, os rapazes da limpeza vieram apoiá-las com todo o coração na luta pela justiça.”

Toda a gente que está familiarizada com a campanha por um salário igual conhece o exemplo que serve para ilustrar a situação, o dos cantoneiros (sector maioritariamente masculino) que recebiam mais 3 libras que as suas colegas no mesmo escalão salarial.

Esta foi a realidade que marcou a acção solidária secundária, a da recusa dos trabalhadores de trabalhar, perdendo dias de salário, para para mostrar solidariedade de classe e fortalecer a greve das mulheres. Um gesto extremamente poderoso e simbólico. Partes dos trabalhadores da segurança social da Glasgow Life também recusaram quebrar piquetes e participaram em acções de solidariedade.

Comício

A enorme manifestação encheu a George Square. As grevistas e demais delegados sindicais discursaram energeticamente, após um momento de silêncio em honra a todas as trabalhadoras que faleceram sem nunca terem um salário igual para trabalho igual.

Mary Dawson, coordenadora local do sindicato UNISON, disse: “Estas mulheres são as engrenagens que mantêm a nossa cidade a funcionar – limpando, cuidando, educando e zelando pelas pessoas mais vulneráveis ​​da cidade – e não foi de ânimo leve que tomaram a decisão de fazer greve. No entanto, apesar dos serviços vitais que prestam, o papel que desempenham é continuamente subestimado. Está na hora da Câmara Municipal de Glasgow tomar medidas para resolver esta injustiça de longa data, para que estas mulheres possam continuar a prestar os serviços dos quais todos dependemos”.

Shona Thomson secretária da filial de assistência domiciliar do GMB disse: “Nós sabemos porque estamos aqui. Nós venceremos. Nós queremos justiça. Sem instigar homens e mulheres mal pagos uns contra os outros. Estamos enraivecidas por esperar tantos anos. Os Vereadores que dizem estar do nosso lado precisam de nos levar a sério. Eu sou uma cuidadora e delegada sindical porque me importo. Eu não preciso que os directores e o director executivo digam que o meu trabalho é importante se não estiverem preparados para o valorizar”.

SNP Exposto

O SNP conseguiu obter algum apoio, principalmente nas redes sociais, contra a greve alegando falsamente que os sindicatos são peões do Partido Trabalhista Escocês, afirmando que a greve só ocorreu em Glasgow por ser uma câmara do SNP.

O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, e Richard Leonard, líder trabalhista escocês, congratularam a greve, mas não denunciaram as acções anteriores do novo executivo trabalhista, o que só dá peso às acusações de oportunismo.

O Glasgow City Unison é capaz de contrariar as afirmações do SNP pela sua história militante, doze greves combativas pelo pagamento justo contra o esquema de pagamento, principalmente quando o Partido Trabalhista estava no poder. E por nunca terem aceite o esquema desigual de remuneração de Glasgow.

A razão para a greve ocorrer agora foi o julgamento do Tribunal Constitucional Civil, em agosto de 2017, que determinou que o esquema salarial de Glasgow era desigual e injusto. As 21 “reuniões sobre reuniões”, abordagem da administração do SNP, só esfregava sal nas feridas. As mulheres deram ao SNP uma hipótese após a votação consultiva no verão, mas a administração  decepcionou-as durante o processo de negociação. A greve foi a única maneira de aumentar a pressão para negociar um acordo.

Susan Aitken, líder da câmara de vereadores do SNP, derramou gasolina sobre o incêndio ao afirmar que as grevistas não “entendiam as razões” pelas quais estavam agindo. Isto foi efetivamente respondido publicamente pelos sindicatos, eloquentemente todas as vezes que as grevistas tinham voz nos media.

Desgraçadamente, os oficiais e os “porta-vozes” da Câmara publicaram uma campanha assustadora visando as grevistas de assistência domiciliar, publicamente levantando preocupações de que haveria fatalidades e perseguindo o sindicato sobre a questão “da cobertura de seguro de vida e por acidentes”.

A administração do SNP e os oficiais da câmara também tentaram “dividir e governar”. Cancelaram as negociações com o Unison e o sindicato GMB como punição pela organização da greve. Eles só negociariam com os advogados da Action 4 Equality e com sindicato Unite não-grevista. No entanto, todas as organizações reivindicadoras estavam unidas na rejeição desta abordagem. Falam com todos ou não falam com ninguém!

O Papel dos Socialistas

O Partido Socialista da Escócia (CIT) desempenhou um papel crucial nesta disputa. Os nossos militantes desempenharam um papel de central na liderança do Glasgow City Unison, cujos membros compunham 5.500 dos 8.500 grevistas.

Temos vindo a construir fundos de solidariedade e de greve ao longo das últimas semanas. Distribuímos milhares de panfletos sobre a greve, redigidos por nós, que foram bem recebidos nas manifestações e piquetes.

Três grevistas da Unison, Ingrid, Denise e Lynne Marie, falaram de uma forma inspiradora na nossa reunião após a concentração grevista, ao lado de Brian Smith, secretário do Glasgow Unison e membro do Partido Socialista da Escócia, e Philip Stott, o nosso secretário nacional.

Argumentamos que o SNP, assim como o New Labour antes deles, não têm o direito de reivindicar ser anti-austeridade se eles mantêm os cortes dos Conservadores, se atacarem termos e condições ou se recusarem implementar esquemas de remuneração justa.

Os políticos têm que escolher de que lado estão. Os Trabalhistas foram expulsos do poder em Glasgow e o mesmo poderá acontecer ao SNP. Exigimos que o governo escocês e a Câmara Municipal de Glasgow atendam ao custo da Igualdade Salarial, estimado em até mil milhões de libras, e que estabeleçam uma política de combate aos cortes orçamentais e que desafiem os cortes dos Conservadores.

Estamos em total concordância com o discurso do comissário do Unison, Jean Kilpatrick, no comício, dizendo que os sindicatos não aceitariam “roubar o Peter para pagar à Pauline e cortar os serviços para cobrir o custo”.

Também destacamos esta greve como um exemplo do que pode ser alcançado e que deve servir como uma chamada de alerta para os líderes sindicais nacionais para que acionem ações coordenadas contra cortes e austeridade.

Lições

Uma consequência política desta greve é ​​que as ilusões no SNP, que foi eleitoralmente apoiado pelas promessas anti-austeridade e um compromisso de financiar salários iguais, estão a ser desmascaradas. A luta de classes expõe o verdadeiro caráter anti classe-trabalhadora dos líderes do SNP.

Susan Aitken respondeu à greve dizendo que ainda não entende a sua razão e que a mesma é injustificada. Os oficiais da câmara também acusam os sindicatos de perder o controlo da greve. Na verdade, são eles e a administração do SNP que estão a perder o controlo da situação. Agora é possível, a menos que eles cheguem a um acordo negociado rapidamente, que isto se transforme num desastre político para eles.

A primeira greve de 48 horas teve um enorme impacto industrial e político em Glasgow e mais além. A classe trabalhadora mostrou o seu poder. Os sindicatos seriam plenamente justificados em escalar a acção e convocar mais greves em massa, a não ser que a Câmara passasse a pagar a estas trabalhadoras mal pagas o que lhes é devido. Tal processo levaria a outras conclusões políticas e levantaria a necessidade de um genuíno partido de massas anti-austeridade que lute por políticas socialistas.

Foi apropriado que este exemplo do poder da classe trabalhadora veio poucas semanas antes do centésimo aniversário dos eventos revolucionários de “Red Clydeside”, em janeiro de 1919.

A História está a ser refeita. E são as mulheres e homens de classe trabalhadora, aliados na luta por políticas socialistas que a farão.

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