Call Centers, um sector económico em crescimento

Bruno Penha, Socialismo Revolucionário Lisboa, artigo d’A Centelha Internacional nº 0

Konecta

Protesto dos trabalhadores do Call Center da Konecta. Lisboa, 5 de Julho de 2018. Foto: SR

Numa fase de fraco crescimento económico o sector dos call centers tem tido um grande crescimento em portugal. De acordo com Associação Portuguesa de Contact Centers (APCC) haviam 81.615 trabalhadores de call center em 2017, praticamente três vezes mais do que em 2015 (quando o número estava perto dos 30.000), ano em que o governo do PS assumiu o cargo com o apoio da esquerda parlamentar. A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) explica o crescimento: Portugal tem uma das melhores infraestruturas de telecomunicações do mundo, incluindo uma grande percentagem de fibra óptica no sistema de internet, e uma força de trabalho “disponível e flexível”, falante de línguas estrangeiras. O que a agência não revela é que esta disponibilidade se deve ao desemprego real — 17.5%, muito mais alto que os oficiais 8.5% — e a flexibilidade se deve ao progressivo enfraquecimento das leis laborais que permitem que os patrões tenha muito mais facilidade em despedir.

Uma praga de precariedade e condições de trabalho lastimáveis

Muito deste crescimento deve-se a empresas de outsourcing, que empregam 42% dos trabalhadores deste sector. Empresas clientes preferem pagar um taxa extra a empresas nacionais e internacionais que são especializadas em outsourcing — como a Teleperformance ou Manpower —  para que não tenham nenhuma responsabilidade sobre os trabalhadores. Por volta de ⅓ dos trabalhos outsourced recebe o salário mínimo de 580€, um salário de pobreza em Lisboa e no Porto — onde 80% destes trabalhos estão localizados — que sofrem com uma crise da habitação onde um quarto chega a custar metade deste salário.

A precariedade e o trabalho desgastante são o que há de comum nos trabalhos deste sector heterogéneo. O trabalho pode ser inbound — que consiste em receber chamadas de clientes, que normalmente precisam de apoio técnico — outbound — que consiste em fazer chamadas para os clientes, normalmente a vender ou a renovar contratos quando os mesmos estão a acabar — ou backoffice — que consiste em trabalho administrativo, sem contacto direto com os clientes — que abrange vários tipos de serviço, desde seguros a turismo ou até mesmo bancário. A pressão para conseguir uma certa perentagem de vendas ou de satisfação do cliente (normalmente avaliado com inquéritos no final da chamada) é imensa, com constantes ameaças de despedimento, assédio por parte dos supervisores, equipamento de trabalho inadequado e espaço de trabalho sem qualquer tipo de higiene — infecções respiratórias e dores de costas são comuns. Tudo isto resulta em burnouts regulares e numa rotatividade de 20% por ano no sector.

Em luta por um salário digno e melhores condições de trabalho

O estado a que o sector chegou pode ser atribuído à falta de organizações dos trabalhadores. A maior central sindical, a CGTP, afecta ao Partido Comunista Português (PCP), não se preocupou em organizar este novo sector, acabando por dividir os trabalhadores, despolitizados e inexperientes na luta sindical, por vários sindicatos diferentes.

Mas condições de trabalho tão lastimáveis não podem continuar a ser toleradas — os trabalhadores estão a começar a organizar-se! A sindicalização no sector quase que duplicou nos últimos dois anos e a pressão foi tanta que até a burocrática e relutante CGTP teve que convocar uma greve nacional no ano passado. Outro desenvolvimento importante foi a criação de um sindicato independente há quatro anos atrás, o Sindicato dos Trabalhadores de Call Center (STCC), que desde então tem feito pressão para que o trabalho de call center seja reconhecido como “trabalho de desgaste rápido” — aplicado em profissões desgastantes, o que permitiria uma maior tempo de pausa, menos horas de trabalho e uma idade de reforma mais baixa — organizando assembleias de trabalhadores e greves bem sucedidas para o aumento salarial, juntando-se a lutas de outros sectores (como protestos feministas, LGBT+ e anti-racistas) e denunciando a precariedade no sector.

Apesar do PCP e do Bloco de Esquerda terem prometido lutar contra a precariedade na sua campanha há 3 anos, esta cresceu a nível nacional, incluindo no sector público! Não conseguiram que o governo do PS regulasse o sector dos call centers, pelo contrário, são coniventes com o financiamento de empresas de outsourcing com dinheiro público através do corte de impostos e do pagamento da renda e de outros custos fixos! Nós os trabalhadores temos novamente a prova de que este governo não defende os nossos interesses, mas sim os dos capitalistas. Só nós podemos pôr um fim à precariedade, salários de pobreza, assédio e falta de condições no trabalho ao lutar nas ruas e nos nossos locais de trabalhos.

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