Itália: Uma nova crise para o capitalismo Europeu

Tradução do artigo da Resistenze Internazionali (CIT em Itália), publicado em inglês no website do CIT no dia 30 de Maio. Um novo artigo, dando conta dos desenvolvimentos posteriores em Itália, encontra-se já publicado em inglês no mesmo website.

Sergio Mattarella

Sergio Mattarella, presidente de Itália, é neste momento o representante mais seguro dos interesses da burguesia nacional e internacional no aparelho de Estado italiano, usando os seus poderes para reverter decisões do parlamento.

Aquilo que foi uma crise severa para o capitalismo Italiano, após a rejeição dos partidos do establishment nas eleições gerais em Março, desenvolve-se agora naquilo que pode ser visto como uma bomba-relógio que ameaça também a União Europeia e o euro. O Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) advertiu, por várias vezes, que a tentativa de reter uma moeda comum e uma economia integrada numa base capitalista iria colapsar a dada altura. A Grécia não seria o último país a ameaçar a ruptura. O que está a acontecer em Itália, juntamente com a saída do Reino Unido, pode resultar numa fragmentação da zona euro e/ou da União Europeia na sua forma actual.

A Itália, com a sua dívida pública massiva e economia estagnada, era um dos principais candidatos para uma nova crise. As suas raízes assentam na profunda insatisfação dos pobres e dos trabalhadores do país depois de décadas sem crescimento e de austeridade incapacitante. Os dois partidos populistas que ‘venceram’ Março passado, e que deviam formar um governo, foram o Movimento Cinco Estrelas (M5S) e a Liga. As suas ideias incluíam ataques a imigrantes e algumas expressões de nacionalismo extremo mas também prometiam um rendimento básico incondicional, impostos mais reduzidos e aumento dos gastos públicos. Ambos preencheram o vácuo criado pelas políticas pró-capitalistas criminosas da esquerda italiana no passado, incluindo o Partido de Refundação Comunista — o PRC — que acabou por colapsar.

Nenhum destes partidos , nem o ministro das finanças escolhido por ambos, Paolo Savona, defendiam a saída da UE. Mas este era conhecido como eurocéptico e os representantes dos bancos e das grandes empresas sabem que pressões para sair do colete de forças da UE poderiam muito bem empurrar o governo M5S/Liga até uma ruptura.

De mal a pior

A decisão do presidente italiano de ir contra a decisão dos partidos eleitos e impor um nome diferente para ministro das finanças — Carlo Cotterelli, proveniente do FMI — tornou as coisas piores e abalou as bolsas Europeias.

A crise governamental desenvolve-se hora a hora, com o presidente italiano a usar os seus poderes parlamentares autoritários e Bonapartistas para reverter decisões e propor novas.

Para além da raiva justificada dos eleitores em relação à intervenção do presidente na tentativa de encontrar um governo seguro para o capitalismo, o que fez com que estes exigissem  o seu impeachment, as acções deste alimentaram ainda mais o apoio aos partidos que ganharam as eleições! Os ataques vindos dos mais fanáticos representantes do capitalismo Alemão podem apenas inflamar a situação. O comissário europeu para o orçamento e recursos humanos, o alemão Gunther Oettinger, disse que o colapso dos mercados em Itália iria mostrar aos eleitores italianos os perigos de votar em populistas.

Não é só em Itália que os mercados revelam os seus medos em relação ao futuro da UE, e por sua vez do seu sistema, face à revolta popular. O investidor George Soros avisou que a zona euro enfrenta uma crise existencial. Como Larry Elliott põe o caso no jornal The Guardian (Londres, 30 Maio): “Durante anos, os mercados financeiros têm perguntado de onde virá a próxima crise global. A ruptura do euro provocada por um ‘Italeave’ certamente iria desencadeá-la”. O cabeçalho desta peça é, “A união monetária teria sobrevivido à perda da Grécia. Não sobreviveria à perda de Itália”.

Quando a Grécia estava a ser intimidada para continuar com os cortes brutais enquanto condição para receber mais empréstimos, o CIT argumentava que existia uma alternativa. Teria de significar uma ruptura com o capitalismo e a divulgação das ideias de uma alternativa socialista por todo o sul da Europa — Espanha, Portugal e Itália.

Nós defendemos uma confederação socialista da Europa, incluindo a Alemanha. A luta contra as políticas do imperialismo germânico deverá incluir um apelo à poderosa classe trabalhadora desse país para romper com as políticas reacionárias dos seus governos capitalistas. Esta é a abordagem que os socialistas em Itália têm que tomar — encontrar uma maneira de expressar a raiva que os trabalhadores e a juventude sentem contra o sistema e esforçar-se para construir um novo partido dos trabalhadores para lutar pelo socialismo — em Itália e internacionalmente.

O artigo seguinte é da autoria da Resistenze Internazionali (CIT em Itália):

No último episódio do infindável drama político do pós-eleições em Itália, o Presidente da República, Mattarella, frustrou o governo de coligação ‘amarelo-verde’ que se estava prestes a formar pela Liga e o M5S. Apenas cinco dias após ser nomeado Primeiro Ministro, Giuseppe Conte, professor de direito, devolveu a nomeação e voltará agora à obscuridade política.

Estes eventos desencadearam uma séria crise política, constitucional, económica e financeira que já manifesta consequências a nível Europeu e internacional. No topo, é uma luta pelo poder que reflecte as divisões entre diferentes alas da classe capitalista. Enquanto secções de pequenos e médios negócios na região Norte do país encontraram uma voz política no populismo de direita da Liga, as empresas maiores e as mais orientadas para as exportações têm visto, mais recentemente, a representação política na forma dos Partido Democrático (PD) e Forza Italia aniquilada eleitoralmente. Nesta situação Mattarella tornou-se na sua única esperança.

O que desencadeou a demissão de Conte foi a recusa de Mattarella em apoiar o economista Paolo Savona, que a Liga e o M5S tinham proposto como Ministro das Finanças. Mesmo não sendo inteiramente inaudito, o uso do veto presidencial numa situação assim é raro e reflecte a profunda crise política que a burguesia Italiana enfrenta. Mattarella não poderia ser mais claro quanto à sua motivação. A nomeação de Savona, declarou, estava a alarmar os investidores Italianos e estrangeiros devido à sua posição em relação ao euro.

Paolo Savona não chega nem perto de ser um revolucionário. Apesar do economista de 81 anos ter descrito o euro como um erro histórico e frisado a importância de haver um ‘Plano B’, não tem defendido a saída de Itália, nem uma saída da UE fez sequer parte do plano da Liga/M5S para o governo. Na verdade, Savona tem tido uma longa carreira como representante do establishment, enquanto ministro do governo, no sector bancário e com a Cofindustria, a federação dos patrões. Mesmo assim, sob pressão dos funcionários da UE, dos líderes governamentais da UE, dos mercados financeiros e das agências de rating, Mattarella, e por detrás dele o PD e secções da classe capitalista Italiana, estava preparado para tomar um passo tão drástico na esperança de acalmar a agitação nos mercados e dar um aspecto de tudo estar ‘a correr como é normal.

O substituto apontado por Mattarella para o lugar de Conte é Carlo Cottarelli, um ex-funcionário do FMI e assessor nas “revisões” (cortes) orçamentais do governo conhecido como ‘Sr. Mãos-de-tesoura’ por causa do seu entusiasmo em promover cortes, austeridade e orçamentos equilibrados. Estas políticas são exatamente o oposto dos cortes nos impostos pessoais e dos aumentos nas pensões que o governo Liga/M5S estava a prometer. Mas, longe de acalmar os mercados, a sua nomeação levou a uma queda ainda maior da Borsa, a bolsa Italiana, e a um aumento dos spreads da dívida do governo até ao nível mais alto desde o fim de 2013. Será quase impossível para Cottarelli ganhar um voto de confiança no parlamento, resultando na convocação de novas eleições, talvez no outono, com Cottarelli a liderar um governo virtual até que o parlamento seja dissolvido, ou até eleições antecipadas em Julho.

O que se segue?

Ao invés de controlar os populistas, o ‘golpe Presidencial’ de Mattarella terá jogado a favor destes, fortalecendo o profundo clima anti-establishment que tinha explodido nas eleições de 4 de Março como protesto contra anos de crise económica e de corrupção. Tanto a Liga como o M5S têm pedido demonstrações e protestos para o dia 2 de Junho (dia da República). De acordo com o Instituto Cattaneo, se o M5S e a Liga concorressem juntos nas próximas eleições (não é certo) ganhariam cerca de 70% dos lugares no parlamento. De qualquer das maneiras, eles serão provavelmente os maiores vencedores. A Liga, em particular, tem visto aumentar rapidamente o seu apoio (maioritariamente à custa do partido do Berlusconi, o Forza Italia) com uma sondagem de opinião a dar-lhe 27%, apenas a alguns pontos do M5S. Ao mesmo tempo, o descontentamento tem vindo a aumentar dentro do M5S e a hipótese de a liderança de Di Maio ser desafiada por aqueles que sentem que foram roubados de poder e que Di Maio vendeu o partido a Salvini, líder da Liga, não pode ser excluída.

“Itália não é uma colónia”, declarou Salvini. “Os Alemães não nos podem dizer o que fazer”, acrescentou. Isto dá-nos uma ideia de que tipo de campanha eleitoral será provavelmente usada: “Quem controla Itália — as pessoas, ou a elite, os poderosos, os mercados financeiros e a UE’. Enquanto que a Europa mal tinha sido abordada durante as eleições de Março, é provável que da próxima vez tome o palco principal. Nesta situação, a Esquerda não pode ser identificada com nenhum dos lados da luta pelo poder político. A coligação de esquerda criada recentemente (ainda pequena e heterogénea), Potere al Popolo, vai ter que lutar para canalizar uma parte do clima anti-establishment que se sente numa direcção claramente anti-capitalista, longe do nacionalismo e da abordagem soberanista da direita que será dominante durante a campanha eleitoral. Esta não será uma tarefa fácil, mas é absolutamente urgente e é o que a Rezistenze Internazionali irá tomar como campanha.

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