O mínimo para sair da pobreza

Editorial d’A Centelha nº 14

General Images From Inside A McDonald's Restaurant

Recorrendo a palavras da direcção da CGTP-IN, devemos começar por dizer que “Tendo o SMN sido implementado em 1974, caso evoluísse até hoje, de acordo com a inflação e produtividade verificada, o seu valor corresponderia a 1.267€, em 2018”.

Actualmente, o salário mínimo nacional (SMN) é 580€, após a subida de 23€ em Janeiro. Isto é menos de metade do que deveria ser para corresponder ao de 1974, mas o governo apresenta o objectivo de 600€ como uma grandiosa promessa. Já as direcções do PCP e do BE esperam que aceitemos sair da pobreza de 505€ para chegar à pobreza de 600€, um degrau por ano, e não levantam nenhuma reivindicação para lá da pobreza.

Estes “aumentos” tão somente abrandam a descida do salário reali.e., o salário entendido como aquilo que de facto podemos adquirir. Porque se 600€ não ultrapassam nem acompanham a subida nos custos da educação, da saúde, da habitação e da alimentação, o que temos é uma descida. E isto com um número crescente de trabalhadores precários e a receber o SMN — já são 21,6% da nossa classe, segundo números oficiais, mas sabemos que o trabalho “informal” não é contabilizado.

Uma conciliação de classes cada vez mais frágil

Desde a tomada de posse de Costa que as direcções do PCP e BE testam a extensão da sua influência sobre a classe trabalhadora — ainda vastamente desorganizada. As manobras na defesa do PS são inumeráveis. A permanência de todas as medidas centrais do governo PSD-CDS, a manutenção da precariedade e dos falsos recibos verdes, os avanços na privatização do ensino superior e da saúde, a degradação da rede de transportes e as preparações para a sua completa privatização, a crise de habitação nos grandes centros urbanos e o aumento dos despejos de famílias pobres, os resgates à banca privada, as aprovações de orçamentos do Estado que esmagam os serviços sociais, tudo tem sido feito com as direcções do BE e do PCP a garantir a paz social. Não houve nem a mais ténue tentativa de agitação dos trabalhadores na construção de uma luta unificada e capaz de forçar o PS a escolher entre de facto pôr fim à austeridade ou deixar cair a máscara progressista.

Contudo, como dissemos repetidamente, escudar o PS não é possível para sempre, e tem consequências pesadas. Na mesma medida em que protegem o governo, os oportunistas desgastam a confiança da classe trabalhadora nas suas políticas. Com um salário de miséria, habitação precária, transportes públicos degradados e um futuro sempre incerto, o trabalhador não possui a estóica paciência do burocrata sindical ou partidário, essa qualidade alentada por um bom ordenado, uma vidinha tranquila com casa própria, automóvel particular e férias pagas. A cada celebração de uma “vitória”, os trabalhadores mais avançados e organizados sentem a possibilidade de vitórias de facto substanciais, impacientam-se. É isto que explica o aumento de greves em 2018, que não mostra sinais de abrandamento.

Uma reivindicação para a luta

Em conjunturas explosivas como a que lenta mas seguramente toma forma em Portugal, palavras de ordem que apresentem à classe trabalhadora uma solução para os seus problemas imediatos e se liguem ao estado actual da sua consciência — que em muito ultrapassa os programas do PCP e BE — podem ter um impacto profundo no movimento operário. Isto, no entanto, só é possível com uma força de esquerda combativa e de dimensão suficiente para fazer ouvir essas palavras de ordem apesar do ruído dos oportunistas. O Socialismo Revolucionário não tem qualquer ilusão de ser capaz de cumprir este papel. Há anos que apelamos a uma frente unida de partidos da esquerda, sindicatos e movimentos sociais. Os esforços para nos constituirmos como tendência interna do BE, dando assim um primeiro passo nesse sentido, são por demais conhecidos.

Defendemos a unidade de todos aqueles que, como nós, entendem a necessidade de lutar com os métodos que realmente funcionam — e uma vez mais frisamos que nenhuma negociação no parlamento, nas assembleias municipais ou em qualquer outro órgão da democracia burguesa tem qualquer relevância se não for o reflexo da organização nos locais de trabalho e de estudo, de uma ameaça séria de paralisação e ataque aos lucros dos capitalistas.

A reorganização da esquerda numa frente unida é uma tarefa colossal, mas é a única via para uma saída vitoriosa da situação actual. Se as direcções burocráticas se mantêm como principal obstáculo a esta tarefa, então a frente unida terá de ser construída a partir das bases de todas as organizações de trabalhadores e da esquerda, e todos os militantes que lutam por ela precisam de forjar um programa que de facto mobilize a nossa classe para a luta.

Ao insistir nos 600€, as actuais direcções da esquerda sabem muito bem que desmoralizam e desmobilizam os sectores mais combativos da classe trabalhadora. Ninguém se ergue para lutar por um salário de pobreza, e estas direcções não exigem nem mesmo o mínimo para sair da pobreza! É por isto que a base de um programa de unidade da esquerda só pode ser, no momento actual, uma reivindicação que ultrapasse e, por isso, pressione as direcções burocráticas: o SMN de 900€ — a par de reivindicações como a jornada de 35 horas semanais para todos e a contratação colectiva. Apelamos a todos os militantes da esquerda para que adoptem estas reivindicações como suas e avancem na construção da unidade da esquerda onde ela pode desde já ser realizada, ou seja, em todas as lutas nos seus bairros, nos seus locais de trabalho, escolas e universidades.

Subida imediata do Salário Mínimo para 900€!

35 horas para todos os trabalhadores do sector público e privado!

Fim da precariedade e dos falsos recibos verdes!

Contratação colectiva em todos os locais de trabalho com mais de 10 trabalhadores!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s