Não ao bombardeamento da Síria! Construir um movimento de massas contra a guerra!

Artigo de Serge Jordan, publicado a 12 de Abril de 2018 no website do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT)

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A administração Trump está a preparar-se para mais uma possível onda de ataques aéreos contra alvos do regime sírio. Isto poderá desencadear uma explosiva cadeia de eventos que potencialmente levará a uma conflagração militar mais séria entre as principais potências internacionais e regionais no Médio Oriente. Moscovo respondeu às ameaças abertas de Trump dizendo que irá atacar as unidades dos EUA envolvidas em qualquer ataque em território sírio.

Quer Trump, quer a primeira-ministra britânica, Theresa May, estão a passar por tempos políticos turbulentos e necessitam de desviar a atenção dos infortúnios das suas administrações. Na Grã-Bretanha, foi muito conveniente para May que o alegado ataque neurotóxico [de que os Skripal foram vítimas], sem provas concretas, tenha ocorrido no período que antecedeu esta crise. Juntamente com a França, onde o presidente Emmanuel Macron enfrenta uma nova onda de acção da classe trabalhadora, e a Arábia Saudita que ofereceu instalações para apoiar os outros três, todos estão a aumentar o tom da sua retórica e a exibir o seu poder contra o regime de Assad e seus apoiantes no Kremlin. Usam, cinicamente, o pretexto de um recente alegado ataque químico em Douma, a principal cidade de Ghouta Oriental nos arredores de Damasco, para esse fim.

O regime de Bashar al-Assad e os seus aliados estrangeiros estão a ser acusados, sem qualquer evidência comprovada, deste ataque abominável, que alegadamente matou dezenas de pessoas. Sem dúvida que o regime de Assad tem defendido o seu domínio corrupto ao longo dos anos através de rios de sangue de pessoas inocentes. O CIT não dá qualquer apoio a este regime brutal e reaccionário, nem aos seus patronos russos e iranianos. No entanto porque lançaria agora o exército sírio um ataque químico, provocando a ira das potências imperialistas ocidentais? Embora não possa ser descartado tal ataque, a lógica táctica por trás de tal decisão não é óbvia. A vitória militar em Ghouta Oriental estava, de facto, ao alcance do regime, consolidando o controlo de Assad sobre a maioria dos centros urbanos da Síria. Alguns comentadores especularam que este recente ataque poderá ter sido iniciado por forças jihadistas “rebeldes”, a fim de envolver mais profundamente o imperialismo estadunidense no conflito.

Independentemente de quem é responsável por este ataque, o desejo de o usar como desculpa para outra intervenção imperialista no Médio Oriente deve ser rejeitado de imediato. Quinze anos após a invasão e ocupação do Iraque, milhões de pessoas lembram-se das mentiras dos políticos no poder e dos seus amigos na comunicação social pró-sistema e corporativa na época, de forma a justificar a guerra calamitosa. Justificadamente, muitos não aceitam, sem crítica, a versão oficial dos eventos apresentada pelos governos ocidentais e pelos principais meios de comunicação social. Outras intervenções ocidentais, como no Afeganistão e na Líbia, também foram um desastre para os povos da região e apenas agravaram a crise.

A Guerra no Iraque precipitou o declínio do imperialismo norte-americano no Médio Oriente e a presente guerra na Síria expôs ainda mais este declínio, abrindo espaço à Rússia e ao Irão para expandirem a sua influência na região. Isto, combinado com a viragem da administração de Trump em direcção a um apoio mais directo aos arqui-inimigos do Irão, Israel e Arábia Saudita, conduziu ao agravamento das tensões regionais.

As tensões na região entre as principais potências, precariamente mantidas em equilíbrio durante a batalha contra o ISIS, voltaram agora para primeiro plano com renovada intensidade, já que o proto-estado do ISIS ruiu completamente. Os recentes desenvolvimentos demonstram uma escalada dos conflitos militares «inter-estados» no território sírio, com um aprofundamento do envolvimento militar de Israel, Turquia, Irão e outros países.

Os ataques aéreos de Trump são provavelmente uma demonstração de força de duração limitada, como aconteceu em Abril de 2017, quando a Marinha dos EUA disparou 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk contra uma base aérea síria. Opções mais amplas, como uma guerra declarada pela «mudança de regime», arriscam não apenas arrastar toda a região para um cenário de guerra generalizada, mas também iriam acelerar grandes convulsões políticas e sociais nas capitais ocidentais e por todo o mundo. Mas a guerra tem uma lógica própria e novos ataques aéreos dos EUA numa situação tão volátil podem trazer consequências indesejáveis.

Hipocrisia

À medida que as tensões inter-imperialistas aumentam no Médio Oriente e em todo o mundo, a hipocrisia absoluta e a dupla moral das classes dominantes também atingem proporções surpreendentes. Acusando Assad de “desrespeito pelas vidas humanas”, Trump, May e Macron estenderam recentemente o tapete vermelho ao príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman, o arquitecto-chefe da carnificina e deliberada escassez do Iémen, que mata, em média, uma criança a cada dez minutos. Todos congratularam sem reservas o carniceiro contra-revolucionário al-Sisi pela sua recente “reeleição” no Egipto; todos deram livre-trânsito à operação de limpeza étnica do presidente turco Erdogan em Afrin, bem como aos atiradores israelitas que disparam contra palestinos desarmados em Gaza – cuja condenação o imperialismo estadunidense vetou no Conselho de Segurança da ONU.

Nenhum dos comentadores que exibiram a sua indignação com o uso de armas químicas para justificar uma nova agressão militar na Síria pestanejou quando, no ano passado, o exército dos EUA fez uso de fósforo branco nas áreas densamente povoadas de Mosul e Raqqa, durante a batalha contra o ISIS. Aí centenas de civis puderam ser dizimados e as suas cidades destruídas em nome da “guerra ao terror”. A mesma lógica tem sido usada pelos apoiantes de Assad e Putin para tentar racionalizar os cercos assassinos e bombardeamentos brutais de populações civis que vivem em áreas da Síria mantidas por grupos rebeldes armados, a maioria dos quais são de inclinação islamista-fundamentalista – como os salafistas de Jaysh al-Islam que até recentemente controlava o leste de Ghouta.

Na realidade, a violência assassina de Assad e dos seus aliados, tal como as mortes de civis provocadas pelo imperialismo ocidental na “libertação” contra o ISIS, combinada com a pobreza em massa e a alienação de milhões, actuarão provavelmente como agentes de recrutamento para futuros grupos armados sunitas extremistas – a menos que sejam desafiados por uma alternativa genuína. Paralelamente, as acções de implacáveis gangues armadas de tipo salafista e jihadista ajudarão Assad a manter o controlo – através do medo – sobre importantes sectores da população. Uma nova ronda de ataques aéreos imperialistas teria o mesmo efeito, reforçando a narrativa de Assad, comparando o seu regime a uma fortaleza que se defende contra inimigos terroristas, internos e externos, e imperialistas.

O CIT opõe-se vigorosamente a qualquer ataque militar na Síria, bem como a intervenções e intromissões estrangeiras. O banho de sangue e a destruição, que se prolongaram, quase ininterruptamente, nos últimos sete anos necessitam de ser parados e não aumentados ainda mais. Esta é uma tarefa que todas as potências capitalistas e imperialistas envolvidas na região, lutando entre si por poder, prestígio e lucro, se mostraram totalmente incapazes de fazer. Simplesmente não há solução para os horrores que confrontam o povo sírio com base neste sistema podre.

Enquanto o povo sírio está a sofrer os golpes da contra-revolução e da guerra, existe uma classe operária importante e poderosa em países como o Irão, a Turquia e o Egipto. Aliada aos pobres e oprimidos da região e unindo forças com um muito necessário movimento anti-guerra no Ocidente, esta força, armada com políticas socialistas, pode apresentar uma saída para o pesadelo que a Síria enfrenta e para o Médio Oriente.

Dizemos:

  • Não aos ataques de Trump contra a Síria – retirada imediata de todas as forças estrangeiras – não a todas as ingerências na região
  • Construir um movimento internacional de massas contra a guerra
  • Pela construção de comités de defesa unitários, multi-étnicos e não sectários por toda a Síria para defender os trabalhadores e pobres contra ataques militares e sectários de todos os lados
  • Pela construção de sindicatos independentes e partidos de massas dos trabalhadores, com um programa de terra para as massas e controlo das fábricas pelos trabalhadores
  • Abaixo a ditadura, o capitalismo e o imperialismo – pela unidade dos trabalhadores e pelo Socialismo!
  • Por uma Confederação Democrática e Socialista do Médio Oriente e do Norte de África, respeitando os direitos de todas as minorias
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