Rússia: Eleições reforçam posição de Putin mas uma oposição séria pode desenvolver-se

Artigo de Rob Jones, militante do Socialist Alternative – CIT na Rússia. Originalmente publicado a 28 de Março de 2018 em inglês no website do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores

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Não apareceram manchetes chocantes enquanto se contavam os votos que iriam determinar o novo presidente da Rússia. O Kremlin tinha estabelecido como objectivo conseguir 70% dos votos para Vladimir Putin com uma ida às urnas de 70%.

A Comissão Eleitoral Central anunciou que ele ganhou quase 77% dos votos com uma ida às urnas de 67%. Não demorou muito para Putin voltar ao trabalho. No seu concerto de vitória provocou o governo britânico ao dizer que o aumento na votação foi uma consequência da histeria anti-russa instigada pelo envenenamento de Sergei Skripal em Salisbury. Espera-se que ele faça algumas pequenas mudanças no governo em preparação para os próximos seis anos de governação.

Num distante segundo lugar, com quase 12% dos votos, ficou o candidato do “Partido Comunista” Pavel Grudinin, seguido pelo nacionalista Vladimir Zhirinovskii com quase 6%. A Tatcherista-socialite da “oposição”, Kseniya Sobchak, ficou-se pelos 1.5%. O resultado, dando a Putin o maior número de votos de qualquer candidato presidencial desde o colapso da União Soviética, com mais de 56 milhões de votos, deixou a oposição, particularmente a oposição liberal pró-ocidental, desmoralizada e em desespero.

Que não haja dúvidas de que, mesmo se houvesse uma eleição justa e democrática na Rússia hoje, com os atuais partidos políticos e candidatos, Putin venceria, provavelmente com uma boa maioria de votos. Era quase garantido que aumentaria o seu voto em 4 milhões devido ao eleitorado adicional na Crimeia e à decisão do partido “Just Russia” de retirar o seu candidato em favor de Putin.

Oposição

Nas eleições anteriores os candidatos da oposição foram particularmente ineptos mas desta vez foram inacreditavelmente maus. A classificação de Zhirinovskii ficou praticamente a mesma, mas o “comunista” viu a sua intenção de voto cair quase quatro milhões – de 17% para menos de 12%. Embora pareça cruel dizer isto, o eleitorado “comunista” está literalmente a morrer, mas isso não explica tão grande queda nos votos. A decisão do partido de apresentar o agro-empresário, Grudinin, alienou uma seção do eleitorado mais antigo do PC, nostálgica pelos tempos “soviéticos”. Com as suas atitudes racistas e o apoio a Stalin, ele não fez nada para inspirar a geração mais jovem, cada vez mais rebelde.

Com o apoio acrítico do PC às políticas externas da Rússia, uma seção do seu eleitorado foi tomada pela retórica de Putin e votou no “produto original” em vez de uma pálida imitação representada por Grudinin. A isto adicionou-se a propaganda estatal que minou as queixas do PC sobre oligarcas e influências estrangeiras; expondo treze contas bancárias suíças de Grudinin.

Na eleição de 2012, a oposição neoliberal pró-ocidental na forma de Mikhail Prokorov ganhou quase seis milhões de votos – 8%. Este ano foram dizimados. Os dois candidatos neoliberais – o veterano Grigorii Yavlinskii e Kseniya Sobchak, a dita afilhada de Putin – conseguiram apenas 2,7% entre eles.

Sobchak, em particular, foi vista por muitos como uma candidata fantoche, aprovada pelo Kremlin para furar o boicote às eleições pedido por Alexei Navalnii. Mas o seu estilo de vida extravagante e arrogante, juntamente com declarações provocatórias como “A Crimeia é ucraniana” isolou-a até mesmo dos eleitorados tradicionalmente mais liberais de Moscovo e São Petersburgo. Muitos dos votos ganhos por ela foram de russos residentes no estrangeiro.

Fraude e afluência às urnas

A oposição e comentadores ocidentais apressaram-se a classificar a vitória de Putin como fraude eleitoral. A fraude eleitoral não chegou à escala da última eleição, mas há vários vídeos de funcionários a encher urnas. Em muitas áreas, os observadores eleitorais receberam subornos, ameaças, intimidação ou foram simplesmente barrados de observar a votação. Activistas da oposição na Chechênia indicam uma participação eleitoral de 30-40%, enquanto os números oficiais são de 90-100%.

Desta vez evitaram o erro de reportar participações superiores a 100%! A fraude no dia das eleições em si não era particularmente necessária visto que a eleição não oferecia uma escolha entre candidatos iguais – teve mais semelhanças com um plebiscito, em que os eleitores eram meramente solicitados a aprovar o candidato viável em oferta, apoiado por uma onda de propaganda patriótica.

O resultado mais importante para o Kremlin era, portanto, a afluência. Um voto alto só seria credível se a grande maioria da população participasse. Assim, toda a estratégia visava “encorajar” as pessoas a votar. A mesma mentalidade aplicou-se até mesmo no grande concerto realizado em Moscovo antes da eleição. Os estudantes foram orientados a participar e os sites de redes sociais ofereceram dinheiro às pessoas para garantir que o estádio estivesse cheio.

No dia da votação a associação de empregadores organizou assembleias de voto nas grandes fábricas, aos estudantes foi-lhes garantido que passariam em exames ou que poderiam faltar a  aulas e aos jovens que votassem pela primeira vez que receberiam bilhetes gratuitos para concertos pop se fossem votar.

Rescaldo e protestos

Teria sido difícil para qualquer candidato da oposição obter um bom resultado nestas condições, mas as campanhas ineptas e pouco inspiradoras da oposição também têm parte da responsabilidade. Grudinin chegou a afirmar que a eleição foi justa e, tendo feito uma aposta com um jornalista de que ele teria mais de 15%, foi forçado a cortar o bigode!

Mas o resultado também demonstra o fracasso do apelo de Alexei Navalnii de boicotar a eleição. Ele baseou-se em simples apelos à juventude para que saísse às ruas e se manifestasse – muitas vezes com considerável risco pessoal – sem oferecer um programa coerente ou uma estratégia viável para desenvolver a luta contra a corrupção e o autoritarismo.

Por enquanto, uma parte significativa da oposição maioritariamente liberal está em desespero. Alguns falam de não haver esperança excepto emigrar. Mas eles ignoram o facto de que, embora não tenham conseguido o apoio da população em geral, isso não significa que não haja espaço para qualquer oposição. De facto, os problemas enfrentados pelo povo trabalhador continuam a aumentar. Apenas na última semana, novos protestos significativos começaram.

Na cidade de Volokolamsk, não muito longe de Moscovo, após o envenenamento de crianças pelos gases emitidos por uma lixeira, protestos em massa enfrentaram a ocupação policial da cidade e obrigaram o presidente da câmara a deixar o cargo. Esta crise, causada pelo encerramento de lixeiras e pela incapacidade das autoridades de Moscovo para lidar com o rápido crescimento da população, está a espalhar-se. Moradores de Pervomaiskii, outra cidade próxima de Moscovo, aguardam agora os ataques da polícia de choque depois de um bloqueio de quatro dias na principal artéria da cidade.

A nível nacional, jornalistas de vários meios de comunicação lançaram um boicote à Duma após o comité de ética ter ilibado o chefe do comité de Assuntos Internacionais, Leonid Slutskii, de acusações de assédio sexual contra mulheres jornalistas.

Navalnii e protestos

Os apelos de Alexei Navalnii para que se realizem protestos contra a corrupção no ano passado têm agido para rejuvenescer as manifestações contra os muitos problemas enfrentados pela juventude russa em particular. Mas a sua estratégia centrou-se na sua participação pessoal nas eleições sem assumir, de forma sistemática, qualquer um dos problemas reais que preocupam as dezenas de milhares de jovens activistas que protestaram ilegalmente no último ano. Deixou-os sem direcção.

Um dos últimos assuntos a emergir é o Mundial de Futebol, que deve ser disputado na Rússia no início do verão. Estudantes estão a ser expulsos das suas residências para albergar agentes da polícia e da polícia de choque que estão a ser recrutados para as cidades de acolhimento. Em Moscovo, na principal universidade do país, os estudantes protestam contra uma grande parte do território da universidade esteja a ser entregue como “fanzone” durante o período do campeonato.

Mas Navalnii não é capaz, pelo menos sem uma mudança radical do seu carácter, de ser mais do que uma figura populista. Os protestos da juventude no ano passado foram esporádicos, coincidindo com os períodos em que Navalnii não estava detido. Ele não fez nenhuma tentativa de estabelecer qualquer tipo de estrutura democrática viável, baseada em comités de acção, que pudesse organizar e liderar o movimento na sua ausência. Tampouco as suas políticas – por se basearem no apoio ao “capitalismo honesto” – foram capazes de oferecer respostas reais, seja aos problemas de salários, ao custo e à qualidade da educação e habitação, ou às questões de direitos democráticos e sociais.

Somente uma organização viável e viva, baseada na classe trabalhadora, particularmente na sua juventude e armada com políticas socialistas, pode oferecer uma solução genuína.

O Socialist Alternative não desanimou com o resultado desta eleição. Pelo contrário, está determinado a continuar o seu trabalho de campanha. Continua a lutar por um salário mínimo de 300 rublos por hora para aqueles que trabalham, contra o assédio de mulheres e ataques à comunidade LGBT. Acredita que, entre os trabalhadores e jovens insatisfeitos, pode construir uma organização socialista vibrante e democrática, capaz de lutar por uma alternativa ao autoritarismo capitalista que actualmente domina a Rússia.

Adenda: Indignação em Kemerovo

O horrível incêndio no centro comercial de Kemerovo, no qual mais de 60 pessoas morreram, incluindo muitas crianças, criou enorme ira contra a arrogância das autoridades. Na terça-feira desta semana [dia 27 de Março], milhares de moradores, incluindo muitos que perderam parentes e crianças, protestaram durante horas no centro da cidade.

Políticos regionais queixaram-se de que a multidão era composta de “jovens que haviam sido instigados num acto planeado para desacreditar as autoridades”. Depois da multidão começar a pedir o seu despedimento, um dos burocratas da cidade perguntou: “Porquê o pânico … eu não entendo porque é que vocês estão tão chateados. Muitas crianças morrem todos os dias. Muitas crianças morrem, por exemplo, de SIDA.”

A TV nacional, depois de ter tentado ignorar o incêndio, encheu-se então de comentários sobre como havia sido planeado – com a intenção de apunhalar Putin pelas costas. Putin, que visitou a cidade, mas evitou enfrentar a multidão, fez os seus comentários habituais sobre negligência criminosa e punição os culpados. O governador assegurou à multidão que as vítimas receberiam uma indenização de um milhão de rublos (cerca de 25.000 euros). Mesmo isso foi recebido com gritos de raiva: “Os nossos filhos não têm preço, seu desgraç…”.

Há uma semana, em Kemerovo, de acordo com estatísticas oficiais, 85% votaram em Putin, embora esta seja uma das dez áreas em que a fraude eleitoral foi tão flagrante que até a Comissão Eleitoral Central lançou um inquérito. No seu discurso de vitória eleitoral Putin disse que toda a nação russa estava na “sua equipe”. Agora, os moradores de Kemerovo gritam: “Putin – nós estamos na tua equipa – onde estás seu **** quando estamos de luto”.

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