Médio Oriente: regime de Erdogan lança ataque aéreo e invasão terrestre contra curdos

Seguem-se dois textos. O primeiro texto é uma adaptação de um panfleto da Socialist Party — secção do CIT em Inglaterra e no País de Gales — que pode ser lido na sua versão original, em inglês, no website do CIT. O segundo texto é a tradução da declaração conjunta de duas organizações marxistas na Turquia, o Sosyalist Alternatif — secção do CIT na Turquia — e a Patronsuz Dunya. A declaração pode ser lida no website do SA, no original turco, ou novamente no website do CIT, na sua tradução inglesa.

Protesto em Afrin contra os ataques do exército turco.

Fim à guerra contra os Curdos!

O estado Turco está a bombardear Curdos em Afrin, usando meios aéreos e terrestres. Isto segue os ataques devastadores em zonas curdas na Turquia em 2016, quando o Presidente Erdogan terminou o “processo de paz” e começou uma guerra, instigando o movimento nacionalista anti-Curdo na Turquia.

Por uma resistência de massas

Em 2016, aviões Turcos bombardearam bases do Estado Islâmico (EI) na Síria pela primeira vez. Porém, usando a desculpa da suposta “guerra” do ocidente “contra o terrorismo”, aproveitaram estes ataques para cobrir o bombardeamento de zonas curdas.

Estas são as mesmas forças curdas que estavam a combater o EI no terreno! O Estado turco preferia ver o EI vencer do que ver uma vitória curda.

Os curdos são uma nação sem Estado, repartidos ao longo do Iraque, do Irão, da Síria e da Turquia desde que os acordos entre poderes imperialistas após a primeira guerra mundial dividiram a região.

Na instabilidade criada desde a Guerra do Iraque em 2003, desenvolveram áreas autónomas no Iraque e na Síria. O combate ao EI aumentou a possibilidade de derrubar as fronteiras do imperialismo. Como resultado dos avanços feitos pelas Unidades de Defesa do Povo Curdo (Yekîneyên Parastina Gel, YPG) na Síria — que são as forças de combate da ala esquerda do Partido de União Democrática (Partiya Yekîtiya Demokrat, PYD) — uma grande área de transfronteiriça no norte da Síria e no Iraque está agora sob o controlo curdo.

O regime Turco teme o que isto pode significar para a Turquia.

Traídos

Na luta contra o EI, os combatentes curdos têm sido heróicos. Mas muitos dos seus ganhos foram feitos lado-a-lado com ataques aéreos da Rússia e dos Estados Unidos.

Como todo o CIT alertou por diversas vezes, os Estados Unidos e a Rússia não são amigos do povo curdo. Estes países usarão os combatentes curdos quando isso servir os seus interesses para, depois, com igual facilidade os abandonar.

Assim que o EI foi afastado, os Estados Unidos e a Rússia permitiram que a Turquia soltasse a sua máquina de guerra, na esperança de estreitar laços com o regime turco.

As diferentes potências imperialistas, incluindo os Estados Unidos e a Rússia, nunca tiveram os interesses do povo Curdo em mente. Estão simplesmente interessados no seu próprio poder e interesses económicos, só apoiam as forças curdas enquanto  não entrem em conflito com esses interesses.

Isto aconteceu de forma mais clara em 1991, quando George Bush encorajou uma revolta contra Saddam Hussein e depois abandonou os curdos para serem massacrados.

Nem os poderes ocidentais nem os regimes repressivos da região querem a ver um aumento ainda maior da determinação dos curdos na luta pela independência de outras áreas, devido à profunda instabilidade que isso criaria, com a possibilidade, inclusivamente, da fragmentação da Turquia.

Os poderes capitalistas da região estão preparados para instigar divisões étnicas e nacionais, virar povos contra povos — por exemplo, árabes contra curdos — de forma a servir os seus interesses.

Por uma resistência das massas

Claro que os curdos têm o direito à auto-defesa. O CIT apela a comités de defesa democráticos, não-sectários e multi-étnicos, dando à população um papel ativo.

Os territórios que estão agora sob controlo curdo são habitados por árabes e turcos, assim como por curdos. É vital apelar às massas para que se organizem conjuntamente.

Defendendo acerrimamente o direito à autodeterminação, pode contruir-se um movimento capaz de resistir aos ataques turcos e alcançar não só os curdos, mas também os trabalhadores e os pobres de toda a região.

É importante apelar à classe trabalhadora na Turquia. Nesta terrível situação, tal pode parecer inútil. Mas esse apelo, com um programa que defenda os direitos democráticos, o emprego e a habitação assim como o controlo democrático dos vastos recursos da região para o benefício de todos, pode quebrar o medo e o ódio. Os trabalhadores e os pobres da Turquia não têm nada a ganhar com a opressão contínua dos curdos, que apenas fortalece o governo e os patrões que também os exploram e oprimem.

O maior medo dos ricos, dos grandes patrões, dos latifundiários e dos seus representantes políticos seria a união dos trabalhadores curdos, iraquianos, turcos, sírios e iranianos num movimento que pudesse desafiar os governos locais, os governos imperialistas e o próprio capitalismo.

Nós apoiamos o direito de autodeterminação do povo curdo, incluindo, se assim o pretenderem, direitos completamente autónomos, o estabelecimento de Estados independentes ou de um Estado comum para todos os curdos.

Uma confederação socialista voluntária no Médio Oriente permitiria a todos os povos decidir o seu destino de forma livre e democrática.

Socialistas e organizações de trabalhadores em toda a Europa e nos EUA precisam de construir movimentos contra a guerra aos curdos e contra a intervenção imperialista, e exigir direitos e condições decentes para os refugiados.


Afrin é o nome de uma pequena cidade e de um distrito no noroeste da Síria.

Declaração de Sosyalist Alternatif e Patronsuz Dunya:

Fim à guerra contra os curdos!

O regime de Erdogan lançou uma operação militar em Afrin, uma cidade Curda no noroeste da Síria, com o apoio total do pretenso partido de oposição social-democrata do CHP [1]. Os ganhos da luta da libertação do povo curdo, espalhado por um território dividido entre a Turquia, o Irão, o Iraque e a Síria, são atacados pelos regimes destes quatro países em total acordo e pelas forças imperialistas, como a Rússia e os EUA.

O próprio nome da operação, Olive Branch [Rama de Oliveira], expressa o acordo comum contra todos os tipos de exigências baseados no direito à autodeterminação dos curdos, mesmo que estes poderes estejam em conflito entre si: o nome “Rama de Oliveira” alude ao ramo de oliveira que um ditador oferece a outro, enquanto ambos se acusam um ao outro de ser “ditadores sedentos de sangue”. Como socialistas e marxistas revolucionários, apelamos a todos os trabalhadores e sindicatos para que se oponham a este ataque.

Esta é uma guerra contra os curdos, e o motivo por detrás dela bastante simples: o povo curdo está geograficamente dividido e é oprimido em quatro países — uma usurpação dos seus direitos democráticos nacionais mais fundamentais. Qualquer possível vitória dos curdos, em qualquer um destes países, significará exigências nacionais sobre direitos democráticos e, por consequência, terá de acelerar o processo de desenvolvimento de uma consciência nacional no povo curdo dentro dos restantes três países. É isto, precisamente, que cria uma preocupação comum aos quatro países: a base opressiva dos seus regimes. Desta forma, não hesitarão em utilizar quaisquer meios, incluindo guerra e massacre, para eliminar os ganhos [da luta curda].

A comunicação social, que funciona como ministério da propaganda do palácio de Erdogan, injecta racismo na consciência das massas ao representar a recente campanha de ocupação como uma operação de “combate ao terrorismo”. Isto é uma grande mentira porque o próprio regime de Erdogan alimentou a guerra civil Síria, dizendo apoiar a “a juventude revoltosa” quando, na verdade, apoiou organizações terroristas-jihadistas, o Estado Islâmico — causando banhos de sangue não apenas na Síria como também noutros países do mundo —, e utilizou essas organizações na sua estratégia política. O regime de Erdogan, à vista de todos, transportou jihadistas da Turquia para Afrin em autocarros. O regime esteve na mesa de negociações com os regimes sírio e russo, tanto em relação a Alepo como, agora, em relação a Idlib, e fê-lo enquanto “representante” das organizações terroristas-jihadistas; isto revela a relação entre Erdogan e os jihadistas.

Da mesma forma, o regime de Erdogan silencia todas as vozes da oposição através do estado de emergência e de decretos de emergência. Através desta guerra, o regime de Erdogan tenta obter vantagens e aumentar o seu poder. Está a acrescentar “estado de guerra” ao “estado de emergência”. Além disto, a guerra dá um impulso à atmosfera nacionalista no país, o que diminui o espaço de manobra da oposição. Também o CHP (kemalista, mas chamado “partido social-democrata”) está a competir com a “coligação AKP-MHP” [2][3] pelo prémio de partido mais patriótico.

O verdadeiro inimigo não é o povo de Afrin, mas o regime de Erdogan, que suprime cada exigência democrática com toda a força do aparelho de Estado. As condições da classe trabalhadora, cujas crianças são enviadas para a guerra, estão a piorar. O regime de Erdogan vai definitivamente usar a guerra contra aos curdos para prevenir a transformação do descontentamento da classe trabalhadora numa ameaça ao regime. Desta forma, será muito mais fácil para o regime estigmatizar todas as pessoas que exijam os seus direitos como sendo “apoiantes dos terroristas”. É quase certo que vamos assistir à proibição da greve em todo o sector da metalurgia nos próximos dias. Num encontro público na cidade de Kütahya, Erdogan repreendeu os trabalhadores subcontratados que estão a exigir contratos permanentes, dizendo: “vocês não ouvem as explicações, não acompanham, não sabem (…) dissemo-lo antes, no  parlamento e nas praças, por diversas versas, mas vocês insistem em não perceber…” Tudo enquanto anunciava o início da campanha de ocupação. Isto mostra a aparente autoconfiança de Erdogan, gerada pelo seu poder absoluto sobre o país. Podemos estar prestes a enfrentar mais do mesmo devido à guerra, às divisões no seio da classe trabalhadora resultantes do racismo, do nacionalismo, do sectarismo e do chauvinismo.

Todos os partidos da oposição e a comunicação social, que estão completamente de acordo com o regime de Erdogan nesta matéria, dão uma extrema atenção ao “combate ao terrorismo” como a razão por detrás desta operação, e ao evitarem o uso da palavra “curdos” tanto quanto possível (mesmo alguns grupos que se auto-intitulam “socialistas”). Esta é a razão para a súbita mudança do nome de Rojava, que de “corredor curdo”, estendendo-se até ao Mediterrâneo, passou a ser o “corredor do terrorismo”. Até o ultranacionalista e racista MHP diz “não podem dizer que o MHP é contra os curdos”. A verdadeira preocupação é a consciência nacional dos curdos.

Tal como todos os povos, também os curdos deveriam ter o direito a decidir o seu destino, seja na Síria, no Iraque, no Irão ou na Turquia. A formação da consciência nacional curda e as reivindicações dos seus direitos democráticos deveriam tornar-se uma preocupação de toda a classe trabalhadora. Esta é uma condição para sermos bem-sucedidos na construção de um poder unificado da classe trabalhadora na Turquia. Por esta razão, é necessário que a classe trabalhadora turca, coletivamente, defenda os direitos dos curdos. Só desta forma será possível ganhar a confiança e o apoio do povo curdo, e unir a luta pelos direitos democráticos nacionais com a luta de classes.

Nem o povo curdo nem o povo da Síria são nossos inimigos. O verdadeiro inimigo é o regime ditatorial de Erdogan, que protege os patrões, ladrões, assassinos, a corrupção e organizações terroristas-jihadistas que não dão aos trabalhadores e aos oprimidos nada mais do que desemprego, pobreza, exploração, sangue, lágrimas, guerra e a morte. Uma ditadura só pode ser destruída pelas suas vítimas. As vítimas deste regime são os turcos, os curdos, os alevitas, os sunitas, ou seja, a classe trabalhadora e todos os povos oprimidos.

O AKP, CHP, MHP e o İYİ [4], como partidos nacionalistas e chauvinistas, tentam demonstrar que tanto a classe trabalhadora como a burguesia têm os mesmos interesses sob o tecto comum que é “uma nação”. No entanto, estes interesses não coincidem, independentemente da nacionalidade, etnia ou religião. São, aliás, antagónicos. É por isto que é necessário um partido dos trabalhadores capaz de organizar a nossa classe contra os partidos nacionalistas dos capitalistas. Apenas a união da classe trabalhadora pode parar as guerras, os imperialistas e os seus apoiantes. Por isso, apelamos a todas as organizações de trabalhadores, e em particular aos sindicatos, para que se oponham à guerra que o Estado turco, com a ajuda do imperialismo dos Estados Unidos e da Rússia, declarou contra os curdos.

Fim à ocupação, já!

Não faças parte da ocupação, diz não ao ataque a Afrin!

Sindicatos contra a guerra, greve geral!

Unidade da greve dos trabalhadores metalúrgicos e da luta contra a guerra!

Contra o nacionalismo e o sectarismo, unidade da classe trabalhadora!

Contra a guerra, a exploração, a opressão e a pobreza, por uma confederação socialista do Médio Oriente!


[1] Do turco, Cumhuriyet Halk Partisi, ou seja, Partido Republicano do Povo, o CHP é um partido kemalista, i.e., inspirado pela política republicana e nacionalista de Mustafa Kemal Atatürk, líder militar e político da resistência à ocupação imperialista na Turquia depois da derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. É comummente considerado “social-democrata” quando, na verdade, é um partido liberal (tal como, em Portugal, o PS). [Nota do tradutor]

[2] Do turco, Adalet ve Kalkınma Partisi, ou seja, Partido da Justiça e do Desenvolvimento, o AKP é um partido da direita conservadora. [N. do T.]

[3] Do turco, Milliyetçi Hareket Partisi, ou seja, Partido do Movimento Nacionalista, o MHP é um partido de extrema-direita com uma milícia própria, conhecida como Bozkurtlar — em português: Lobos Cinzentos. [N. do T.]

[4] O partido İyi, que em português se traduz, literalmente, para o “Partido Bom”, é mais um partido conservador que se reclama kemalista, fundado em 2017 por Meral Aksener, ex-ministra do interior e membro do MHP (extrema-direita). É, como o próprio nome indica, um partido que não tem como se distinguir do  MHP ou do AKP, o partido de Erdogan, e serve essencialmente para captar alguns votos do descontentamento com o regime. Tem para com o AKP uma relação semelhante àquela que o Ciudadanos desenvolveu para com o PP. [N. do T.]

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