Irão: Movimento de trabalhadores e jovens contesta o regime

Artigo de P. Daryaban, Comité por uma Internacional dos Trabalhadores. Originalmente publicado a 4 de Janeiro de 2018 no website do CIT.

Iran protests

Protestos repentinos de grande escala têm abalado todo o Irão. Sectores das massas mostraram um desafio total ao regime. Jovens, enfrentando o desemprego estimado entre 25% e 40%, têm estado, particularmente, na dianteira. Os protestos, inicialmente contra o aumento dos preços e a corrupção, quase imediatamente se transformaram em luta e choque com as forças de segurança com um número crescente de mortos. Em algumas cidades, pessoas atacaram esquadras de polícia, sedes paramilitares pró-regime e seminários religiosos. Estes rápidos desenvolvimentos pareciam inacreditáveis até para os analistas políticos e activistas mais optimistas.

A faísca imediata foi a oposição ao anúncio de Dezembro de mais políticas neoliberais do Presidente “moderado”, Hassan Rouhani, assim como um aumento acentuado do preço dos bens essenciais juntamente com a publicação de detalhes sobre o generoso financiamento de organismos religiosos. Com o contínuo desemprego massivo e uma queda do nível de vida de 15%, em média, nos últimos anos, os protestos espalharam-se rapidamente pelo país.

A crise económica tem se aprofundado nos últimos anos. Isto é visível na enorme dívida do governo aos bancos, a diminuição de recursos para os fundos de pensão, a falência das instituições financeiras e a inacreditável quantidade de corrupção e fraude, que atacam as condições de vida da classe trabalhadora. Tudo isto, juntamente com o visível crescimento de uma afluente elite, foi outro factor chave nestes protestos, em que se ouviu “Abaixos os defraudadores!”.

A administração de Rouhani vangloriou-se de reduzir a inflação para um único dígito e de aumentar a taxa de crescimento para 6%. Contudo, o primeira parte foi parcialmente alcançada com medidas neoliberais, enquanto a segunda foi apenas o produto da habilidade do regime em exportar petróleo após o levantamento de parte das sanções impostas pela ONU.

O regime também esgotou os seus recursos ao envolver-se em guerras no Iraque, Síria e Iémen. Além disso, o líder do Hezbollah no Líbano anunciou publicamente que todo o dinheiro que receberam para o seu partido e para melhorar as infraestruturas no sul do Líbano veio do Irão. O regime também paga enormes somas a forças militares que apoia no Iraque. Os seus planos ambiciosos de política externa têm custos que a classe trabalhadora iraniana tem de pagar. O regime, por algum tempo, procurou justificação através do medo do surgimento de terrorismo dentro da fronteiras iranianas, etc. Todavia, com a queda do ISIS, o bicho papão do regime desapareceu em grande parte, pelo menos por agora.

A chegada de Trump à presidência agravou esta situação e destruiu os sonhos do regime iraniano de atrair investimento estrangeiro. Os bancos iranianos não conseguiram regressar ao sistema bancário internacional.

Durante os últimos 3 ou 4 anos, dois movimentos mantiveram a chama da oposição acesa — o movimento dos trabalhadores e a campanha dos depositantes das instituições financeiras falidas.

Grandes greves e piquetes tiveram lugar em Arak no noroeste do Irão e em zonas no Sul ricas em petróleo e gás, acompanhadas por contínuos protestos contra a repressão de sindicalistas como o líder dos trabalhadores dos autocarros de Teerão e trabalhadores da Empresa de Açúcar de Haft-Tapeh no Khuzistão.

As instituições financeiras, maioritariamente fundadas por pessoas filiadas ao regime, roubaram milhões de dólares de depositantes que vão desde pessoas de baixo rendimento, que depositaram pequenas quantias para poder viver, a pessoas ricas que receberam enormes taxas de juro. A história destas instituições, assim como o colossal desfalque no Fundo de Reforma dos Professores, da Organização da Segurança Social, não é sobre simples lucros capitalistas, é como uma história de pilhagem da Idade Média. Nenhum oficial corrupto foi punido.

Orçamento deita achas para a fogueira

O que deitou achas para a fogueira foi o anúncio em Dezembro do orçamento de 2018 de Rouhani que propõe um aumento dos preços do petróleo e gás de cerca de 40%. Ao mesmo tempo o preço dos ovos disparou nas últimas semanas. Isto significa que os pobres não têm capacidade para comprar alimentos básicos. O orçamento também propôs o fim de 455.000 rial (12,60 dólares) de pagamentos mensais do Programa de Subsídio em Dinheiro a quase 34 milhões de pessoas, cerca de 40% dos actuais beneficiários.

Além disso a publicação no orçamento duma enorme alocação de fundos para instituições religiosas parasitárias enfureceu as pessoas. Enquanto este plano do orçamento falou em aumentar a despesa do estado em 6%, com a inflação oficialmente a rondar os 10% continuaram de facto a política neoliberal de cortes cuja Rouhani introduziu após tomar posse em 2013 (os números publicados pelos centros de estatística dos Irão são altamente contraditórios, e a inflação e taxa de desemprego reais são esperadas que sejam muito superiores).

O crescimento das redes sociais tem ofuscado completamente os meios de comunicação controlados pelo Estado, permitindo que as pessoas partilhem mais livremente a sua raiva e descontentamento. Havia cerca de 1 milhão de smartphones no Irão na altura dos últimos protestos de massas em 2009, agora há 48 milhões.

As pessoas, sem sindicatos de luta de classes independentes permitidos no Irão, usaram qualquer brecha e espaço possível para erguer as suas exigências. O aprofundamento da crise e raiva alargou as divisões e lutas internas no regime e o presidente anterior, Ahmadinejad, começou a atacar amargamente o poder judiciário e executivo. Khamenei advertiu Ahmadinejad numa tentativa de o silenciar mas o designado Líder Supremo perdeu a sua autoridade até dentro do regime.

Sob estas circunstâncias, os protestos de 28 de Dezembro em Mashhad foram a centelha. Primeiro, o foco esteve no aumento dos preços e na corrupção mas rapidamente tornou-se mais amplo politicamente. A multidão gritou “morte ao ditador” e pediu a libertação de presos políticos. Mesmo havendo receio que os chamados “de linha dura“ do regime tivessem incitado os protestos para os usarem como manobra para pressionar Rouhani, ficou claro que perderam o controlo dos protestos assim que estes começaram.

No dia seguinte, manifestações similares ocorreram em Teerão, Rasht, Quermanxa e Ahvaz com slogans que visavam os principais líderes do regime.

O caráter deste movimento é maioritariamente espontâneo sem uma liderança unificada e é amplamente baseado na iniciativa das massas no terreno. Aldeias e cidades remotas não estão à espera das grandes cidades. Estão comprometidos no movimento de forma completamente independente.

O regime esteve brevemente paralisado e hesitou em lançar uma contra-ofensiva violenta, apesar de ter prendido dezenas de pessoas e morto 21 até este momento. Onde quer que tenha tentado usar o que chama a sua “mão de ferro” foi punido severamente pelo povo. Em Malyar e Shahinshahr alegadamente as pessoas ocuparam estações de polícia e o principal serviço do clérigo local. Isto não está a acontecer apenas nas zonas Fars (Persas), Curdos e Baluchis também se juntaram aos protestos. As mulheres têm tido um papel preponderante no movimento.

Ninguém poderia imaginar esta situação há uma semana atrás. Ainda não está claro como este movimento dos de baixo irá desenvolver-se, mas é evidente que estamos a assistir a actos de incrível coragem, tremenda raiva e enorme desejo de liberdade e justiça social.

Características políticas do movimento

Este movimento é totalmente baseado na iniciativa das massas. Muitos romperam completamente com os líderes reformistas do Movimento Verde de 2009, que apenas usaram as pessoas para a eleição e para dividir o poder com a outra facção principal da elite governante. A chamada facção reformista até condenou publicamente os actuais protesto e pediu a sua supressão. Este movimento mostrou um desapontamento generalizado com o presidente Rouhani, que foi esmagadoramente reeleito no passado Maio com 57% dos votos.

O grosso do movimentou alterou-se de camadas altas e médias da pequena burguesia, que predominantemente constituíram o movimento Verde de 2009, para classe trabalhadora, com os desempregados, e as camadas baixas e médias da pequena-burguesia. O acumular de raiva tem radicalizado sobremaneira o movimento. As massas já não acreditam em manifestações “não-violentas” e “silenciosas” do estilo Gandhi. Apelam abertamente para o derrubar o regime.

Mulheres, como antes, desempenharam um papel notável no movimento e por vezes envolveram-se de forma mais audaz que os homens. Isto deve-se à dupla opressão que sofrem sob as rígidas regras islâmicas.

Tal é a escala dos protestos que a população de pequenas localidades em zonas remotas já não espera pelas grandes cidades.

Perspectivas

No momento da redacção deste artigo, a censura sufocante da internet pelo regime iraniano limita a quantidade de informação precisa e actualizada do que está a acontecer por todo o país.

Não temos a certeza durante quanto tempo estes protestos espontâneos continuarão mas o que é certo é que abriram um novo capítulo na história iraniana pós-revolução de 1979. Podemos dividir esta história em 3 períodos; desde a revolução de Fevereiro de 1979 até à repressão de Junho de 1981, desta repressão até Dezembro de 2017. Na primeira fase, o regime podia esmagar a revolução de 1979 e consolidar a sua posição. Durante a segunda fase, sobreviveu apesar das suas crises, por exemplo ao Movimento Verde de 2009, enquanto as pessoas ainda tinham esperança em reformas feitas pelo regime, especialmente a chamada facção reformista. Esta nova terceira fase marca o inicio do rompimento com o regime e das suas facções por camadas significativas da população. A governação do clero é cada vez mais vista como responsável pelo que está a acontecer.

Contudo, apesar do elevado nível de militância, este movimento sofre de várias fragilidades. Ainda está num estado muito inicial e com a ausência de um partido revolucionário capaz de propor uma estratégia clara enfrenta o risco de perder o ímpeto apesar da sua rápida ascensão. Inevitavelmente, esta fraqueza, combinada com o estado inicial do movimento, produz tendências confusas e contraditórias na consciência dos participantes. Às vezes, até mesmo slogans em apoio à monarquia pré-revolução de 1979 podem ser ouvidos, apesar desta não ser a disposição dominante.

A esfera de acção inicial deste movimento foi nas ruas e ainda não se fundiu com os protestos nos locais de trabalho. Estando apenas nos espaços abertos e nas ruas, não garante a sobrevivência do movimento. Precisa de formar-se à volta de fábricas, locais de trabalhos, comunidades e instituições de ensino.

Se a classe trabalhadora nas principais indústrias — petróleo, gás, petroquímica e automóvel — se envolvesse tão somente numa greve de 24 horas, colocaria o seu carimbo no movimento dar-lhe-ia um grande impulso. Porém, ainda não observamos sinais para passo em frente desse tipo.

O que está por fazer?

A esquerda no Irão deve tentar aprender com as lições da revolução de 1979, dos protestos de 2009 e da experiência das lutas revolucionários no mundo, particularmente na recente “Primavera Árabe”. Isto requer igualmente uma maior percepção de internacionalismo e cooperação com forças do movimento socialista internacional.

A esquerda tem de reagir a estas novas oportunidades com propostas de actividade, formas de organização e métodos práticos para fortalecer e melhorar este movimento. Deve estar equipada com meios de comunicação que, apesar das tentativas do regime para restringir o seu uso, actualmente desempenham um papel crucial para chegar às massas e usar estes meios, inclusivamente as redes sociais, para disseminar informação e propostas para ajudar a organizar os próximos passos.

Embora os actuais protestos possam amainar, mudaram fundamentalmente a situação do Irão. Esta experiência pode dar as bases para a construção do movimento dos trabalhadores que poderão desafiar tanto o regime como o capitalismo. Os primeiros passos devem ser reunir activistas em grupos e comitês para coordenar actividades e trabalhar nas exigências e programa. A esquerda tem de começar um diálogo para formar uma frente unida como um passo para a fundação de um partido de massas da classe trabalhadora dirigido democraticamente e capaz de unir os trabalhadores, pobres e jovens que lutam por uma alternativa.

Os marxistas defendem um programa que interligue exigências por direitos democráticos — contra a repressão — que defenda e melhore as condições de vida com a necessidade de um governo de verdadeiros representantes dos trabalhadores e pobres que possa começar a transformação socialista do Irão ao nacionalizar, sob controlo democrático, os sectores chave da economia. Isto teria um enorme impacto nos trabalhadores do Médio Oriente e não só.

A esquerda deve alertar acerca de intervenções apoiadas pelo imperialismo para subverter e distrair o movimento. A hipocrisia de Trump deve ser exposta, enquanto professa “apoio” ao povo iraniano abraça a ditadura da Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, quaisquer ilusões entre camadas da população de que alternativas burguesas e pró-ocidentais podem trazer uma melhoria de vida para o povo precisam de ser combatidas com um programa socialista que explique o que pode ser conquistado se o capitalismo for derrubado.

Apenas uma sociedade dirigida pelos representantes dos trabalhadores pode resolver a crise crónica do Irão, ganhar direitos democráticos, e pôr fim à pobreza e opressão com base no género, religião e etnia. Uma revolução dos trabalhadores no Irão estimularia as forças progressistas, democráticas e socialistas no Médio Oriente, e seria capaz de atravessar as ideias e forças reacionárias islâmicas.

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