Bancos alimentares sem política não ajudam ninguém

Artigo de Nancy Taaffe originalmente publicado no website do Socialist Party, CIT em Inglaterra e País de Gales.

 

Todos os sábados o Sindicato Anti-Cortes (Anti-Cuts Union) tem uma banca em Walthamstow onde faz campanha contra os cortes. A câmara do Labour (Partido Trabalhista) passou um orçamento que retira £65 milhões aos serviços locais.

Os serviços para crianças e jovens foram dizimados por cortes. Eu perdi o meu trabalho de anos numa biblioteca.

Os três principais partidos políticos dizem que não há dinheiro, mas isso é mentira. £750 milhões estão trancados nos bancos pelos ricos, que não vêem nenhuma forma imediata de lucrar, preferindo “sentar-se em cima do dinheiro” e ganhar juros. £120 mil milhões são desviados através da evasão fiscal. Os 1000 mais ricos do Reino Unido aumentaram a sua fortuna em £155 mil milhões no último ano, o suficiente para cobrir o défice nacional.

O banco alimentar da minha localidade faz uma banca todos os sábados ao lado do Sindicato Anti-Cortes e pede aos pobres de Walthamstow que doem conservas e itens de limpeza para os indigentes de Walthamstow. Mas nós, os pobres, não devíamos pagar por uma crise que não criámos.

Os bancos alimentares são frequentemente montados por pessoas bem-intencionadas que querem ajudar, mas pode um banco alimentar sem política de facto ajudar? A pobreza não é como um furacão ou uma cheia, é um produto do ser humano e pode ser resolvido pelo ser humano.

Nós fazemos manifestações regulares em frente à câmara municipal, exigindo que os vereadores do Labour estabeleçam um orçamento baseado nas necessidades e rejeitem os cortes, mas todos eles votaram a favor deles.

Eu abordei a minha deputada local, Stella Creasy (uma grande apoiante dos bancos alimentares) na rua (enquanto perdia o meu emprego) e pedi-lhe que fizesse uma declaração pública a condenar os cortes às bibliotecas e aos serviços infantis mas ela não o fez. Porquê? Porque lidar com as consequências dos cortes é muito mais fácil do que lutar uma batalha preventiva… se fores um político carreirista.

Quando 3 milhões de funcionários públicos entraram em greve em 2011 por pensões decentes para prevenir a pobreza nos idosos a mesma deputada que defende os bancos alimentares não os apoiou.

Parece-me que se és esmagado pela pobreza então és alvo de condescendência e caridade. Mas se te levantas e te defendes através do teu sindicato, estás condenado. É uma hipocrisia que não tolero, os vereadores que votaram para me despedir defendem, todos, os bancos alimentares.

Nancy Taaffe

Nancy Taaffe no protesto anti-cortes de Waltham Forest. Fotografia de Senan.

Pobreza

A minha avó, de Liverpool, falou-me da pobreza que a sua família teve que enfrentar nos anos 30, de apanhar cascas de laranja na rua para as ir roendo e aliviar as dores da fome.

Também descreveu a humilhação por que muitas mães suportavam às mãos de “organizações de caridade”, de pé no átrio frio de uma igreja, com crianças agarradas às suas saias, a explicar aos párocos que mereciam ter dinheiro para sobreviver.

Muitas vezes estes “párocos” eram negociantes locais e donos de fábricas que pagavam salários miseráveis e eram implacáveis se os “seus” trabalhadores fizessem greve por um salário decente e condições de trabalho decentes.

A rebelião da classe trabalhadora depois da 2ª Guerra Mundial foi uma revolução contra a humilhação da “ajuda aos pobres” e contra um estado social baseado na “caridade”

Se os bancos alimentares se tornassem políticos e mobilizassem aqueles que alimentam para que se organizassem, eu podia apoiá-los.

Se, como o movimento de desempregados dos anos 30, agitassem pessoas para lutar por uma mudança revolucionária, eu punha-me logo do seu lado.

Oscar Wilde disse: “Dizem-nos frequentemente que os pobres estão gratos pela caridade. Alguns estão, sem dúvida, mas os melhores… nunca estão gratos”.

“Estão ingratos, descontentes, desobedientes e revoltosos. E têm toda a razão em assim estar. Sentem a caridade como uma forma ridícula de restituição parcial, ou um dolo sentimental usualmente acompanhado de alguma tentativa impertinente, por parte dos sentimentalistas, de tiranizar as suas vidas privadas…

“Desobediência, aos olhos de qualquer um que tenha lido história”, disse ele, “é a virtude original do Homem.” Longa vida à desobediência!

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