25º aniversário: Manifestação de Jovens contra o Racismo na Europa em Bruxelas com mais de 40 mil

Artigo de Geert Cool, originalmente publicado em socialistworld.net a 24 de Outubro de 2017.

24 Outubro 1992, jovens de toda a Europa chegam a Bruxelas para se manifestar contra o racismo e o fascismo. À frente da manifestação, organizada pela Youth Against Racism in Europe (YRE)[1], estão milhares de ‘Blokbusters’. Geert Cool, porta-voz pela campanha anti-fascista belga, Blokbuster – contra o Vlaams Blok[2] (agora Vlaams Belang)[3] — recorda esta histórica manifestação, o primeiro protesto de massas internacional contra a extrema-direita na Europa.

Violência em Rostock, crescimento da extrema-direita na Europa

No final de Agosto de 1992, ativistas de extrema-direita na cidade de Rostock, no leste da Alemanha, pegaram fogo a uma casa onde viviam pessoas que procuravam asilo. Atacaram o edifício com pedras e explosivos caseiros.

A reintrodução do capitalismo na Europa de Leste resultou no enriquecimento de uma  pequena minoria enquanto a grande maioria da população foi de repente condenada ao desemprego e, para muitos, à miséria. Foi terreno fértil para o racismo e a extrema-direita. De acordo com fontes  oficiais, haviam 40.000 membros de organizações neo-nazis na Alemanha em 1991. No mesmo ano, a violência racista levou a três mortes e 449 feridos. Houve 1300 casos de violência racista nos registos oficiais.

Os partidos de extrema-direita também conseguiram avanços eleitorais na Europa Ocidental. A Frente Nacional de França foi o primeiro. O partido de Jean-Marie Le Pen aproveitou a entrada em vigor da representação proporcional nas eleições francesas de 1986. Este sistema foi introduzido pelo então Presidente François Mitterrand para dividir a direita, mas virou-se contra o seu próprio PS social-democrata. A FN conseguiu persuadir muitos eleitores descontentes com o PS e teve 10%. O entusiasmo com as reformas nas primeiras semanas da presidência de Mitterrand, em 1991, foram seguidas de desilusão quando as reformas foram revertidas, com  o governo francês a ceder  perante a pressão capitalista seguindo uma linha neoliberal.

Na Bélgica a ala direita do partido nacionalista flamengo Vlaams Blok teve o seu primeiro salto nas eleições locais de 1998. Obteve 18% na cidade de Antuérpia. No “Domingo Negro”, a 24 de Novembro de 1991, Vlaams Blok avançou ao longo de toda a região flamenga, ganhando 10% dos votos. Na cidade de Liège, na área francófona de Walloon na Bélgica, outros grupos de extrema-direita em conjunto obtiveram até 5% dos votos. Na Áustria, a extrema-direita agrupada em torno de Haider [4] assumiu a liderança do  Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) em 1986. Estes começaram a explorar a frustração para com os partidos tradicionais no poder e a jogar a carta do racismo, vendo-se o apoio ao FPÖ a crescer rapidamente nos finais do anos ‘80 e inícios de ‘90.

O colapso do stalinismo e a reintrodução do capitalismo na União Soviética e nos Estados da Europa de Leste fortaleceram a ofensiva neoliberal. Isto levou ao triunfalismo da parte dos porta-vozes do capitalismo: “nós ganhámos, não há alternativa” era o seu mantra. Os partidos tradicionais social-democratas e trabalhistas não conseguiram dar resposta e compactuaram  com uma política de austeridade para a maioria da população de modo a salvaguardar o lucro e a “competitividade” dos ricos. Dirigido por líderes que se adaptavam cada vez mais ao capitalismo e que se recusavam a encabeçar lutas, o movimento dos trabalhadores estava numa posição mais defensiva. Isto criou espaço que podia ser usado pela extrema-direita.

Juventude contra o racismo

No início dos anos ‘90, milhares de jovens e trabalhadores na Europa ficaram chocados com a violência racista e o crescimento da extrema-direita nas eleições. Isto  provocou protestos, principalmente  de jovens.

A campanha anti-fascista Blokbuster foi lançada no verão de 1991 pelos marxistas que hoje estão organizados no Partido Socialista de Luta (LSP/PSL), o CIT na Bélgica. O Blokbuster deu aos jovens um instrumento para organizarem a sua raiva contra o racismo e o fascismo, e para discutir alternativas. Depois do “Domingo Negro” de 1991, houve uma explosão de protestos anti-fascistas: estudantes de secundário e estudantes universitários foram para as ruas em protestos espontâneos mesmo em pequenas cidades. O Blokbuster cresceu para uma campanha com 50 comités ativos localmente e 2.000 membros.

Em muitos outros países europeus houve movimentos semelhantes de jovens contra o racismo. Camaradas do CIT activos nestas lutas decidiram trabalhar em conjunto com o nome de Jovens contra o Racismo (YRE) na Europa. Na primavera de 1992, num encontro de camaradas do CIT foi acordado pôr em prática a internacionalidade da nova geração de jovens ativistas organizando uma manifestação internacional contra o racismo a 24 de outubro de 1992.

Nós enfatizámos a necessidade de mobilização activa para limitar o espaço à extrema-direita e a necessidade de um programa social que pudesse trespassar  o terreno fértil da extrema-direita. Este programa foi resumido no slogan “trabalho, racismo não”. Este movimento de jovens foi também direcionado ao movimento de trabalhadores, mesmo que as lutas dos trabalhadores estivessem principalmente limitadas a acções defensivas.

Os marxistas nunca perderam a sua confiança no movimento dos trabalhadores, na sua capacidade de luta e de recuperação . Um período difícil depois de derrotas e da pressão do triunfalismo neoliberal, foi seguido por um período de novas convulsões, com a luta ofensiva dos trabalhadores. Nós também não nos limitámos ao papel de comentadores: fazemos tudo o que podemos para desenvolver a luta para alcançar as nossas reivindicações. A dinâmica do movimento da juventude contra o racismo no início dos anos ‘90 foi atractiva e contagiante para as facções mais progressistas do movimento de trabalhadores. Nós tomámos o desafio de fortalecer o movimento contra o racismo orientando-o para o movimento dos trabalhadores e discutindo uma política alternativa. Iniciativas audaciosas como Blokbuster, YRE e a manifestação internacional de 1992, serviram de exemplo.

YRE_demo_Oct_1992
Fotografia das páginas do jornal “Militant” noticiando a manifestação em Bruxelas no ano de 1992.

40.000 nas ruas

A manifestação de 24 de Outubro de 1992 uniu jovens e trabalhadores de toda a Europa. Um aumento dos ataques racistas e fascistas ao longo do verão de 1992 fortaleceu o apelo à manifestação. Houve grandes delegações da Alemanha, incluindo 300 jovens de Rostock, mas também de Inglaterra, Holanda, Suécia, Áustria, Irlanda (Norte e Sul) e França. Houve muitos contingentes auto-organizados, de grupos juvenis e escolas, que tomaram conhecimento da manifestação e decidiram participar.

Uma direcção bem organizada, que incluía  muitos ativistas que no ano anterior tinham dirigido as manifestações contra o Poll Tax em Inglaterra , impediram eventuais provocações e ataques da extrema-direita. Isto foi uma necessidade política: as últimas grandes manifestações de jovens na Bélgica, as “marchas de jovens pelo trabalho” em 1982 e 1984, infelizmente acabaram em motins que foram utilizados pelas cúpulas dos sindicatos para bloquear futuras marchas de jovens.

Mais de 40.000 participaram na manifestação combativa pelas ruas de Bruxelas, excedendo massivamente o objetivo original de 5.000 estabelecido cinco meses antes. A manifestação acabou com um concerto contra o racismo. A manifestação inspirou e deu confiança aos participantes e encorajou muitos a juntarem-se ao YRE nos seus próprios países. No protesto, 100 novos membros juntaram-se imediatamente ao Blokbusters. A manifestação foi primeira página em oito jornais diários na Bélgica e destaque em todos os canais televisivos de notícias. O jornal mensal do CIT na Bélgica, na altura intitulado “De Militant”, notou contudo: “A manifestação poderia ter sido maior se a direcção do sindicato nacional e a social-democracia tivessem mobilizado em vez de se terem escondido”.

O espírito era bastante combativo: “Durante a manifestação e o concerto, o fio condutor era a necessidade de ligar a luta contra o racismo com a luta contra o sistema capitalista falido por uma justa alternativa socialista.”

A luta contra o racismo, 25 anos depois

A violência em Charlottesville, nos EUA, e o aumento dos crimes de ódio desde a eleição de Trump mostra que o perigo do racismo e da extrema-direita não desapareceu. Na Europa têm havido vitórias eleitorais para Marine Le Pen,  para o populista de extrema-direita Geert Wilders na Holanda, e para a extrema-direita e ala direita populista na Alemanha, Áustria e noutros países.

Como parte da nossa resistência precisamos de começar com uma correcta avaliação destes fenómenos. Nós não afirmamos que um golpe fascista seja uma ameaça imediata. O fascismo clássico foi um movimento de massas que foi capaz de esmagar o movimento de trabalhadores, romper com  direitos democráticos e estabelecer uma ditadura brutal. Isto não é o objectivo hoje: as forças da extrema-direita conseguem regularmente um largo suporte passivo nas eleições,  mas não existe grande participação activa. Enquanto há ataques individuais de fascistas e da extrema-direita, eles não estão em posição de lançar um ataque organizado contra o movimento de trabalhadores.

Nos últimos 25 anos, partidos como a FN francesa ou o Vlaams Belang flamengo não foram capazes de reforçar a sua base militante. Um fenómeno mais recente, como o Geert Wilders na Holanda, recusa-se até em aceitar seja quem for para além dele mesmo como membro do  seu intitulado  “Partido” da Liberdade (PVV). Mas apesar disto, no contexto de uma crescente desconfiança em todas as instituições e partidos tradicionais, pode haver um alargamento do suporte eleitoral para uma variedade de formações de extrema-direita. Isto aumenta o perigo da sua participação em governos, o que pode levar à introdução de medidas racistas e autoritárias.

A ausência de uma alternativa suficientemente forte ao neoliberalismo permitiu que os chamados políticos tradicionais absorvessem cada vez mais elementos do populismo de direita na esperança de ganhar popularidade, mas também como parte de uma política de “dividir para reinar”. Medidas que há  25 anos atrás eram apenas defendidas pela extrema-direita, foram, entretanto, implementadas por outros partidos. Um partido como a  Nova Aliança Flamenga (N-VA), actual partido do governo na Flandres, está tão à direita que ultrapassa o Vlaams Belang.

A combinação de não haver soluções imediatas para a crise dos refugiados, os ataques terroristas na Europa e a islamofobia dos políticos e governos, colocou também  várias campanhas  anti-racistas numa posição defensiva quando comparado com os inícios dos anos ‘90.

Mas não tiramos conclusões pessimistas disto. Uma importante diferença  relativamente à situação de há 25 anos atrás é a deterioração  do triunfalismo neoliberal, especialmente desde a grande recessão de 2007-08. Há um aumento dos movimentos ofensivos e defensivos, nalguns países, enquanto novas formações de esquerda, ou líderes como Jeremy Corbyn do Labour na Inglaterra, podem gerar um amplo entusiasmo. Ademais, há uma melhor receptividade ao socialismo, que se torna uma alternativa ao desespero da extrema-direita em comparação com o que ocorria há 25 anos atrás.

Em Outubro de 1992, o jornal mensal belga, De Militant, comentou: “Os núcleos fortes neo-Nazis não vão desaparecer — será necessário uma luta para acabar com o desemprego e com a crise social do capitalismo. A luta por uma sociedade socialista irá pôr um fim aos fascistas.” Dissemos que os trabalhadores iriam mais uma vez demonstrar que são a força social mais forte na sociedade. Esta abordagem no movimento contra o racismo há 25 anos é mais do que nunca confirmada hoje.

Um retorno a uma luta mais ofensiva e um renovado interesse pelo socialismo, no entanto, não levam automaticamente a vitórias. Temos de fazer as lutas mais vastas, com uma participação activa mais ampla, abordando os problemas e preocupações diárias dos trabalhadores. Reivindicações por emprego, habitação, cuidados de saúde, etc. para todos são, ao mesmo tempo, a melhor resposta à política de dividir para reinar, incluindo o racismo. Estas reivindicações só podem ser alcançadas com uma mudança na sociedade. A desigualdade crescente faz parte do DNA do capitalismo e as classes dominantes recorrem a fomentar divisões na sociedade. Uma sociedade socialista pode realizar a esperança por um futuro melhor para a grande maioria da população. Ao fazê-lo, fechará o caminho para ideias reaccionárias baseadas no desespero e na raiva extraviada.


[1] Em português: Juventude Contra o Racismo na Europa

[2] Em português: Bloco Flamengo. Partido de extrema-direita em actividade até 2004.

[3] Em português: Interesse Flamengo. Partido nacionalista e populista que sucedeu o Vlaams Blok após 2004.

[4] Jörg Haider, líder do FPÖ de 1986 a 2000.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s