Catalunha: só a classe trabalhadora pode conquistar a independência

Manif Catalunya

Editorial d’A Centelha nº11, Outubro/Novembro de 2017

Nove dias após o referendo e a vitória retumbante do direito “Sim” à independência, Carles Puigdemont, presidente da Generalitat de Catalunya — o governo autónomo —, realizou uma manobra política sem precedentes: declarou uma independência suspensa. Haverá maior demonstração da impotência do independentismo burguês?

A contraditória posição do PDeCAT

A ambiguidade de Puigdemont e do seu partido, o PDeCAT, é o reflexo da posição profundamente contraditória em que se encontram os representantes políticos da burguesia na Catalunha. Estes políticos usaram durante anos, da forma mais hipócrita, o sentimento independentista catalão para tentar suspender a luta de classes em nome de um grande interesse nacional capaz de unir patrões e trabalhadores. Foi com este instrumento político que a direita manteve o poder enquanto aplicava as mais impopulares medidas neoliberais de cortes a salários, pensões e serviços públicos na Catalunha, além de ter repetidos escândalos de corrupção.

De facto, a existência do PDeCAT é indispensável para a aplicação da austeridade na região. Ao mesmo tempo, cedências a um crescente sentimento independentista tornaram-se igualmente indispensáveis à existência do PDeCAT. Hoje, se trair o independentismo, o partido implode.

Dez anos de crise económica, no entanto, tiveram o seu reflexo político. A classe trabalhadora na Catalunha olha cada vez mais para a independência como uma forma de conquistar melhores condições de vida e atrai para a sua posição as camadas médias empobrecidas, gerando um poderoso movimento popular que se traduziu num fortalecimento da CUP (Candidatura d’Unitat Popular), partido independentista da esquerda. Na verdade, foi um acordo com a CUP que permitiu a Puigdemont formar governo. A pressão das massas da Catalunha sobre o PDeCAT é, por estes motivos, imensa. É, aliás, esta pressão que explica a própria convocação do referendo de dia 1 de Outubro.

O presidente da Generalitat não pode dispensar o apoio da sua base social independentista e da própria CUP, mas também não pode entrar em guerra com a classe que representa, a capitalista, e que se opõe absolutamente à independência. Para se livrar da responsabilidade de trair o movimento popular independentista só lhe resta implorar pelas mais morosas negociações com o governo PP e, claro, pelo maior número possível de mediadores internacionais, preferencialmente instituições europeias.

Assim se explica que esta patética figura declare a independência no mesmo fôlego em que a suspende. Puigdemont deseja suspender a luta de classes e a própria História.

 

Bomberos 1-O

Os bombeiros organizaram-se para defender o referendo.

O referendo abriu uma situação pré-revolucionária

Só a classe trabalhadora pode terminar o que Puigdemont começou. A conquista da independência só é possível contra a burguesia e com a acção das massas. Isto foi por demais evidente durante o referendo de dia 1 de Outubro, quando o governo foi absolutamente incapaz de garantir o funcionamento das urnas sob a violência da Guardia Civil — polícia do Estado Espanhol. O PDeCAT tão somente soltou débeis apelos à paz.

O referendo realizou-se porque a classe trabalhadora ordenou. Os estivadores pararam o porto de Barcelona para impedir que a Guardia Civil atracasse. Agricultores bloquearam estradas com tractores, dificultando ao máximo a mobilidade dos veículos da polícia. Bombeiros mobilizaram-se massivamente e formaram cordões de segurança em locais de voto. E o mais importante: a classe trabalhadora criou os seus próprios órgãos de poder. Estes órgãos foram chamados Comitès de Defensa del Referèndum (CDR), e alguns funcionaram sob o nome de comités de defesa de bairro. Nasceram espontaneamente, foram apoiados pela CUP e chegaram a atrair até mesmo alguns membros da juventude do PDeCAT.

Com os CDR, a classe trabalhadora foi muito além do referendo e deu um passo em direcção ao socialismo. Seguiu-se a greve geral de dia 3 de Outubro, outra retumbante vitória. A Catalunha foi paralisada. A burguesia de todo o Estado Espanhol tremeu de terror. Abriu-se, com este processo, um período pré-revolucionário que merece a maior atenção de todos os socialistas.

Também os agricultores se organizaram e, com milhares de tractores, dificultaram a mobilidade das forças policiais durante o referendo.

A reacção espanholista

A resposta da burguesia ao referendo não foram apenas as bastonadas e pontapés da Guardia Civil, ou o envio de destacamentos do exército para a Catalunha. Também a media burguesa insulta os trabalhadores catalães com cada “notícia” e cada artigo de “opinião”. E tal como aconteceu após a eleição do Syriza na Grécia, o grande capital foge da Catalunha o mais rápido que pode, tornando claro onde está o seu voto em matéria de independência: no lucro. Foi assim com o Banco Sabadell, com o Caixabank, o Grupo Planeta, a eDreams, Catalana Occidente e outras empresas que já mudaram as suas sedes para fora da Catalunha. Nenhum político burguês colocará em causa a propriedade privada, só a classe trabalhadora pode tomar o controlo destas empresas e impedir a fuga de capitais.

Mesmo a liderança do PSOE, a mão esquerda da burguesia, depois de muito vacilar, garantiu vergonhosamente que apoiará o PP no parlamento caso este avance com o artigo 155 da constituição de 1978. O que isto significa é a suspensão da autonomia e de todos os direitos democráticos conquistados na Catalunha.

Mas nem tudo é tão coeso quanto parece entre os nossos inimigos. O aparelho de Estado mostra as primeiras fracturas. Rajoy e o seu executivo são criticados pelo sector mais conservador da classe dominante por não terem ainda activado o artigo 155. O chefe dos Mossos d’Esquadra, a polícia na Catalunha, vai ainda a julgamento por sedição, depois de os crescentemente politizados Mossos facilitarem a realização do referendo.

Estes são também elementos que apontam para o eclodir de uma situação revolucionária em breve: a abertura de conflitos internos na classe dominante e a perda de controlo sobre parte dos órgãos repressivos do Estado.

«Defender o referendo é impulsionar comités de defesa!»

O caminho para uma República Socialista da Catalunha

As direcções da CUP e da ERC parecem incapazes de romper com o PDeCAT. Enquanto isso, as restantes direcções da esquerda reformista recuam e condenam uma possível declaração unilateral de independência, insistindo na necessidade de negociar com o mesmo governo que condena trabalhadores à miséria e os impede de exercer o seu direito à auto-determinação.

Mas em todas as organizações de esquerda e de trabalhadores de todo o Estado Espanhol há trabalhadores que não se contentarão com a continuação dos ataques à sua classe e com uma “independência” suspensa. É preciso avançar para a greve geral em todo o território espanhol a exigir a queda do governo PP como paga pela repressão selvática de dia 1 de Outubro. É preciso reactivar os CDR, fortalecê-los e multiplicá-los em comités de fábrica, de empresa, de escola, de faculdade e todo o tipo de organizações de trabalhadores e jovens.

À data a que terminamos de redigir este editorial, já é óbvio que se tornará desactualizado no espaço de 24 horas. Tal é a velocidade dos acontecimentos na Catalunha, que desde Portugal são atentamente seguidos.

O Socialismo Revolucionário declara toda a sua solidariedade com os trabalhadores da Catalunha que lutam pelo seu direito à auto-determinação, e entre os quais se incluem os nossos próprios camaradas da Esquerra Revolucionària.

Abaixo o governo PP!

Visca Catalunya lliure i socialista!

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