Revolução Russa: o golpe de Kornilov é derrotado

Artigo de Rob Sewell. Originalmente publicado em inglês como parte de uma brochura sobre a Revolução Russa preparada pela secção estado-unidense do CIT, Socialist Alternative.

 

A Rússia, em 1917, viu a entrada impetuosa das massas no palco da história. O ritmo acentuado da mudança reflectiu as mudanças rápidas de consciência entre as massas.

Mas nenhuma revolução avança numa linha recta. Esta luta de forças vivas manifesta-se através de contradições dialéticas; revoluções, o refluxo da revolução, períodos de reacção seguidos de um subsequente impulso em direcção à revolução a um nível mais elevado.

O período de Julho foi, de muitas formas, a linha divisória entre a revolução de Fevereiro e Outubro. Em todas as grandes revoluções existem períodos em que as massas, num período de retrocesso, sentem os ganhos da revolução afastar-se do seu alcance e mobilizam-se espontaneamente para recapturar o terreno perdido.

Isto aconteceu em Junho/Julho na Rússia. Um padrão semelhante pode ser visto em Espanha, em 1937, e em Portugal, em 1975. A principal diferença assenta na existência do Partido Bolchevique na Rússia, que se colocava na linha da frente da luta no sentido de manter as forças da revolução intactas para mais lutas decisivas.

O resultado inevitável dos Bolcheviques terem contido a impaciência revolucionária das massas foi abrir um ataque pelas forças da Direita. Julho foi o “mês da grande difamação”, onde uma intensa campanha de ódio foi instigada contra os Bolcheviques.

No entanto, a reacção de Julho não foi nem profunda nem duradoura. A hostilidade inflamada pela direita evaporou-se em semanas e, pela altura de Agosto, o apoio aos Bolcheviques estava visivelmente em recuperação. Camadas de trabalhadores, partindo das lições da sua própria experiência, voltaram-se novamente para as ideias da revolução.

Os Bolcheviques alcançaram ganhos eleitorais enquanto as pessoas registavam descontentamento com os socialistas moderados que controlavam o Soviete Central. O Partido de Lenin não alcançou a maioria no Soviete de Petrogrado até ao início de Setembro, mas a maré estava a começar a mudar.

Condições económicas cada vez mais degradadas e políticas impopulares do governo, como a restauração da pena de morte impulsionou a causa Bolchevique. Resoluções pró-Bolchevique estavam agora a passar condenando as perseguições do governo aos envolvidos nos eventos de Julho. Como um contemporâneo notou: «A repressão da extrema-esquerda serviu para aumentar a sua popularidade entre as massas.»

No final de Julho, o governo de Kerensky confrontou-se com uma crise social, política e económica em aprofundamento. Escassez de comida, deslocação económica, inflação, desordem civil e inquietação dos camponeses; tudo isto serviu para alimentar o crescimento das ideias revolucionárias, o que causou um alarme agudo entre os círculos dominantes.

O governo estava paralisado. A burguesia russa, ansiosa por destruir a revolução, procurou desesperadamente uma saída. John Reed, no seu famoso livro, Dez Dias que Abalaram o Mundo, relata que uma proporção significativa da classe dominante teria preferido uma vitória alemã na guerra a uma vitória completa dos sovietes. Nos círculos da governação, existia um enorme desdém pelo governo enfraquecido de Kerensky.

A ideia de “salvação da mãe-pátria” por uma forte ditadura que pudesse acabar com a anarquia revolucionária apoderou-se cada vez mais das suas mentes. Esta visão foi partilhada pelo principal partido capitalista, os Cadetes, pela Confederação do Comércio e da Indústria de Toda a Rússia e pela Confederação dos Latifundiários.

O General Know, da Missão Militar Inglesa, deixou clara a atitude dos privilegiados: «O que é desejado é uma ditadura forte; o que é desejado são os Cossacos. Estas pessoas precisam de um chicote! Uma ditadura – é exactamente isso que é preciso.»

Nestas circunstâncias, a emergência de um enredo dos oficiais era inevitável. Até o Presidente-Ministro Kerensky tinha alimentado esta conspiração por discussões que ele tinha com o comando militar. A sua ambição era estabelecer uma forte ditadura pessoal para acabar com o Bolchevismo – liderada por si próprio. Trotsky apontou que “Kerensky queria usar a revolta dos generais para reforçar a sua própria ditadura”.

Mas o Alto Comando Militar tinha outras ideias. Para eles, o candidato óbvio para esse papel bonapartista era o recentemente nomeado Comandante Chefe, General Lavr Kornilov.

Enquanto militar e admirador dos Cem Negros, Kornilov fazia pouca distinção entre os Socialistas Moderados e os Bolcheviques – todos eram escumalha revolucionária. No final de contas, não tinham sido os sovietes a criar toda esta confusão em primeiro lugar? Eram eles os “inimigos internos”.

O General Kornilov tornou-se o símbolo e ponto focal da contra-revolução e um herói nacional para qualquer sector reaccionário na Rússia. A 11 de Agosto, pronunciou “já é tempo de enforcar os agentes e espiões alemães liderados por Lenin”.

Se o governo provisório estivesse demasiado fraco e impotente para agir, ele agiria de forma independente. A 24 de Agosto, sob o pretexto de uma “insurreição Bolchevique”, Kornilov disse ao pessoal do general para redireccionar o exército para marchar em Petrogrado.

Podem ser estabelecidos paralelos entre a rebelião de Franco em 1936 e de Pinochet em 1973. Quando a classe dominante não vê nenhuma alternativa abandona todo o seu discurso democrático e vira para uma ditadura militar a fim de esmagar as massas pela força. Os Bolcheviques deram à luta na Rússia uma liderança, derrotando Kornilov e construindo as forças que fizeram avançar a revolução vitoriosa em Outubro. A ausência deste tipo de partido no Chile e em Espanha tiveram consequências terríveis.

A contra-revolução na Rússia começou efectivamente a partir desse momento. Os planos de Kornilov eram simples: «O golpe estará preparado nos subúrbios de Petrogrado pela tarde de 28 de Agosto. Eu peço que em Petrogrado seja proclamada a lei marcial a 29 de Agosto.»

Kerensky tinha iniciado negociações secretas com os conspiradores, procurando incorporar Kornilov num novo “governo nacional”. O General respondeu que esse governo poderia apenas existir sob a sua liderança e que Kerensky deveria abandonar Petrogrado de vez.

Como Trotsky comentou: «Ao mesmo tempo que Kerensky e Savinkov tencionavam limpar os Bolcheviques e, em parte, os sovietes, Kornilov tencionava também limpar o Governo Provisório. Era justamente isto que Kerensky não queria.»

Perante este obstáculo, Kerensky bateu em retirada para o gabinete com as notícias da tentativa de golpe. Fiéis a si mesmos, os ministros Cadetes resignaram a 26 de Agosto, não querendo assumir nenhuma responsabilidade por propor uma revolta “patriótica”.

Como em Espanha, em Julho de 1936, a maioria do Alto Comando passou para o lado da contra-revolução e os altos oficiais do governo foram quase todos simpatizantes de Kornilov. Divisões eram expedidas da frente para esmagar a capital revolucionária. A 28 de Agosto, os preços na bolsa de valores de Petrogrado dispararam; os contra-revolucionários tinham grandes esperanças na vitória. Mas a reacção tinha interpretado de forma errada a situação política, especialmente o estado de espírito das massas. A base social do golpe era ainda muito instável. A essência da contra-revolução, assim como a da revolução, é o timing.

O Partido Bolchevique estava ainda a operar em condições semi-ilegais depois dos eventos de Julho. A liderança do partido estava dispersa: Trotsky estava na prisão, Lenin e Zinoviev escondidos. De qualquer forma, os bolcheviques rapidamente entraram em acção, assim que a notícia chegou. Desde a Finlândia, Lenin avisou os bolcheviques que na luta contra Kornilov eles não deveriam dar qualquer crédito ou apoio aos moderados, os mencheviques e os social-revolucionários. Não poderia existir qualquer mistura das suas bandeiras políticas.

“Nestas circunstâncias”, escreveu Lenin, “Um bolchevique diria que os soldados lutarão contra as tropas revolucionárias. Não farão para proteger o governo… mas, de forma independente, para proteger a revolução enquanto perseguem os seus próprios objectivos.”

Frente Unida

Esta foi a política da Frente Unida. Perante um inimigo comum, a Frente Unida serve para unificar diferentes partidos de trabalhadores em acção para atingir um objecto determinado. Não significa abandonar diferentes programas políticos ou críticas sob a fachada da “unidade”.

Não há fusão de diferenças políticas, mas uma unidade na acção. “Marchar separadamente sob as vossas próprias bandeiras, mas atacar juntos” era a orientação. Isto não eleva apenas o nível de consciência como mostra, na prática, a superioridade da luta militante.

Uma Frente Unida de partidos socialistas e comunistas na Alemanha poderia ter prevenido Hitler de subir ao poder em 1933. Mas uma política tão essencial, comprovada pela acção no passado, foi rejeitada pelos estalinistas como “contra-revolucionária”. Isto preparou a derrota do proletariado alemão nas mãos do Hitler.

Na Rússia, os sovietes locais foram revigorados sob a orientação dos activistas bolcheviques à medida que o entusiasmo das massas se centrava na defesa de Petrogrado. Foram tidas reuniões de massas que passaram resoluções a atacar Kornilov e a exigir a libertação dos prisioneiros de Julho.

Um “Comité de Defesa Revolucionária” foi estabelecido onde os bolcheviques desempenhavam um papel proeminente. Grandes números de trabalhadores estavam organizados para erguer barricadas, cavar fossas e instalar arame farpado como parte da defesa da capital. Organizações de trabalhadores tomaram imediatamente controlo do fornecimento e da distribuição da comida à população.

O Soviete dos Comités de Fábrica ajudaram a coordenar a distribuição de armas. Unidades da Guarda Vermelha foram criadas e abastecidas com armas e materiais vindos das fábricas de armamento. Muitos novos recrutas tiveram treino militar pelas Organizações Militares Bolcheviques. O Batalhão de Carros de Petrogrado comprometeu-se com os seus 500 carros a ajudar a transferir os abastecimentos militares, enquanto os Sexto Batalhão de Engenheiros organizou um destacamento de 600 homens para construir fortificações de defesa.

A Frota do Báltico correspondeu às tropas de Kronstadt despachando 3,000 marinheiros armados para a defesa de Petrogrado. A tripulação da frota tinha detido alguns oficiais desleais, alguns dos quais foram sumariamente executados por traição. Depois de o Governo Provisório ter pedido assistência, o Comité Técnico Militar de Kronstadt enviou uma mensagem exigindo a libertação dos “nossos camaradas, os melhores lutadores e filhos da revolução que estão neste momento a definhar na prisão”.

Os bolcheviques recusaram categoricamente entrar no governo de Kerensky mas foram os melhores combatentes contra Kornilov. Os marinheiros e soldados mais combativos eram bolcheviques.

Trotsky reflecte: «Durante a insurreição … Kerensky teve de ir ter com os marinheiros da frota do Báltico e exigir que os defendessem no Palácio de Inverno. Eu estava na altura na prisão. Levaram-no ao guarda e enviaram uma delegação para me perguntar o que deveria ser feito: deter Kerensky ou defendê-lo? … Eu disse: ‘Sim, devem defendê-lo muito bem por agora; amanhã detemo-lo’.»

Os trabalhadores das linhas férreas e dos telégrafos desferiram um enorme golpe à contra-revolução. Os seus líderes instruíram os membros a redireccionar telegramas “suspeitos” e a bloquear o caminho de Kornilov por quaisquer meios. Deviam desmantelar linhas e pontes, abandonar os seus postos, desviar carruagens e atrasar todos os embarques contra-revolucionários.

Nas palavras de Trotsky: «Os trabalhadores das linhas férreas … cumpriram o seu dever. De uma forma misteriosa, destacamentos davam por si a percorrer as estradas erradas. Regimentos chegavam à divisão errada, artilharia era enviada para becos sem saída, oficiais perdiam a comunicação com as suas unidades.»

Petrogrado manteve-se uma fortaleza da revolução. O movimento do exército contra-revolucionário foi paralisado. Destacamentos de agitadores revolucionários das fábricas e sovietes cercaram as tropas estacionadas e interpelaram-nas com propaganda política.

Soldados de Kornilov depõem as armas.

Motins

As tropas não faziam ideia do que se passava, uma vez que os seus oficiais as tinham mantido em total ignorância. Motins eclodiram. Oficiais foram detidos na Divisão Selvagem, composta por caucasianos das montanhas, a Divisão de Cavalaria Ussuriishy, que agora se comprometia com a causa da revolução.

O exército “contra-revolucionário” simplesmente dissolveu-se; nunca existiu um combate entre as tropas de Kornilov e Petrogrado. O General Krymov, o segundo na hierarquia de comando depois de Kornilov, cercado pelas suas próprias tropas, aceitou relutantemente negociar. O General Denikin estava aprisionado pelas suas próprias tropas. A rebelião desmoronara.

Krymov entendeu a o quão desesperada era a situação. “A última cartada para salvar a Pátria foi derrotada — a vida já não merece ser vivida”, disse, e disparou contra si próprio. Kornilov foi detido a 1 de Setembro.

Esta derrota da contra-revolução alterou abruptamente o equilíbrio das forças para a esquerda. A rebelião radicalizou as massas; nas palavras de Marx, a revolução precisa por vezes do chicote da contra-revolução.

Uma vaga de apoio ao Partido Bolchevique desenvolvia-se agora. “Esta ascensão”, explicou Trotsky “foi possibilitada apenas graças à política bolchevique de dois gumes. Ao participar na linha da frente da luta contra Kornilov, os bolcheviques não assumiram a menor responsabilidade pela política de Kerensky. Pelo contrário, denunciaram-no como responsável pelo ataque reaccionário e como incapaz de o superar. Desta forma, prepararam as premissas políticas da revolução de Outubro”.

Através de um trabalho paciente e consistente, com as tácticas e slogans correctos, os bolcheviques ganharam uma maioria no Soviete de Petrogrado no início de Setembro. Isto tornou-se o trampolim para ganhar a maioria das massas trabalhadoras para a sua bandeira.

Em dois meses, os líderes do bolchevismo emergiram da clandestinidade e da prisão para liderar o primeiro Estado operário na história. Os eventos de Agosto de 1917 desempenharam um papel decisivo na preparação do partido e da sua liderança para essa transformação histórica.

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