Nada será como dantes: As eleições e a luta de classes no Reino Unido

Screen-Shot-2017-05-22-at-12.04.37

João Félix, Socialist Party Wales, CIT em Inglaterra e Gales
Artigo originalmente publicado na Praxis Magazine em duas partes

No dia 18 de Abril, Theresa May, primeira ministra não eleita e líder do Partido Conservador, convocou eleições antecipadas. Como pretexto, invocou a necessidade de um mandato claro para as negociações de saída da União Europeia. O referendo sobre a saída ou permanência na UE expôs as divisões profundas existentes na classe dominante no Reino Unido, refletindo a conjuntura mundial — o capitalismo não recuperou da crise de 2007/2008, por sua vez parte das crises cíclicas que marcam o século XXI. Embora a classe trabalhadora tenha sofrido ataques inimagináveis — como o proletariado e classe média portuguesa são testemunhas — a classe capitalista não encontrou caminho para resolver esta crise.

Causas e efeitos — Crise, Brexit e anti-austeridade

Os efeitos da crise na classe capitalista não são só intrínsecos ao modo de produção, são também um efeito da luta da classe trabalhadora e das camadas radicalizadas na classe média. Desde 2007/2008 que a classe trabalhadora sofreu o maior aperto de salários desde o século XIX, a crise usada como pretexto para alguns dos maiores ataques que há memória. A reação da classe trabalhadora britânica, embora demorada, mostrou-se em ondas de greves e lutas sociais, com um exemplo flagrante na luta dos médicos internos do SNS inglês apoiada pela maioria do público britânico contra os ataques nas condições laborais e na segurança dos pacientes.  Esta greve veio de um grupo profissional inesperado, que tem sido proletarizado, e demonstra até onde chega o descontentamento e a raiva latente no seio da classe trabalhadora.

Mas a maior prova de que grande parte da classe trabalhadora e camadas proletarizadas da classe média procuram ativamente   uma solução contra o capitalismo é a eleição surpresa de Jeremy Corbyn como líder do Partido Trabalhista (Labour Party) em Setembro de 2015. Corbyn é parte da ala esquerda que se manteve no Labour durante o período em que o Partido se transformou num instrumento puramente capitalista, com a ascensão de Tony Blair e do “New Labour” a “terceira via”. Ironicamente, as medidas usadas pelo “New Labour” para quebrar o poder dos sindicatos a política de “um membro, um voto” e a abertura a “apoiantes registados” foram as mesmas que permitiram agora que uma larga secção de trabalhadores, jovens e camadas radicalizadas da classe média se juntassem para eleger Jeremy Corbyn e criar dois partidos dentro de um.

Com uma maioria da base e parte da liderança transformadas num movimento anti-austeridade, mas com estruturas e aparelho permanecendo sob o controlo de apoiantes do “New Labour“, existe agora uma guerra civil entre estes dois movimentos opostos (um anti-austeridade e outro pró-capitalista), combatendo pelo caráter de classe do Partido Trabalhista.

A convocação do referendo prometido por David Cameron era já um sintoma da crise sistémica, clara durante a campanha dividindo o Partido Conservador e, consequentemente, o capitalismo ao meio e criando brechas profundas no aparelho do Partido Trabalhista, ainda controlado pela direita. Embora vários políticos como Boris Johnson, antigo Mayor de Londres e agora secretário dos negócios estrangeiros, e Michael Gove, antigo secretário de estado da Educação e Justiça assim como o inenarrável UKIP, partido da extrema-direita britânica com o seu expoente máximo em Nigel Farage tenham apoiado o “Brexit” por razões puramente oportunistas, a verdade é que pouco ou nenhum sector da classe capitalista crê que beneficiaria de um isolamento do capitalismo mundial.  E tudo o que a classe capitalista tem para tentar solucionar esta crise manifestou-se durante o referendo, com ambas as campanhas oficiais recorrendo ao racismo, xenofobia e tentativas constantes de dividir a classe trabalhadora.

Toda esta saraivada de propaganda teve um efeito concreto na classe trabalhadora, mas não constituiu o fator preponderante para o resultado, como explicado abaixo. O falhanço de vários líderes sindicais e dos movimentos sociais em criarem uma clara divisão entre os interesses da nossa classe e os interesses da classe capitalista, foi um tema marcante, com os líderes das maiores centrais sindicais a vergarem-se à chantagem do capitalismo que uma saída da União Europeia seria desastrosa para os trabalhadores.

Restou a um número de sindicatos militantes e partidos de esquerda — entre eles o Socialist Party of England and Wales, secção em Inglaterra e Gales do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores, defenderem o caso socialista para sair da União Europeia — um projeto político da classe dominante. Uma saída internacionalista, pelo interesse da classe trabalhadora na Europa e não pela xenofobia das classes dominantes, resumida no slogan “Não à UE dos patrões, sim a uma Europa dos Trabalhadores!”

Jeremy Corbyn, que por muito tempo partilhou publicamente esta opinião, não resistiu à pressão da ala direita do Partido Trabalhista e fez campanha pelo “Remain”. O peso do líder trabalhista ter feito campanha por uma saída pela esquerda da União Europeia teria seriamente enfraquecido a mensagem racista e xenófoba de ambas as campanhas da classe dominante.

O resultado foi um choque para a ordem estabelecida — e, embora alguns dos votos para sair tenham sido por razões racistas e xenófobas, que se penetraram na classe trabalhadora através dos ataques horários da comunicação social, a verdade é que este foi um voto de protesto contra as condições e os ataques à classe trabalhadora, um voto contra a classe dominante. Nas sondagens realizadas antes e após o referendo, embora, superficialmente, algumas mostrem a imigração como um factor de importância considerável, a verdade é que, quando se faz uma análise em profundidade, é revelada a importância dos cortes, desemprego e austeridade. Mesmo o sentimento anti-imigração é uma forma distorcida desta consciência, a partir da ideia errónea que os imigrantes ocupam os postos de trabalho e sobrecarregam o SNS.

É dever de todos os socialistas e sindicalistas combater estas ideias de uma forma construtiva, apontando que a classe trabalhadora britânica e migrante não é a culpada pela degradação dos serviços públicos e condições de trabalho, intrínseca do sistema capitalista, e que se tem de unir para substituir este sistema por um que planeie democraticamente a economia de forma a criar uma sociedade que satisfaça as necessidades e desejos da maioria da população, não para o lucro de alguns mas para a vida de todos.

O voto contribuiu de forma decisiva para acentuar as divisões dentro da classe capitalista e do seu representante político máximo — o partido Conservador. As fraturas latentes transformaram-se numa ferida viva, com a demissão de David Cameron na manhã após o referendo e uma luta fratricida pela liderança, na qual Theresa May saiu vitoriosa. Era a esperança das várias secções do capitalismo que ela fosse capaz de unir as várias tendências dentro do Partido Conservador. Essa esperança revelou-se infundada.

O pânico da classe dominante viu-se também na forma como após o referendo, o New Labour se mobilizou para depor Jeremy Corbyn. A maior parte dos deputados do Partido Trabalhista, que são da ala direita, atacaram-no devido ao resultado. Isto foi também possível porque após a mudança de caráter na base do partido, houve um falhanço da liderança à volta de Corbyn em adoptar medidas para o transformar. Preferiram um método de conciliação de classe e rejeitaram apelos para a re-selecção democrática de candidatos, de forma a permitir à base eleger candidatos anti-austeridade, medida popularizada pelo Socialist Party e com grande apoio na base. Isto mostra que consciência de parte da auto-proclamada liderança da esquerda do Partido Trabalhista — carreiristas de esquerda que se colaram ao movimento à volta de Corbyn — está atrasada em relação a parte da classe trabalhadora.

O plano falhou espetacularmente, com Corbyn reeleito com uma margem ainda maior. O Partido Trabalhista é agora o maior partido social-democrata da Europa, devido ao fluxo de novos membros. Embora tenha falhado, este golpe contribuiu para alimentar a narrativa da comunicação social que Corbyn não era popular e as suas políticas não ressoavam na maior parte da população, uma narrativa que caiu por terra durante as últimas semanas.

Eleições: Referendo ao Brexit ou à austeridade?

As razões objetivas para a convocação de eleições são complexas. As razões apresentadas por Theresa May têm um fundo de verdade — procura credibilidade para negociar um “Brexit” que sirva os interesses da classe dominante, sendo também uma tentativa  fortalecer a sua posição dentro do Partido. Pelo caminho, aproveitava o momento de aparente impopularidade de Jeremy Corbyn (há 6 semanas atrás) e preparava-se para uma maioria que serviria para silenciar opositores internos e para reorganizar as fileiras do Partido Conservador.

Mas vem igualmente na senda de grande descontentamento público com os efeitos dos ataques do capitalismo aos serviços público — especialmente ao SNS e à Educação. Não é coincidência que a eleição é anunciada um mês e meio após uma manifestação de 250 000 pessoas em defesa do SNS e numa altura em que professores, pais e comunidades se começam a organizar contra os cortes brutais na escola pública. Na opinião do autor, foi também uma tentativa de sabotar o nascimento de um movimento e campanha de massas pelo SNS, educação e contra a austeridade, similar à campanha contra a “poll tax” que derrotou o governo da Thatcher. Uma vitória esmagadora, cujos comentadores e os conservadores esperavam na altura, protelaria o desenvolvimento de uma onda organizada de oposição ao governo.

Recentemente, após os trágicos atentados em Londres, Guilherme Rosa, vereador pelo Partido Trabalhista em Londres, comentou no Expresso que as eleições estão a ser mais marcadas por questões de terrorismo e segurança do que pelo Brexit. Embora importantes, e especialmente presentes desde os trágicos e terríveis ataques em Manchester e Londres, estas questões não estão a ser analisadas isoladamente pela maioria da classe trabalhadora. Elas são pensadas em relação à política de cortes e ataques dos representantes do capitalismo. Após os ataques de Manchester e Londres, ao pesar e luto juntou-se uma onda de indignação contra os cortes nos serviços de emergência, policiais e o Serviço Nacional de Saúde, que têm sido brutalmente atacados pelo governo.

As tentativas demagógicas de Theresa May, de aproveitamento político e divisão da classe trabalhadora, não ressoaram como esperado — a verdade é que até alguns sectores mais conservadores mostraram o seu descontentamento. A Federação Policial já tinha protestado a redução do número de efectivos — 20 000 desde 2010. Um ex-chefe da Policia Metropolitana acusou Theresa May de negligência.

À data da escrita deste artigo, 3 dias antes das eleições, a única certeza é a  incerteza. No dia 5 de Junho, diferentes sondagens colocavam o Partido Trabalhista entre 5 a 10 pontos de distância dos Conservadores, com uma sondagem no dia 3 dando apenas 1 ponto de diferença entre eles. Há 6 semanas atrás, aquando do anúncio das eleições, o Partido Trabalhista estava a mais de 25 pontos dos Conservadores. Esta cavalgada nas sondagens não só causou pânico na classe dominante como galvanizou o movimento anti-austeridade e uma grande camada da classe trabalhadora e dos jovens.

À derrocada do Partido Conservador não foram alheias as medidas anunciadas por Theresa May de claro e brutal ataque à classe trabalhadora, como a “taxa de demência”[1], mas também o fim de subsídios ao aquecimento no inverno e o fim dos almoços escolares, que foram totalmente rejeitadas mesmo por alguma  da sua base social de apoio.

No entanto, as medidas apresentadas no manifesto do Partido Trabalhista, claramente de esquerda — embora devessem ir mais além —, foram fulcrais e marcaram um claro ponto de viragem. Uma clara vitória da esquerda sobre a direita, foram decididamente um passo em frente na luta contra a austeridade. Entre elas encontram-se a promessa de renacionalizar as companhias ferroviárias, aumentar o salário mínimo universal para £10/hora, ilegalizar os contratos casuais (chamados contratos de zero-horas), abolir as propinas e investir em educação gratuita e universal e renacionalizar e financiar o serviço nacional de saúde. A classe capitalista, assim como a direita do Partido Trabalhista, não esperavam que as medidas no manifesto fossem tão populares.

A estratégia da ala direita do Partido Trabalhista — no qual se inclui o aparelho no País de Gales e Escócia — tem sido distanciar-se de Corbyn e do movimento anti-austeridade durante a campanha. Aquando da convocação das eleições, a liderança mais uma vez cometeu o erro de não possibilitar a seleção democrática dos candidatos membros do partido, o que resultou na permanência de uma maioria de candidatos anti-corbynistas. Confrontados com a popularidade do manifesto, têm-se remetido ao silêncio, mas seria espúrio julgar que se converteram ao movimento anti-austeridade, e que não o tentarão derrotar assim que possível.

A única forma de garantir a vitória do programa que Corbyn apresenta é a luta pelo socialismo e uma sociedade sem classes-uma sociedade em que a economia seja democraticamente planeada- para a satisfação de todos e não o lucro de poucos. No entanto, com todas as suas limitações, o manifesto e o movimento à volta do Corbyn são um importante passo em frente — mostrando que ideias e medidas socialistas são não só possíveis, como populares. A mensagem contra a austeridade prova que políticas socialistas têm apoio massivo e galvanizam a classe trabalhadora na luta por mais conquistas e por uma nova sociedade. O Socialist Party — secção do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores em Inglaterra e Gales — está, pois, a apoiar criticamente Corbyn nestas eleições.

Entre as nossas críticas, afirmamos, por exemplo, que o manifesto devia ir mais além na promessa de nacionalizações — nacionalizar também a banca e as grandes companhias, colocá-las sob o controlo público dos trabalhadores, sindicatos e comunidade, de forma a travar o inevitável ataque e sabotagem da classe capitalista. Só assim se pode criar a base para uma economia democraticamente planificada pelos trabalhadores, que sirva os interesses da população. Outro exemplo: é necessário não só abolir as propinas, mas garantir ensino gratuito e universal para todos os estudantes, britânicos ou não.

Qualquer que seja o resultado das eleições, nada será como dantes. Theresa May convocou as eleições esperando uma vitória esmagadora, o que, neste momento, não se mostra provável. Aproxima-se uma onda de raiva e descontentamento da classe trabalhadora, com lutas industriais e de movimentos sociais no horizonte — em defesa não só de condições laborais mas das vitórias da nossa classe — com o sistema nacional de saúde e educação pública como foco.

É possível que, mesmo com o aumento da maioria, May, com uma posição fragilizada, não se consiga manter como líder — as feridas no partido conservador continuam em carne viva. Líderes sindicais discutem abertamente a preparação de greves coordenadas no caso de uma vitória do Partido Conservador, com o líder de esquerda do sindicato da função pública apelando a um “conselho de guerra”.

No entanto, no evento de uma vitória do Partido Trabalhista, ou mesmo um resultado que permita um governo liderado pelo Labour (com acordos eleitorais com outros partidos como o Partido Nacional Escocês ou os Democratas-Liberais), este regressará ao parlamento pejado de contradições e em “guerra civil”. A maior parte dos deputados serão Blairistas que se oporão às tentativas da liderança e da base do Partido Trabalhista de implementar políticas socialistas, tentando sabotá-las a todo o momento, com ou sem ajuda de outros partidos — é possível que tentem impedir Corbyn de chegar a primeiro-ministro e peçam um candidato “consensual” para a classe capitalista.

Se o movimento anti-austeridade quer transformar o partido é necessário, como o Socialist Party tem proposto desde a eleição de Corbyn, democratizar as suas estruturas, de forma a remover a ala pró-capitalista que é agora a minoria mas continua a controlar o aparelho, assim como aceitar, de forma federativa, outras organizações socialistas e sindicais, de forma a tornar-se, efectivamente, numa organização política de e para a classe trabalhadora. Ao contrário do que alguns carreiristas de esquerda no Labour parecem pensar, um partido não é um clube de futebol, é uma ferramenta para defender os interesses de uma classe, e a classe trabalhadora necessita urgentemente de uma organização sua, seja o Labour ou um novo partido de massas.

Qualquer que seja o resultado, todos os socialistas, sindicalistas e trabalhadores na Grã-Bretanha têm de estar preparados para as lutas que se avizinham — tanto industriais e sociais, como pela criação de um partido que represente a classe trabalhadora. As condições sociais e económicas, assim como os movimentos na consciência de massas, criam uma situação que pode desencadear terramotos políticos e movimentos de massas a qualquer momento. Esta mudança de consciência nota-se de forma pronunciada nas gerações mais jovens, embora não esteja de qualquer maneira limitada a elas — 70% dos jovens dizem querer votar em Corbyn.

Nestas eleições, as linhas de batalha e de classe são claras. Num lado, pela classe dominante, um partido conservador em estilhaços, assim como os direitistas no Partido Trabalhista, que submergiram, temendo pelas suas carreiras. No outro, dentro e fora do Partido Trabalhista, uma larga maioria da classe trabalhadora, sindicalistas, socialistas e movimentos sociais na luta pelos seus direitos, contra a austeridade.  Uma vitória de Corbyn e a tentativa de implementação das medidas do manifesto, não obstante todas as suas contradições, seria um importante passo em frente na luta de classes. A contradição entre trabalhadores e patrões seria agudizada e, por isso, mais clara do que nunca. Mas mesmo com uma derrota do Partido Trabalhista, o movimento de massas na sociedade não desvanecerá e necessita de ser organizado — com focos iniciais nas batalhas pela Educação e pelo SNS, mas avançando na luta contra todos os ataques à nossa classe.

Uma nova etapa da luta de classes começa no dia 9 de Junho, e é dever de todos os socialistas e sindicalistas levá-la a bom porto —  até derrotar o capitalismo e criar uma sociedade que seja “for the many, not the few.”[2]

 

[1] Com a “taxa de demência”, o governo incluiria o preço atual de habitação própria no cálculo de contribuições para seniores em tratamentos paliativos. Isto inflacionaria o património de vários pensionistas, que adquiriram as suas casas em altura de preços baixos, e impossibilitaria que pensionistas continuassem a oferecer uma “almofada financeira” aos seus descendentes.

[2] “para a maioria, não só para alguns” — slogan do Partido Trabalhista nestas eleições.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s