Brasil: Greve geral demonstra força da classe trabalhadora contra as reformas de Temer

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André Ferrari, da ‘Liberdade, Socialismo e Revolução’, CIT no Brasil

No dia 28 de abril, a classe trabalhadora brasileira deu um claro sinal de sua força e capacidade de mobilização. A greve geral de 24 horas foi convocada de forma unificada pelas centrais sindicais do país contra as reformas da previdência e trabalhista do governo ilegítimo de Michel Temer.

A greve representou a mais expressiva mobilização unificada da classe trabalhadora organizada e do movimento sindical das últimas décadas. Foram alguns milhões de trabalhadores dos transportes, indústria, sistema financeiro, correios, educação e serviços públicos que paralisaram suas atividades.

Trabalhadores organizados nos movimentos sociais, em particular o movimento dos trabalhadores sem-teto, mobilizaram-se nas ruas durante a madrugada, bloqueando dezenas de rodovias nas principais cidades do país. Nos centros comerciais das grandes cidades o clima geral era de feriado, com pouquíssimo movimento.

Milhões de trabalhadores deixaram de comparecer ao seu local de trabalho. As centrais sindicais falam em algo em torno de 35 a 40 milhões de trabalhadores em greve no dia 28. Mesmo que não tenha chegado a tanto, foi um movimento expressivo que deixou claro o potencial da classe trabalhadora na luta contra os ataques de Temer.

Embora o aspecto mais contundente da mobilização tenha sido a paralisação nos locais de trabalho, manifestações envolvendo centenas de milhares aconteceram em várias cidades durante o dia 28.

Os governos locais e o governo federal tentaram criar um clima de intimidação através de ameaças nos meios de comunicação e da repressão policial sobre manifestantes nas ruas.

Diante da paralisação dos trens, ônibus e metrô, o prefeito de São Paulo, chegou a ponto de anunciar que o governo local pagaria a passagem de Uber para todos os funcionários da prefeitura que quisessem trabalhar. A estratégia fracassou e ele teve que recuar.

No Rio de Janeiro, um covarde ataque policial, sem nenhum pretexto, atingiu indiscriminadamente os manifestantes na noite do dia 28. Em Goiânia, um manifestante foi golpeado na cabeça por um policial e está entre a vida e a morte. Em São Paulo, uma passeata dirigiu-se às imediações da residência do presidente ilegítimo Michel Temer e foi reprimida pela polícia ao chegar ao seu destino. Houve vários ativistas detidos pela polícia e depois liberados, mas três deles, militantes do MTST (sem-teto), presos em São Paulo, continuam presos de forma arbitrária.

Mesmo assim, as manifestações foram muito expressivas superando, em algumas cidades, a dimensão atingida em jornadas de luta anteriores.

Interessava ao governo provocar situações de violência e assim forjar argumentos para condenar o movimento já que a imensa maioria da população também se coloca contra as reformas.

Apesar de todo o bombardeio de propaganda da mídia em favor das reformas, pesquisas recentes mostram que 71% da população é contra a reforma da previdência e 64% acham que a reforma trabalhista ajuda mais os empresários do que os trabalhadores. O próprio Temer é um dos presidentes com menos apoio popular da história do Brasil, com apenas 9% de aprovação.

A gravidade dos ataques fez com que houvesse importante apoio na sociedade ao movimento grevista, o que se refletiu até no posicionamento de entidades como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, da Igreja católica, criticando as reformas e apoiando o movimento.

Temer reagiu à greve geral orientando seus ministros a declarar que o movimento tinha sido um fracasso. Parte da mídia repetiu essa analise. Mas, nos bastidores o governo sabe que a greve consolidou uma situação desfavorável a ele no Congresso Nacional. Hoje Temer não tem os 2/3 dos votos na Câmara e no Senado que são necessários para aprovar a emenda constitucional da reforma da previdência. O próprio ex-presidente do Senado, que apoiou as manobras golpistas que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff (PT), declarou-se contra as reformas.

Diante dos reveses, o governo está tentando acelerar a votação da reforma trabalhista que necessita de maioria simples apenas. No caso da previdência recuou em alguns itens, está adiando sua votação, mas sabe que não tem a opção de abrir mão dela completamente. Se fizer isso, perde sua razão de existir, pois se trata de um governo que só se sustenta porque a grande burguesia brasileira espera dele que seja capaz de impor goela abaixo os mais duros ataques à classe trabalhadora desde os anos 1990.

Sem a aprovação da reforma da previdência, Temer pode cair. Existem vários mecanismos para isso, incluindo as investigações de corrupção e financiamento ilegal na campanha em que foi candidato à vice-presidente junto com Dilma Rousseff.

No caso da queda de Temer, as pesquisas apontam que 85% da população defende a convocação de novas eleições diretas e não a indicação indireta de um novo presidente pelo Congresso, como prevê a Constituição.

Próximos passos

Apesar da grande força da greve geral de 28 de abril, a batalha ainda não está ganha. É preciso aprofundar e radicalizar a luta de massas para que se possa derrotar de vez o governo e suas reformas.

O movimento sindical brasileiro perdeu força em razão dos ataques neoliberais dos anos 1990 e também pela cooptação por parte dos governos do PT. Nos últimos anos houve muitas greves por reivindicações econômicas imediatas, mas pouquíssima luta unificada de caráter mais geral.

A greve geral de 28 de abril abre uma nova etapa para o movimento sindical. O caráter unificado da ação foi importante. Apesar do limite representado pela burocracia sindical na direção das centrais sindicais majoritárias, houve muita pressão debaixo para cima e uma percepção da gravidade dos ataques.

Surgiram alguns espaços de organização de base da greve geral, como comitês de luta contra as reformas em muitas regiões. Mas, é preciso avançar muito nessa direção, organizando comitês de forma mais generalizada e garantindo o papel da base nas decisões sobre os rumos do movimento.

No próprio dia 28 de abril, a LSR defendeu a necessidade de convocação de uma nova greve geral dessa vez de 48 horas e ainda mais organizada pela base. Esse chamado deveria ter sido feito pelas centrais no próprio dia 28, mas isso não aconteceu.

Ainda existe a possibilidade de que uma nova reunião das centrais nos próximos dias tome a decisão de convocar uma greve de 48 horas. Mas, essa decisão não pode ser adiada e o movimento deve ser organizado desde já.

É preciso que todas as categorias convoquem assembleias de base para debater e deliberar sobre os rumos do movimento e organizar desde já uma nova greve geral de 48 horas. As decisões sobre os rumos do movimento devem ser democratizadas com a participação de todos os setores em luta.

Nos marcos desse processo de mobilizações, é fundamental que um Encontro Nacional dos trabalhadores em luta seja convocado e construa as bases políticas e organizativas para a reorganização do movimento dos trabalhadores para a nova etapa que se abre.

Nesse processo, a esquerda socialista poderá construir uma alternativa política que ofereça uma saída para a crise do ponto de vista dos trabalhadores e que se apresente como alternativa tanto aos ataques neoliberais em curso como ao projeto de conciliação de classes derrotado do PT no governo.

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