Trump intensifica tensões geopolíticas na península coreana

Editorial de “Socialist”, publicação de Socialist Action (secção do CIT na China, Hong Kong e Taiwan)

Tradução de Софи

Donald Trump, Xi Jinping, Melania Trump, Peng Liyuan


O ataque de mísseis de cruzeiro de Donald Trump a uma base aérea síria, no dia 6 de abril, no decorrer de uma rodada do “bolo de chocolate bonito” com o Presidente chinês Xi Jinping, marca uma imprudente e perigosa escalada de tensões no conflito sírio.

Também foi concebido como um aviso ao regime Norte-Coreano e ao convidado do jantar de Trump, Xi Jinping, de uma possível acção militar dos EUA para impossibilitar o programa de armas nucleares de Kim Jong-un.

Antes da chegada de Xi Jinping para conversações, Trump alertou, numa entrevista ao Financial Times, que estava preparado para tomar “medidas unilaterais” para eliminar as armas nucleares da Coreia do Norte caso a China não estivesse disposta a aumentar a sua pressão sobre o regime de Kim Jong-un.

Poucos dias depois da cimeira de Xi com Trump, os EUA moveram o  seu grupo de batalha aeronaval para a península coreana, aumentando ainda mais as tensões.

Esses movimentos, embora sejam possivelmente destinados apenas como uma guerra psicológica para desgastar o regime de Kim e pressionar Pequim a impor sanções mais rígidas, representam uma escalada perigosa de um dos conflitos mais complexos e potencialmente mortais do mundo.

O regime de Kim, uma combinação peculiar de vestígios stalinistas e nacionalismo militarista tem, por razões de auto-preservação, aperfeiçoado a arte do calculismo irracional — fazer o inesperado ou “insano” a fim de chocar e extrair concessões das potências imperialistas e da Coréia do Sul .

É irónico que um dos políticos que mais imita a maneira de Kim Jong-un agir é o próprio Donald Trump.

A estratégia dos Estados Unidos, se é que existe, parece ser modelada no acordo nuclear do Irão de 2013, através da qual sanções económicas levaram a um fim negociado do programa de armas nucleares desse mesmo país. Repare-se que Donald Trump, durante a sua campanha eleitoral, criticou o negócio iraniano como sendo um fracasso.

A Coreia do Norte enfrentou uma sucessão de sanções desde 2006 e estas foram apertadas ainda mais em fevereiro de 2017 em resposta a testes balísticos de mísseis pelo regime. A China decidiu então proibir todas as importações de carvão do seu vizinho, como um passo significativo que afecta cerca de um terço das exportações totais da Coreia do Norte.

O governo Trump quer aumentar as sanções. Para ter sucesso, esta estratégia requer a plena cooperação do regime chinês.

Conflito de Interesses

Pequim tem revelado um crescente desconforto com a Coreia do Norte. Mas há um limite até onde Pequim e Washington podem perseguir uma estratégia comum dado os interesses fundamentalmente antagónicos na península coreana.

O uso do imperialismo Japonês da crise coreana para impulsionar as suas próprias posições é um factor ainda mais complicado para Pequim. Também é a decisão dos EUA, este ano, para apoiar o sistema anti-mísseis THAAD (Dispositivo de área de alta altitude terminal) na Coreia do Sul.

A China está actualmente a aplicar “sanções” comerciais não oficiais contra o governo de Seul em protesto pelo desdobramento do THAAD.

A China teme o colapso do regime de Kim, que pode aumentar as sanções. As consequências podem ser colossais, incluindo uma crise de refugiados propagando-se pela China e até mesmo a possível fragmentação do actual estado norte-coreano em facções beligerantes que prendem a detenção de armas nucleares ou químicas.

Os capitalistas sul-coreanos também, por razões próprias, não querem ver o colapso do regime norte-coreano.

Não se pode descartar que Kim Jong-un volte a chamar “Washington’s bluff” e se envolva numa guerra nuclear com mais explosões nucleares subterrâneas ou testes de mísseis balísticos. Evidentemente que isto aumenta a pressão sobre a administração Trump para reagir ou correr o risco de ser exposto como um “paper tiger”.

Além disso, está em contagem um relógio de eleição que marca que a Coreia do Sul elegerá um novo presidente a 9 de Maio, à sombra da queda do presidente anterior Park Geun-hye —  acusado e preso depois de cerca de 10 milhões de pessoas saírem às ruas para remover o seu ano anterior.

Os dois líderes de opinião em pesquisas de opinião representam uma posição mais suave em relação à Coreia do Norte do que o partido de Park, defendendo negociações e concessões económicas em troca de um acordo de segurança (chamado de ‘Sunshine policy’).

Nem o acordo nuclear iraniano é necessariamente um modelo para um acordo com Pyongyang pela simples razão de que este já possui também armas nucleares.

Por mais assustador que seja que Kim — e Trump — possuam armas de destruição maciça, são as políticas dos sucessivos governos norte-americanos que são responsáveis ​​por esta situação.

Décadas de guerras bélicas norte-americanas, como o discurso do “axis of evil” de George W. Bush na véspera da invasão do Iraque (destacando o Irão, o Iraque e a Coréia do Norte para a mudança de regime patrocinada pelos EUA), reforçaram a “paranóia estratégica” dos generais norte-coreanos.

O terrível fim que atingiu os ditadores Saddam Hussein e Muammar Kadhafi, afectados pela mudança de regime orquestrada pelos americanos, convenceu Pyongyang da necessidade de uma apólice de seguro nuclear. O ataque de Trump à Síria só reforçará essa visão.

A “grande química” que Trump afirma entre si e Xi Jinping não fez nada para reduzir as tensões nacionais ou estabilizar um ambiente geopolítico cada vez mais perigoso. A relação entre as duas maiores potências do mundo, na realidade, encontra-se mais tensa do que nunca e isso pode enfrentar novos testes e crises, mesmo no espaço dos próximos meses.

Conflitos e choques económicos e políticos estão enraizados na ordem capitalista global. Desde a crise mundial de 2008 que entrámos num território inexplorado e viu-se a ascensão de populistas perigosos como Trump. Somente a classe trabalhadora, organizando-se em torno de uma alternativa socialista de massas que afaste o reinado dos bilionários pode oferecer uma saída.

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