Alexandra Kollontai e a luta da mulher trabalhadora

Alexandra Kollontai.co

Minerva, publicado originalmente n’A Centelha nº 8

Alexandra Kollontai foi uma das teóricas mais relevantes para a produção científica sobre o papel das mulheres na sociedade capitalista e para a transformação económica, política, cultural e moral do actual sistema. Mas foi também uma das principais intervenientes da concretização dessa transformação na Rússia revolucionária do início do século XX, nas revoluções de 1905 e 1917.

Como Kollontai e inúmeros outros autores marxistas que abordaram, na teoria e na prática, a questão das mulheres, o Socialismo Revolucionário e o Comité por uma Internacional dos Trabalhadores afirmam a necessidade de superar o modo de produção e organização capitalistas para alcançar a real emancipação da maioria das mulheres — maioria essa que é, para além de mulher, mulher trabalhadora.

Rejeitamos, dessa forma, perspectivas liberais do feminismo que opõem os interesses dos indivíduos segundo o seu género, e que contribuem assim para a divisão entre mulheres e homens trabalhadores; que reivindicam mudanças meramente superficiais no comportamento individual de cada um sem agirem sobre as suas raízes estruturais económicas; que se focam em questões de representatividade nos meios de comunicação e em cargos de direcção política e empresarial, ignorando a contribuição desses indivíduos na exploração e opressão da generalidade da população, independentemente do seu género.

Somente a união solidária entre mulheres e homens trabalhadores, numa luta contra os patrões e o capital, é capaz de construir uma sociedade socialista em que as conquistas democráticas poderão ser usufruídas por toda a humanidade, em que as raízes e obstáculos económicos de todas as formas actuais de opressão serão eliminadas.

Os interesses das mulheres trabalhadoras

Alexandra Kollontai nasce em 1872, no seio de uma família burguesa abastada. Como a maioria das mulheres envolvidas nos partidos clandestinos na viragem para o séc. XX na Rússia, Kollontai não provinha de uma família operária ou camponesa. No entanto, teve um papel fundamental na transformação desse panorama durante os períodos revolucionários da Rússia de 1905, mas sobretudo de 1917. A organização das mulheres trabalhadoras na luta pelo socialismo foi uma das suas principais contribuições.

Um dos episódios centrais para a recusa da sua herança familiar foi a visita a uma fábrica de têxteis. O sector têxtil na Rússia era maioritariamente dominado pelo trabalho das mulheres, assim como o sector do vestuário e do serviço doméstico. Nesta visita, Kollontai teve um confronto directo com as condições degradantes de trabalho das mulheres operárias russas: jornadas diárias de trabalho de 12 a 18 horas num local de trabalho poluído que integrava também dormitórios de fábrica.

O sector têxtil foi um dos principais sectores de luta no final do séc XIX na Rússia. Já nas décadas de 1870 e 1880, uma onda de greves tinha forçado o poder czarista a banir legalmente os turnos de trabalho nocturnos para mulheres e crianças. Nas greves económicas de São Petersburgo de 1896, as trabalhadoras deste sector foram das principais intervenientes. A própria Kollontai participou em acções de distribuição de panfletos e de angariação de fundos para esta luta. No ano da primeira Revolução Russa, em 1905, onze mil trabalhadoras do têxtil participaram em algumas das greves mais longas deste período.

O sindicato de trabalhadoras do sector têxtil teve uma ligação próxima com a Associação de Assistência Mútua de Mulheres Trabalhadoras, fundada em 1907 por Alexandra Kollontai com o objectivo de divulgar as ideias do socialismo entre mulheres proletárias e convencê-las da importância da sua participação organizada em sindicatos e no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) — partido do qual era membro desde 1899.

Kollontai assumiu igualmente um papel na direcção editorial da publicação Rabotnista, uma publicação do Partido Bolchevique dedicada à questão das mulheres trabalhadoras, fundada em 1914, a partir da qual foram organizadas várias iniciativas de consciencialização sobre o seu papel histórico. Esta publicação foi um instrumento importante de aproximação das mulheres à liderança revolucionária do Partido Bolchevique no ano de 1917, para a tomada do Estado pelos trabalhadores e camponeses russos.

Enquanto a única mulher membro do Comité Central do Partido Bolchevique, Kollontai avançou com uma luta interna pela organização de campanhas específicas que fossem dirigidas às mulheres trabalhadoras e pela criação de um departamento capaz de facilitar o seu recrutamento e integração no partido. Estas propostas partem de um reconhecimento das opressões distintivas da mulher, ligadas ao seu papel no seio familiar e no meio doméstico.

Esse reconhecimento é decisivo quando o objectivo é que as mulheres trabalhadoras tenham condições para se unirem, na luta pelos interesses da sua classe, com os homens trabalhadores. O fardo do trabalho doméstico e do cuidado de crianças e de outros familiares idosos ou doentes, recaindo sobretudo sobre a mulher, afecta a sua capacidade de intervir politicamente e a possibilidade de se deslocar regularmente a reuniões e a acções de luta. Alexandra Kollontai identificava, por isso, a necessidade da socialização do trabalho doméstico e do cuidado familiar, apenas garantido através do controlo público e democrático, e do acesso universal e gratuito a cantinas, lavandarias, lares, creches e infantários.

Para além disso, a actividade política das mulheres trabalhadoras depende do combate veemente a décadas de rebaixamento e silenciamento da voz das mulheres. As propostas de Kollontai para a integração das mulheres nos partidos de esquerda constituem as condições de organização em que estas podem adquirir a confiança necessária para avançarem e assumirem activamente as tarefas necessárias para a emancipação real da maioria da população, de todas as camadas exploradas e oprimidas da sociedade.

Feminismo de classe

A revolução de 1905, que garantiu a experiência necessária para a abolição do capitalismo em 1917, abriu espaço para um forte movimento feminista russo, mas ainda dominado por ideias liberais. A posição de muitos dos membros do POSDR era de afastamento relativamente às iniciativas e às organizações feministas burguesas. Mas para Kollontai, os marxistas deveriam participar junto das mulheres trabalhadoras que eram atraídas por esses movimentos, avançando com as propostas socialistas que realmente respondiam aos seus anseios por direitos democráticos, pelo fim da discriminação e da violência. Ao marcar presença na primeira reunião da União pela Igualdade das Mulheres, em Abril de 1905, defendeu abertamente que nenhum movimento poderia falar simultaneamente para as mulheres de todas as classes.

Quem defende a manutenção do sistema capitalista opõe-se de forma violenta às necessidades e aspirações de libertação da maioria das mulheres. Como evidenciado em inúmeros textos de Kollontai, as lideranças liberais das organizações feministas burguesas nunca defenderão mulheres trabalhadoras e pobres. Para essas, os direitos democráticos são um fim em si mesmo. Para as lideranças socialistas e revolucionárias, a luta por direitos democráticos é um meio para avançar a luta contra a escravidão económica da generalidade da população. E somente a erradicação dessa condição de escravidão das mulheres trabalhadoras possibilita o acesso pleno aos direitos democráticos.

As mulheres e o socialismo

A Revolução Russa de 1917 deu-se num período de guerra mundial, cuja irrupção gerou um fluxo de mulheres para as fábricas, para substituir os homens que se tinham deslocado para as fileiras da guerra. As longas jornadas de trabalho e o fardo do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos eram ainda acompanhados de filas demoradas para a aquisição de pão.

“Pão e paz” foi uma das principais reivindicações das mulheres que abandonaram as fábricas — e dos homens que as acompanharam — no dia 8 de Março (segundo o actual calendário) de 1917, após tentativas do regime czarista de suspender as manifestações do Dia da Mulher Trabalhadora. Esse momento abriu caminho para o derrube do sistema capitalista. Após um período de exílio, Kollontai voltou à Rússia como uma das oradoras mais populares do Partido Bolchevique, e esteve envolvida na organização e mobilização das mulheres trabalhadoras das lavandarias de Petrogrado — que faziam turnos diários de 14 horas sob condições de trabalho miseráveis.

Com a insurreição de Outubro, foi estabelecido um Estado operário sob controlo democrático dos trabalhadores, através de órgãos denominados de Sovietes (conselhos de trabalhadores). Kollontai é eleita Comissária do Povo para os Assuntos de Bem-Estar Social ainda em Outubro de 1917, no II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, e membro do Comité Executivo do Partido Bolchevique em Dezembro. Anteriormente, tinha sido já eleita membro do Comité Executivo do Soviete de Petrogrado e do Comité Central do Partido Bolchevique.

Alexandra Kollontai esteve imediatamente envolvida no esboço de legislação e de decretos que serviram para melhorar a condição da mulher, no sentido da igualdade cívica, legal e eleitoral. A Revolução Russa permitiu a aprovação do princípio do salário igual por trabalho igual e um conjunto de leis para proteger a mulher nos locais de trabalho, incluindo licenças pagas de maternidade durante 16 semanas; a introdução de uma nova lei do casamento que substituía o casamento por igreja pelo casamento civil e atribuía um papel activo da mulher na escolha do seu apelido e no processo de divórcio; a legalização do aborto (no ano de 1920).

No ano de 1919, foi fundada uma secção de mulheres do Partido Comunista, designada Zhenotdel. Kollontai assumiu a sua direcção no ano seguinte, após a morte de Inessa Armand. A tarefa central deste departamento era mobilizar as mulheres na defesa da revolução e contra os avanços das forças da reacção que defendiam o recuo das conquistas das mulheres e trabalhadores já alcançadas sob governo soviético. Essa tarefa esbarrou com inúmeros obstáculos, incluindo os altos níveis de iliteracia na Rússia e fortes influências religiosas conservadoras sobre os valores da maioria da população.

Os membros do departamento Zhenotdel viajavam recorrentemente pelo território russo, construindo secções locais, organizando discussões políticas, informando e educando as mulheres sobre os seus novos direitos e sobre o seu papel na construção do socialismo. Kollontai participou activamente neste processo de transformação da moral e da cultura, necessário para combater o passado de opressão e violência sobre as mulheres e para permitir que as conquistas que se abriram através da transformação das relações económicas e de propriedade na sociedade russa fossem usufruídas no seu máximo potencial de emancipação.

A actualidade do Dia da Mulher Trabalhadora

A história do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora é uma história de luta socialista e revolucionária, das mulheres e homens trabalhadores. Desde as marchas de mulheres dos Estados Unidos da América por salários dignos e direitos de votos nos anos de 1908 e 1909, à greve de mulheres na Rússia em 1917, às manifestações por todo o mundo que levantam todos os anos bandeiras pela libertação económica e social da mulher.

O modo de produção capitalista encontra-se hoje num impasse. O actual panorama de profunda crise económica mundial bloqueia progressos relativos aos direitos e condições de vida da mulher trabalhadora. Por todo o mundo assistimos a recuos relativos à desigualdade salarial e à dependência económica, a casos de violência e assédio, a aumentos dos níveis de desemprego e precariedade, à perda de direitos reprodutivos, às dificuldades de acesso aos cuidados de saúde, às jornadas de trabalho doméstico não-remunerado, à pobreza e à miséria.

O Socialismo Revolucionário solidariza-se com quem sai à rua no Dia Internacional da Mulher Trabalhadora exigindo o fim de qualquer forma de discriminação e opressão da mulher. Reflectindo sobre o exemplo e as lições da Revolução Russa, e reconhecendo as importantes contribuições teóricas e práticas de Alexandra Kollontai, é evidente a necessidade de abolir o actual sistema capitalista — a exploração do homem pelo homem — para abolir igualmente todas as formas de opressão sobre as quais assenta e para construir uma sociedade onde as mulheres sejam realmente livres!

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