Capitalismo europeu “fragilizado pelos recentes eventos”

Relatório da discussão sobre a Europa na reunião do Comité Executivo Internacional do CIT em Novembro de 2016

Kevin Henry, Socialist Party (CIT na Irlanda)

Tradução de Bruno Penha

Ao introduzir a sessão sobre a Europa na reunião do Comité Executivo Internacional do CIT, Tony Saunois disse que desde o Congresso Mundial do CIT em Janeiro, os líderes capitalistas mundiais e europeus têm sido “maltratados por eventos”, em particular o Brexit e a eleição de Trump nos EUA. Esta afirmação situa-se no contexto de “crescimento lento” por todas as economias da União Europeia com países como a Grécia ou a Espanha a experienciarem continuadas “características de depressão”. Cada vez é mais comum pela Europa o crescimento de trabalhos de natureza precária — incluindo os chamados “gig economy” e trabalhos a recibos verdes que afectam jovens trabalhadores em particular. Contudo, isto tem vindo a tornar-se cada vez mais a norma, incluindo em profissões que têm sido considerados mais seguros no passado.

Tony disse que “os líderes da UE estão cambaleantes e a classe dominante britânica está atordoada como resultado do Brexit. Muitos nos média e na esquerda concluíram que o voto a favor do Brexit era um voto racista que marcava uma viragem à direita entre as pessoas de classe trabalhadora. O sector mais consciente dos Tories e a classe dominante retiraram a mesma conclusão que o CIT, de que o voto a favor do Brexit era principalmente sobre classe — e reflectia a crescente alienação e raiva em relação à crescente desigualdade. Esta conclusão verifica-se na nova linguagem da Primeira Ministra Theresa May, que tem tentado redefinir o partido Tory como um partido que vai tomar conta da classe trabalhadora.

Na discussão, Hannah Sell mencionou aquele outro importante desenvolvimento na Grã-Bretanha que tem implicações pela Europa: o golpe contra Corbyn e a sua re-eleição. Hannah disse que a segunda onda de pessoas a juntar-se ao Partido Trabalhista em defesa de Corbyn eram maioritariamente da classe trabalhadora.

Os Blairistas têm tentado posicionar-se como a força que defende a União Europeia — mas não conseguem encontrar uma base social forte onde se apoiar. Hannah enfatizou o facto de que, deste modo, Corbyn cometeu um erro em não manter a sua posição histórica de oposição aos “patrões” da UE. Desde o referendo, Corbyn defendeu o voto a favor do Brexit e apresentou um programa positivo que defende um Brexit do interesse das pessoas de classe trabalhadora — apesar de haver divisão do partido trabalhista em relação a esta matéria. Seria um erro recuar com esta posição.

O Brexit também ameaça ser o primeiro de uma série de reveses significativos que aumentam a hipótese de fragmentação da UE. A 3 de Dezembro, o governo italiano perdeu o referendo sobre as reformas do senado. Como Christine da Itália explicou na discussão, Renzi não acertou nos cálculos deste referendo ao defender que um voto contra o referendo era um “voto contra mim”. Há dois anos, Renzi foi apresentado como uma lufada de ar fresco para a política italiana mas, como explicou a Christina, a única coisa que mudou nestes dois anos foi que “nada mudou”. A crise continua na Itália com um GDP 9% abaixo do valor de 2007, e mesmo mais baixo do que aquele de 1992. O FMI acredita que vai levar até 2025 para se chegar novamente ao nível de 2007. Isto no contexto de aumento de apoio ao movimento “5 estrelas”, que ganhou as câmaras de Turim e Roma. Para além da crise política, a Itália tem também elevados níveis de dívida, o que poderá levar a uma corrida aos bancos “maus”.

Crise da social-democracia

A situação que ambos Renzi e os Blairistas enfrentam é comum aos social-democratas de toda a Europa. Devido à crise política e à vontade destes partidos de servir os interesses do capitalismo, o seu apoio político entre os trabalhadores e jovens tem vindo a decrescer. Tony esclareceu a gravidade desta crise, com o PASOK na Grécia actualmente com 5% de intenção de votos segundo as sondagens, o Partido Trabalhista dos Países Baixos com 11%, o Partido Trabalhista da Irlanda com 5% e o presidente francês, do Partido Socialista, com 4% de aprovação. A crise afectou também o PSOE no Estado espanhol. Na Áustria, o partido tradicional da ala direita foi reduzido a 19% e na Irlanda (onde os dois partidos tradicionais da ala direita comandaram entre si uma maioria esmagadora no passado), o Fine Gael, vê-se agora dependente do apoio de Fianna Gail de forma a manter-se no governo.

A reunião do CEI beneficiou da presença de representantes da Izquierda Revolucionaria do Estado espanhol. Juan Ignacio Ramos falou sobre o alto nível de concordância na análise e programa entre as nossas organizações. Ele explicou que existe uma “crise de todos os partidos tradicionais” no Estado espanhol devido aos momentos convulsivos da classe trabalhadora. Isto é, no contexto de contínua crise económica, que teve 27% de desemprego e 52% de desemprego jovem no seu pico. Ele disse que discordava com os auto-denominados marxistas que defendem que não irá haver nenhum retorno à luta de classes enquanto não houver crescimento na economia.  Ele disse que o eventos dos últimos anos não corroboram este argumento — com trabalhadores e jovens preparando-se para a luta industrial  através de greves gerais e para a luta política através do crescimento e suporte do Podemos, e importantes lutas dos jovens como o movimento indignados e greves em massa de estudantes.

Esperanças na Europa de Leste

Vlad, representando um novo grupo de apoiantes do CIT na Roménia, explicou que no início dos anos 1990 muita gente apoiava a ideia da “democracia capitalista liberal” na Roménia e por todo o antigo Bloco de Leste. No entanto esses países são hoje dominados por governos da ala direita e a população sofre pobreza massiva. Para a população da Roménia, de 22 milhões, isto traduz-se em 3 milhões forçados a emigrar e os que ficam a receber cinco vezes menos do que o salário média da UE. Enquanto isso forças à direita tem tentado incrementar ideias reaccionárias contra pessoas LGBT, ajudados pelos social-democratas que apoiam uma emenda à constituição para banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Forças da ala direita pela Europa de Leste fora e além vão tentar aumentar a divisão entre pessoas da classe trabalhadora – atacando imigrantes, mulheres e pessoas LGBT. Contudo serão confrontados com a oposição de uma nova geração preparada para lutar pela defesa dos seus direitos. A experiência da Polónia, uma enorme greve das mulheres contra os ataques aos seus direitos – brandindo cartazes onde se podia ler “este governo será derrubado pelas mulheres polacas em fúria” – demonstra-o bem. Como Kacper da Polónia explicou, esta greve teve um efeito noutros trabalhadores incluindo trabalhadores de saúde, mineiros e professores.

Os perigos da direita populista

A debilidade dos partidos capitalistas tradicionais e particularmente a crise da social-democracia está a criar um vácuo político massivo na Europa. Cada vez mais existe o perigo de forças populistas e de extrema direita preencherem esse vácuo. Na Áustria, o FPO da extrema direita saiu fortalecido na recentes eleições presidenciais e na Alemanha a nova direita populista AfD tem tido bons números nas sondagens e eleições. Tony referiu que em parte isto se deve ao facto destes partidos estarem a “roubar a linguagem da esquerda” ao falar sobre a classe trabalhadora e de oposição às elites. Este contexto permite o crescimento de grupos fascistas. Jonas da Suécia explicou como 600 nazis marcharam em Estocolmo. Ao mesmo tempo houve lutas importantes em alguns países escandinavos, incluindo a Islândia onde o movimento se desenvolveu em resposta aos “Panama Papers” que expuseram os níveis profundos de corrupção que existem na Islândia e em muitos outros países capitalistas.

Na França, o crescimento da Frente Nacional coloca sérios desafios ao establishment mas também ao movimento dos trabalhadores. Le Pen continua com um discurso demagógico junto das pessoas de classe trabalhadora, o que faz com que outras forças partidárias tenham virado à direita. François Fillon, o candidato da direita das eleições presidenciais está a concorrer com um programa neoliberal que põe em causa meio milhão de postos de trabalho e é associado a alguns dos piores ataques aos direitos dos trabalhadores de sempre, incluindo como Primeiro Ministro de Sarkozy. Entretanto à esquerda Jean-Luc Mélenchon, que lançou um novo movimento, “France Insoumise” [França Insubmissa], tem vindo a ter melhores resultados do que Hollande nas sondagens. Pelo meio tem-se assistido a uma série de greves industriais – 100 por semana – e movimentos de jovens, como o Nuit Debout, que têm combatido reformas laborais.

As novas formações de esquerda

Uma discussão rica e profunda teve lugar sobre a questão das novas formações da esquerda que emergiram em boa parte devido à crise política do capitalismo. O Podemos em Espanha e o Bloco de Esquerda em Portugal representam um importante passo em frente, expressando a luta de classes e a viragem à esquerda de massas conscientes do impacto da crise.

Contudo, como o CIT previu, estes partidos não são meras cópias dos velhos partidos reformistas ou social-democratas, havendo a necessidade de marxistas discutirem sobre e perceberem estas formações. Estas têm a tendência de passar por crises pouco depois da sua formação e a sua liderança tem vacilado entre viragens à esquerda ou à direita. Na sua introdução, Tony explica que dentro destas formações voláteis, que até agora ainda não se tornaram partidos de trabalhadores de massa no seu sentido mais lato, elementos do “populismo de esquerda” têm estado presentes. Esta análise foi debatida com camaradas do Secretariado Internacional, Espanha, Alemanha, Grécia e outros.

Juan Ignacio Ramos explicou que a mudança à esquerda recente e repentina dos discursos e retórica de Pablo Iglesias, o líder do Podemos, se deve tanto à pressão das bases como à ameaça à sua liderança pela direita do Podemos, liderada por Iñigo Errejón. As grandes greves de estudantes espanhóis, organizadas e lideradas pelo Sindicato de Estudiantes, levaram a uma grande e significativa vitória contra o novo governo do PP. A nova fase da luta no Estado espanhol terá um grande impacto pelo resto da Europa durante os próximos tempos.

Grécia

O preço a pagar pela ausência de um programa socialista de luta é grande. Esta traduz-se na capitulação do Syriza na Grécia, responsável agora pela implementação de austeridade. Andros, da Grécia, explicou que isto foi um grande choque para a classe trabalhadora grega — que heroicamente lutou, industrial e politicamente, contra a austeridade apenas para sofrer uma traição. Explica ainda que “as melhores notícias do ano para as pessoas de classe trabalhadora vieram de fora”, incluindo as novidades de que o Reino Unido tinha votado para deixar a UE, o que pode reconstruir a confiança da classe trabalhadora de que pode sair da EU e do Euro. O Syriza perdeu as suas bases de apoio e a Nova Democracia lidera agora as sondagens. É provável que a Grécia precise de um novo resgate e não é de descurar que, apesar de tudo, esta seja forçada a sair da Zona Euro.

Nikos Anastasiadis, da Grécia, também explicou como a maioria das organizações de esquerda do país enfrentam crises. Ele explica a surreal experiência de uma conferência recente do Syriza onde os seus membros cantavam “Na prisão e no exília comunistas nunca se rendem” — apesar de ter sido precisamente isso que fizeram em 2015. Organizações como a ANTARSYA, que pensavam que iam crescer graças à traição do Syriza, acabaram por, tal como este, sofrer cisões ou, no caso do Partido Comunista (KKE), perder apoio. Nikos sublinhou que a ala esquerda da cisão do Syriza, a União Popular, não aprende as lições da sua capitulação, agindo tal e qual como o “Syriza de antes”. Reivindicam uma saída do Euro e da UE mas falham em ligar isso com o programa socialista, necessário para mobilizar trabalhadores e superar o seu medo dos efeitos dessa saída. Apesar da instabilidade da esquerda grega, o Xekinima (CIT da Grécia) tem sido capaz de manter o seu tamanho e tem tido um papel importante em greves, como a dos trabalhadores dos autocarros em Atenas, que têm estado a exigir os salários que lhes são devidos.

Gonçalo Romeiro, de Portugal, mencionou as complicações enfrentadas pela esquerda, onde o Partido Socialista, apoiado pelo Bloco de Esquerda e Partido Comunista congelou a austeridade temporariamente. A este género de medidas se deve o seu fortalecimento nas sondagens, à custa dos partidos que o apoiam. É importante que políticas socialistas arrojadas sejam propostas de maneira a ganhar apoio. Infelizmente, não tem sido essa a abordagem dos líderes do Bloco de Esquerda, que se têm dedicado antes à caça às bruxas de membros do CIT no Bloco de Esquerda.

Vários outros camaradas do Estado espanhol, Escócia e Irlanda falaram dos desenvolvimentos da questão nacional nos seus países, no caso destes dois últimos agudizada devido ao Brexit. O Partido Nacional Escocês, que pretende manter a Escócia na UE, virou à direita, atacando sindicalistas em greve. Ao mesmo tempo, um terço dos seus eleitores votou para deixar a UE e esta abordagem arrisca-se a alienar a classe trabalhadora que votou a favor da independência.

Crise e turbulência

Ao resumir a discussão, Niall Mulholland do Secretariado Internacional do CIT sublinhou que o bloco da UE, que tem tido um crescimento lento, pode agora voltar à recessão. A situação em geral pode ser caracterizada como de crise e turbulência. A eleição de Trump pode ter um efeito nas relações entre os EUA e a UE, resultando num maior proteccionismo. Segundo Niall a retórica de Trump em relação à NATO pode aumentar a militarização da UE. Como o CIT defende, a crise de 2008/2009 não é de cariz temporário mas é uma crise estrutural do capitalismo. Está a minar o apoio tanto dos sociais democratas como da direita tradicional. Perante esta situação, novas forças podem emergir e ser testadas. A tarefa dos marxistas é construir organizações políticas da classe trabalhadora — fortes o suficiente para transformar a sociedade e descobrir uma saída para esta crise.

Em muitos sentidos, a situação na Europa pode ser resumida pelas palavras do marxista italiano Antonio Gramsci: “A crise consiste precisamente no facto de que o velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno aparece uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Neste momento é mais importante do que nunca fazer uma análise marxista dos processo da sociedade mas o Comité por uma Internacional dos Trabalhadores não fará apenas de comentador passivo. Na Grécia, Alemanha e Irlanda, onde três membros do Partido Socialista são deputados, temos um papel importante na luta pelos direitos ao aborto, nas lutas industriais e ainda em enfrentar um caso de tribunal importante em que Paul Murphy, juntamente com outros socialistas e pessoas da classe trabalhadora, enfrentam julgamento pelo crime de terem liderado uma batalha bem sucedida contra as taxas de água. No Estado espanhol a Izquierda Revolucionaria tem jogado o papel crucial na recente vitória dos estudantes. Estes exemplos mostram o potencial em construir partidos marxistas neste período.

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2 pensamentos sobre “Capitalismo europeu “fragilizado pelos recentes eventos”

  1. Vocês deveriam assumir posições de liderança no BE. O BE neste momento está descaracterizado e vendido ao Capitalismo. e é dirigido por burgueses que nada farão em prol da Revolução.

    fg

  2. O BE o quê???!!!!
    Assim, sem mais nada? Não será um novo sector do BE? Uma parte do BE? Não se estará a confundir a nuvem com Juno?

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