Um esforço crescente para “resgatar” o Partido Democrata

Calvin Priest, Socialist Alternative, CIT nos EUA, 4 de Janeiro de 2016

Traduzido por Minerva Martins

Um debate significativo está a abrir-se entre trabalhadores e juventude sobre como derrotar Trump e lutar por políticas genuinamente progressistas. Reuniões lotadas com milhares de pessoas, incluindo várias organizadas pelo Socialist Alternative, estão a decorrer pelos Estados Unidos da América.

Uma ideia comum é a de que devemos combinar a construção de um movimento contra Trump com um esforço determinado para “resgatar” o Partido Democrata e fazer desse um instrumento que represente os interesses das pessoas comuns ao invés de Wall Street. Este é o argumento de Bernie Sanders e do seu grupo Our Revolution, assim como dos elementos dominantes dos Democratic Socialists of America.

Dadas as divisões que emergiram no Partido Democrata devido à sua incrível incapacidade para derrotar o odioso Trump, é compreensível que muitos tenham sido atraídos para esta perspectiva. Mais do que em qualquer momento dos últimos 40 anos, a liderança “centrista” neoliberal do partido adoptou uma posição defensiva. A posição de Sanders e da Senadora Elizabeth Warren têm sido reforçada. O líder da minoria democrata do Senado, Chuck Schemer, chegou a responder a exigências crescentes para a mudança apoiando o candidato Keith Ellison (co-presidente do Congressional Progressive Caucus) para liderar o Comité Nacional Democrata e atribuindo a Sanders, um independente de longa data, um papel menor na liderança do partido.

Mas ao mesmo tempo, a ala dominante do partido está a recuar face a qualquer possibilidade de retirar lições ou de responder ao descontentamento massivo contra políticas corporativas. Tal é exemplificado pela rejeição inacreditável da líder da minoria da Casa Democrata Nancy Pelosi  de fazer um balanço: “Eu não penso que as pessoas queiram uma nova direcção” (RealClearPolitics.com, 12/4/2016).

A campanha de Ellison está a encontrar oposição na Casa Branca de Obama e nos principais líderes democratas. A corrida está agora a mudar de rumo, com o Secretário do Trabalho Tom Perez  a ser considerado uma alternativa segura do establishment e com a forte possibilidade de se tornar um novo favorito. Se Ellison for derrotada, as três posições centrais da liderança do partido continuarão a ser preenchidas pelos democratas do establishment.

A questão do carácter do Partido Democrata foi colocada de forma evidente pela campanha histórica de Sanders no início de 2016, tendo sido acompanhada por uma resistência feroz. Um total de 40 Senadores democratas opuseram-se a Sanders, enquanto apenas um o apoiou. O caso dos Wikileaks revelou a extensão da preparação dos líderes do partido para parar a campanha pró-classe trabalhadora de Sanders.

Defendemos a mais ampla unidade de forças numa acção comum contra os ataques de Trump. Mas discordamos profundamente da visão de que o Partido Democrata poderá surgir como um instrumento dos trabalhadores. Há uma ideia errada, promovida por alguma esquerda, de que os democratas já chegaram a representar os interesses da classe trabalhadora. Essa nunca foi a realidade. As políticas progressistas atribuídas a líderes como Franklin Roosevelt e Lyndon Johnson foram, de facto, concessões às exigências de fortes movimentos laborais e sociais. Roosevelt defendeu as suas célebres políticas New Deal como necessidade de impedir rebeliões mais violentos de trabalhadores, afirmando que era “o maior amigo que o capitalismo americano alguma vez teve”. Johnson, preocupado com a crescente revolta durante o seu mandato, cedeu às enormes pressões do Movimento pelos Direitos Civis.

É verdade que o partido se deslocou ainda mais para a direita durante as décadas de 1980 e 1990, mas tal reflectiu as necessidades do capitalismo num novo período, de mudança para políticas neoliberais no sentido de restaurar os lucros corporativos.

O Partido Democrata está amarrado por milhares de fios aos grandes negócios de Wall Street. Enquanto muitos argumentam que o actual enquadramento do partido é privilegiado e torna a reforma mais acessível que o lançamento de um novo partido, a verdade é precisamente o contrário. As estruturas existentes do Partido Democrata serão utilizadas como armas contra forças progressistas reformistas como Our Revolution, como já foi evidenciado durante o período de eleições. Para ter até a mínima oportunidade de desafiar seriamente a liderança democrata, Our Revolution e outros grupos semelhantes teriam que ter um carácter de activismo de base, como grupos locais e formas de tomada de decisão democráticas, em vez do actual modelo de cima para baixo. Mas essa mudança apontaria, na realidade, para a construção de um novo partido.

Como Sanders disse correctamente nos debates, não é possível servir em simultâneo os interesses de Wall Street e da classe trabalhadora. Um partido que defende os 99% deve avançar para uma agenda ambiciosa anti-corporativista e pró-classe trabalhadora, e deve ainda estar preparado para acolher o desdém da classe multimilionária. Seria necessário exigir dos seus representantes eleitos a recusa de qualquer doação corporativa, aceitando apenas um rendimento médio dos seus constituintes, como é o caso da vereadora socialista de Seattle, Kshama Sawant. A maior parte dos dirigentes democratas eleitos escolheriam sair do partido para não aceitar essa situação.

É por isso que continuaremos a defender um novo partido dos 99%. Ao mesmo tempo que não duvidamos de que muitas pessoas irão lutar para reformar o Partido Democrata no próximo período com as melhores das intenções, a liderança corrupta do partido irá bloquear qualquer uma dessas tentativas com todos os meios necessários, no sentido de defender os interesses dos seus aliados das grandes corporações. Isto levará os melhores trabalhadores e activistas a compreender a necessidade de construir o seu próprio partido, independente de toda a influência e dinheiro corporativos.

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