Trump ataca os imigrantes — lições do movimento de 2006

Posted on 28 de Novembro de 2016 por

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2006mayday

Erin Brightwell, Socialist Alterntive – CIT nos EUA

O ataque aos trabalhadores imigrantes com linguagem racista e a promessa de construir um muro ao longo da fronteira foram dos principais marcos da campanha de Donald Trump. O presidente eleito ameaça agora iniciar um processo de deportações em massa nos seus primeiros 100 dias de mandato. No seu “Contrato com os eleitores americanos” lê-se:

Cancelar todo o financiamento federal às cidades santuário [cidades que albergam imigrantes sem documentos]

Remover os mais de 2 milhões de imigrantes criminosos e ilegais do país e cancelar vistos aos países que se recusarem a recebê-los de volta.

Suspender imigração das regiões que estão propensas ao terror e onde a verificação não pode ocorrer de forma segura. Toda a verificação de pessoas que entram no país será considerada “extreme vetting”, ou seja, proibição total de entrada.

Trump ameaçou também cancelar o DACA, programa que a administração Obama implementou para evitar que as 750 000 pessoas que vieram para os E.U.A quando ainda eram crianças sejam deportadas.

Não é a primeira vez que a direita ataca os imigrantes com esta violência. Em 2005, durante a administração Bush, o decreto H.R.4437 (“Lei de Protecção das Fronteiras, Anti-terrorismo e Controlo da Imigração Ilegal de 2005”) passou numa Câmara dos Representantes dominada pelo partido republicano. Este decreto continha uma panóplia de medidas reaccionárias que visavam os imigrantes, incluindo a militarização da fronteira, a criminalização dos migrantes sem documentos e qualquer um que os tenha ajudado, e a construção de um muro. Um verdadeiro movimento de massas surgiu em oposição e conseguiu que se tornasse politicamente impossível que o decreto H.R.4437 se concretizasse em lei. Rever como esta luta se desenvolveu é relevante para o movimento que terá de ser construído nos próximos meses para combater Trump.

Na Primavera de 2006, um sentimento de raiva contra a H.R.4437 mobilizou milhões em manifestações massivas por todo o país. Algumas das maiores marchas em Abril desse ano contaram com centenas de milhares de participantes, e dois milhões marcharam dia 10 de Abril— dia em que foi marcada uma acção nacional. Grandes organizações imigrantes, a igreja católica e DJ’s de rádios latinas envolveram-se na organização e condução destas acções, mas estes ficaram surpreendidos com o tamanho da resposta da parte da classe trabalhadora latina.

Ao desenvolver-se, o movimento tornou-se mais radical, indo além do repúdio do decreto H.R.4437. Rejeitaram o estatuto de cidadãos de segunda classe proposto por políticos corporativos que apoiavam “reformas imigrantes” e exigiram o estatuto legal imediato para todos os trabalhadores. Neste ponto, o movimento foi longe demais para o que o Partido Democrata estabeleceu como aceitável, o alegado defensor dos direitos dos imigrantes.

Quando foi feita um apelo para uma greve e boicote de 24 horas em todo o país — o chamado “dia sem imigrantes” — os elementos mais conservadores da liderança do movimento, e também os políticos democratas, tentaram pôr travões à acção.

Apesar das campanhas lançadas contra a ideia de uma greve, o 1º de Maio de 2006 foi um dia histórico e de incrível sucesso para o movimento dos trabalhadores imigrantes. Milhões juntaram-se às marchas em grandes e pequenas cidades por todo o país, estimando-se a presença de 400 000 pessoas em Los Angeles e em Chicago . Centenas de milhares de trabalhadores fizeram greve e paralisaram sectores importantes da economia, e o porto de Los Angeles esteve fechado. Ao construir e levar a cabo a primeira greve política nacional em décadas, o movimento pelos direitos dos trabalhadores imigrantes fez renascer o 1º de Maio como o dia internacional dos trabalhadores nos E.U.A.

O movimento de massas de 2006 não só parou o H.R.4437, como também ajudou a combater as atitudes mais anti-imigrantes da sociedade americana. Todavia, não sucedeu em ganhar os “direitos iguais para todos os trabalhadores”, que era uma das suas principais exigências. Mas a maior classe trabalhadora nativa não tomou posições em solidariedade com o movimento, apesar da simpatia de muitos. Isto permitiu que a classe dominante conseguisse isolar, desgastar, e finalmente reprimir violentamente o movimento — particularmente com deportações em massa direccionadas a trabalhadores latinos que se estavam a sindicalizar, como aconteceu na indústria do processamento de carnes.

Hoje, depois de oito anos de reformas promissoras da administração Obama, mas ao mesmo tempo apoiando deportações a uma escala nunca antes vista, as comunidades imigrantes enfrentam a possibilidade do aumento da repressão durante o mandato de Trump. Os planos para a imigração do presidente eleito relembram o decreto H.R.4437. Tal como a câmara dos republicanos em 2005, Trump procura atacar os trabalhadores imigrantes para desviar o descontentamento causado pela falha do capitalismo em criar trabalho decente para milhões de trabalhadores.

Desta vez, Trump terá de se confrontar com uma resistência em massa, onde o movimento laboral terá de ter um papel decisivo ao lado das comunidades atacadas pela agenda do presidente eleito. Pessoas de cor, mulheres, pessoas LGBT, imigrantes, a classe trabalhadora e a juventude correm grandes riscos com um congresso controlado por republicanos e uma administração Trump. Só a máxima união e vontade para usar um conjunto de tácticas — incluindo desobediência civil e greves —, será suficiente para parar Trump. Não se pode, de nenhuma forma, confiar no Partido Democrata ou qualquer outra secção do establishment corporativo. Os Democratas, como em 2005, irão opôr-se à única estratégia que poderá funcionar: mobilizações em massa da classe trabalhadora. Mas, se os nossos movimentos conseguirem derrotar esta parte central da agenda de Trump, poderemos forçá-lo a recuar e paralisar o ataque da direita.

Posted in: EUA, História, Racismo