Pedido de formalização da tendência Socialismo Revolucionário no Bloco Esquerda

Posted on 23 de Novembro de 2016 por

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O Socialismo Revolucionário (SR) é um pequeno colectivo marxista que publica a revista A Centelha.

Entendendo, tal como afirma o documento fundador do Bloco de Esquerda, “Começar de Novo”, que é “indispensável, nos diferentes países e em Portugal, fazer convergir as vontades que tenham a coragem de afirmar o primado de uma resposta política democrática ao desafio que a globalização lança à Humanidade”, o SR está internacionalmente organizado e foi reconhecido como secção portuguesa do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) em Janeiro deste ano.

Hoje, já como secção oficial do CIT, o SR é orientado para a participação em partidos e movimentos amplos e democráticos da esquerda, isto é, para as organizações que realmente fazem convergir as vontades de uma resposta política verdadeiramente democrática. Assim, como exemplos, podemos mencionar a secção alemã do CIT — Sozialistische Alternative —, integrada como tendência no Die Linke, ou a secção brasileira — Liberdade Socialismo e Revolução —, que funciona igualmente como tendência interna do PSOL e participou na sua fundação.

Em Portugal, há dois grandes partidos de esquerda: o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE). O primeiro, com sérias e reconhecidas deficiências democráticas herdadas de métodos de organização estalinistas, não permite a existência de tendências. De facto, exactamente como refere novamente o documento fundador do BE, o SR julga que o “PCP é portador de um activo necessário à sociedade portuguesa, mas ele não é condição bastante para corporizar uma nova esperança ou sequer recuperar a influência que já teve e perdeu.”

É no BE que o CIT entende existirem condições para dar a sua contribuição à luta contra a exploração e a opressão, à construção de uma alternativa ao capitalismo — aquilo a que chamamos socialismo.

O BE apresenta, no documento fundador já citado, vários pontos. O SR não só concorda com todos esses pontos como, de forma mais determinante, concorda com o tipo de organização que o BE se compromete a ser, “uma esquerda popular, plural, combativa e influente”. Sozinha, qualquer uma das correntes políticas actualmente integradas no BE é incapaz de cumprir esta tarefa. Mas as diferentes correntes de pensamento político, das reformistas às revolucionárias, federadas num movimento democrático, capazes de atrair para si cada vez mais vastas camadas da classe trabalhadora e dos grupos oprimidos, são de facto capazes de enfrentar os desafios da nossa época. E se, para isso, “formalmente”, o movimento “será um partido para se poder apresentar aos actos eleitorais”, diz-nos já o documento fundador do BE que “na realidade é de um movimento que se trata, capaz de suscitar, pelas suas propostas, a adesão de quantos nelas se reconheçam e de associar a si o apoio e empenhamento de correntes organizadas de intervenção política ou social e de múltiplas outras opiniões”. Até porque só assim podemos “romper com o rotativismo ao centro que envenena a vida política portuguesa.”

Esta é, de facto, a única forma de combater o capital! É também neste sentido que o Socialist Party secção do CIT em Inglaterra e País de Gales apoia Jeremy Corbyn como líder do Labour Party e apela a que esse partido adopte um funcionamento democrático e federativo tal como aquele que presidiu à sua fundação e que se manteve durante todo o período pós-guerra até à expulsão da ala esquerda e à ascensão do blairismo — i.e., à supressão da democracia interna.

A unidade dos explorados e oprimidos, é importante sublinhar, é mantida respeitando “os limites que cada um encerrará”, até porque só assim é possível “abrir o diálogo político e cultural à esquerda e dar-lhe continuidade”, algo que, tal como o BE, julgamos ser indispensável. Uma união que suprime a diferença e a discordância é uma união estática, não um movimento. A História da luta de classes e da luta contra todas as formas de opressão é a História do surgimento e crescente diferenciação de correntes políticas. Sabemos que o “Bloco assume as grandes tradições da luta popular no país e aprende com outras experiências e desafios; renova a herança do socialismo e inclui as contribuições convergentes de diversos cidadãos, forças e movimentos que ao longo dos anos se comprometeram com a busca de alternativas ao capitalismo”. Por isso sabemos desde já que seremos bem recebidos precisamente na medida em que trazemos uma parte dessas grandes tradições, e uma parte que, até este ano, não se encontrava oficialmente representada em Portugal.

Em boa verdade, não fazemos mais do que responder afirmativamente ao convite que o BE lançou há quase duas décadas, quando os signatários do documento que citamos afirmaram:

“Os signatários, cidadãos com distintos percursos cívicos e políticos, com ou sem partido, tornam pública a presente Declaração e convocam quantos nela se reconheçam a tomar em mãos a construção de um novo movimento capaz de se constituir como alternativa na política nacional (…) A última conclusão é também um compromisso dos signatários: chegou a hora de convocar quantos partilham o essencial destes pontos de vista para uma nova iniciativa política, um Bloco de Esquerda capaz de ser portador de propostas fortes e se assuma como sinal de esperança.”

Nós, SR, queremos tomar em mãos a construção dessa alternativa. Fá-lo-emos sempre cientes das diferenças que temos com as restantes correntes, procurando enriquecer as nossas posições na discussão política frontal e honesta com essas correntes, como fazem as restantes secções do CIT nos partidos e movimentos nos quais participam.

Nesse sentido a secção portuguesa declara com esta carta o seu desejo de formar-se como tendência oficial do BE, e pede, como prevêem os estatutos, a aprovação da Mesa Nacional do partido.