Eu e o BE – Razões de um regresso

Posted on 23 de Novembro de 2016 por

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Texto do camarada Francisco d’Oliveira Raposo originalmente publicado no seu blog pessoal Coisas de Vida, Pedaço de Mundo…

Apresentei recentemente um pedido de refiliação no Bloco de Esquerda.

Participei no BE desde a sua fundação, declarando desde o início a minha filiação no Comité por uma Internacional dos Trabalhadores e dinamizando nessa altura publicações que expressavam essas posições.

Tive, aliás, a oportunidade de declarar a minha filiação ao CIT na Convenção que me elegeu membro da Mesa Nacional, órgão que integrei durante 2 mandatos.

Desfiliei-me no 1º semestre de 2007, durante o 1º governo de José Sócrates. Passaram-se, portanto, 9 anos desde a minha saída, o que, em política, é um período substancial.

Na altura da minha desvinculação apresentei os meus motivos, que podem ser consultados em https://socialismohoje.wordpress.com/2007/06/06/algumas-razoes-da-saida-do-bloco-de-esquerda/ que não obtiveram qualquer tipo de resposta da Mesa Nacional indicando os eventuais erros da minha análise política.

Ora vários companheiros do BE, do PC ou sem partido, têm vindo a questionar as razões da minha vontade de regressar ao BE.  São questões pertinentes que procurarei neste texto esclarecer.

Desde há muito tempo que tenho defendido a necessidade de a Esquerda, — leia-se, o BE e o PCP, a CGTP, sindicatos combativos e os movimentos sociais — com base num programa comum, desenvolverem uma política que desafie a base do sistema de exploração do homem pelo homem que rege a nossa sociedade, uma política que supere revolucionariamente o capitalismo. Por outras palavras, a Democracia Socialista.

Defendi essa tese, desde sempre no BE e fora dele, de forma oral e escrita, enquanto militante do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores.

Após a minha saída do BE, participei em muitas acções políticas ao lado do BE e dos seus militantes, expressando, naturalmente, as críticas que considerava oportunas e as minhas divergênciascom a Direcção do BE.

Por exemplo, condenei veementemente — com muitos outros, inclusive activistas do BE, a decisão da MN de suportar a 2ª candidatura presidencial de Manuel Alegre, que continuo a considerar um grave erro político que enfraqueceu a possibilidade de uma alternativa clara à Esquerda.

Também expressei o meu desapontamento com a projecção dada a uma visão de sindicalismo de conciliação de classes em detrimento do trabalho de décadas desenvolvido, entre outros por vários dirigentes sindicais do BE, no campo de uma sindicalismo de classe, democrático e combativo.

Ao longo destes anos, os naturais rearranjos, evolução de pensamento e prática, foram sido desenvolvidos.

No último período, o BE conseguiu ser pólo de atracção de novas camadas de activistas, especialmente jovens, em busca de alternativa política quer ao governo quer ao regime.

Por outro lado, o PC vacila entre uma maior abertura e um fechamento sectário que, em conjunto com a ligação histórica ao estalinismo e a falta de direito de tendência, objectivamente reduz a sua atractividade para os novos sectores de activistas.

Um militante revolucionário não pode ter uma atitude displicente perante estes factos.

Hoje o BE existe enquanto força plural no debate político, com sectores defendendo o que sempre defendi: a criação e desenvolvimento de fortes núcleos locais que alarguem a acção política às comunidades, locais de trabalho e estudo, alarguem a democracia interna e trabalhem unitariamente na sociedade e nos movimentos. Isto reabriu, na minha opinião, a possibilidade do BE recuperar uma dinâmica que corresponda, nesta fase, aos interesses políticos dos trabalhadores e da juventude. Para esse projecto estou disposto a contribuir!

É essa a razão fundamental, do pedido de refiliação que recentemente formulei e que agora torno público.

Francisco d’Oliveira Raposo

Ex-dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa
Membro da Direcção da Associação Habita!
Militante do Socialismo Revolucionário – Secção Portuguesa do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores