Precisamos de resistência de massas contra Trump e de um novo partido dos 99%

Posted on 17 de Novembro de 2016 por

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Uma presidência de caos e de luta

Philip Locker and Tom Crean, Socialist Alternative, CIT nos EUA

Publicamos aqui a última análise do Socialist Alternative (SA) nos EUA, após a vitória de Trump. Na noite de 9 de Novembro, o SA organizou grandes marchas e comícios por todos os EUA como uma primeira resposta à eleição de Trump. Dezenas de milhares de pessoas participaram, com poucas horas de aviso.

As pessoas nos EUA e por todo o Mundo acordaram hoje para um dos acontecimentos políticos mais chocantes de que têm memória, com a eleição de Donald Trump para Presidente. Foi o culminar de um ciclo eleitoral em que norte-americanos comuns se levantaram contra o ‘establishment’, i.e. o regime político, e contra os efeitos destrutivos da globalização e do neoliberalismo. Este sentimento foi expresso tanto à esquerda, com a campanha de Bernie Sanders que galvanizou milhões por “uma revolução política contra a classe dos bilionários”, mas também, de uma maneira distorcida, à direita com a campanha de Trump.

Mas Trump não se candidatou apenas como alegado defensor dos “homens e mulheres esquecidos” nas comunidades de classe trabalhadora. Ele também protagonizou a campanha mais chauvinista e mais intolerante dos tempos modernos por parte de um candidato dos principais partidos. Ele criou um espaço para os nacionalistas brancos e mesmo para os supremacistas brancos saírem dos seus refúgios e tentarem apelar à juventude e aos trabalhadores brancos pobres. Este é um desenvolvimento bastante perigoso.

No entanto, rejeitamos completamente a noção — recorrentemente veiculada pelos comentadores liberais, numa tentativa de esconder o falhanço monumental do Partido Democrata (DP na sigla inglesa) — de que este resultado demonstra que o grosso da classe trabalhadora branca partilha os ideais xenófobos e racistas de Trump. Na verdade, Clinton ganhou o voto popular por uma pequena margem. Trump apenas conseguiu 47,5% do total de votos, com dezenas de milhões dos norte-americanos mais pobres e oprimidos a não votar.

O voto em Trump foi, primeiramente, um voto contra Clinton e o regime; foi um voto num “agente de mudança” contra uma representante consumada do status quo corporativo. Muitos concordaram com os seus ataques ao “sistema manipulado” e às corporações que deslocalizaram postos de trabalho para o estrangeiro. O que tragicamente faltou foi uma escolha clara à esquerda que pudesse oferecer uma alternativa às ilusões do populismo de direita.

O Socialist Alternative está com os milhões de mulheres que estão enojadas com a eleição de um misógino declarado e que correctamente vêem a sua eleição como um passo atrás; com os latinos que temem que as deportações em massa de trabalhadores não documentados alcancem níveis sem precedentes; com os muçulmanos e afro-americanos que temem que o discurso de ódio de Trump incite a mais violência e ao crescimento das forças de extrema-direita.

Imediatamente, convocámos protestos em várias cidades pelo país para deixar claro que os trabalhadores e oprimidos devem estar juntos e preparar a resistência aos ataques da direita. Nas últimas 24 horas fomos inundados por pedidos de  informação sobre a nossa organização. Precisamos de começar hoje a construir uma alternativa política genuína para os 99%, contra ambos os partidos dominados pelas corporações e contra a direita, para impedirmos um novo desastre em 2020.

Um choque para a classe dominante

É preciso sublinhar que o resultado desta eleição não foi um choque apenas para as dezenas de milhões de trabalhadores progressistas, mulheres, imigrantes, não-brancos e pessoas LGBTQ, mas também — por razões diferentes — para a elite dominante dos EUA.

A maioria da classe dominante vê Trump como “impróprio para governar” a nível temperamental. É verdade que as atitudes de bully de Trump de humilhar publicamente os seus adversários e reagir a cada pequena falha com publicações condenáveis no Twitter têm mais em comum com ditadores de “estados falhados”. Nem George Bush fazia apanágio da sua ignorância em assuntos externos como Trump. A classe dominante vê a presidência de Trump como potencialmente danosa dos interesses do imperialismo norte-americano numa altura em que o seu poder global está a diminuir, particularmente no Médio Oriente e na Ásia, desafiado pela Rússia e, especialmente, pelo cada vez mais assertivo imperialismo da China.

A classe dominante está contra a rejeição feroz de Trump aos tratados de comércio livre e à doutrina económica capitalista dominante nos últimos quarenta anos. Mas a verdade é que a globalização estagnou. O seu motor comercial está a inverter a marcha. O voto em Trump tem, por isso, alguns paralelos com o recente voto Brexit na Grã-Bretanha para a saída da União Europeia, que foi também um reflexo da rejeição massiva da globalização e do neoliberalismo pela classe trabalhadora britânica.

A classe dominante teme ainda que o racismo, xenofobia e misoginia de Trump provoquem uma reacção social nos EUA. Nisto, terão toda a razão.

A um nível mais profundo, talvez o aspecto mais chocante deste resultado para a elite dominante — incluindo administradores, políticos do regime e a comunicação social que os apoia — é que o bipartidarismo que tem prevalecido sobre a sua forma de dominar a política nacional está caduca. Eleição após eleição, as primárias têm sido utilizadas para expulsar candidatos que não são aceitáveis aos interesses corporativos. Depois disso, o eleitorado poderia escolher entre os nomeados “aprovados”. A elite corporativa pode preferir fortemente um ao outro, mas consegue viver com ambos. As pessoas comuns estão limitadas pela escolha do “mal menor” ou então pelo voto num terceiro candidato que não tem qualquer chance de ganhar.

Tudo isto mudou em 2016. Primeiro, Bernie Sanders angariou 220 milhões de dólares sem receber um cêntimo da “América corporativa” e esteve muito perto de derrotar Hillary nas manipuladas primárias democratas. Enquanto isso, Trump foi largamente desprezado pela “grupo de doadores” republicanos, pelos dois últimos presidentes republicanos e os mais recentes nomeados republicanos rejeitaram-no publicamente de uma forma muito clara.

Cá se fazem, cá se pagam

Continua a ser impressionante que as primárias deixaram o eleitorado com uma escolha entre os candidatos dos principais partidos mais impopulares dos tempos modernos. Sondagens à boca das urnas revelaram que 61% dos eleitores eram desfavoráveis a Trump, e 54% desfavoráveis a Hillary.

Durante as primárias, o Comité Nacional Democrata fez tudo ao seu alcance para preparar o caminho para a candidata do regime, Hillary Clinton, contra Sanders, cujas sondagens colocavam-no consistentemente à frente de Trump. Isto relaciona-se directamente com o facto de que um sector significativo do eleitorado de Trump estava aberto a uma argumentação genuína de classe trabalhadora, opondo-se ao poder de Wall St. e à sua política de comércio livre, apelando a um salário mínimo de $15/hora, universidade gratuita, serviço nacional de saúde e um investimento massivo em infraestruturas ecológicas. Mas a verdade é que a liderança do DP preferia perder do que estar amarrada a um programa que respondesse às necessidades dos trabalhadores e pobres.

Infelizmente, a maioria dos dirigentes sindicais colocaram o seu apoio e milhões de dólares em Clinton durante as primárias, enquanto uma importante parte dos sindicalistas e alguns sindicatos nacionais apoiaram Sanders. Desta forma, a liderança sindical ajudou uma candidata de Wall St. contra um adversário pró-classe trabalhadora.

Clinton cambaleou até às eleições gerais como uma candidata corporativa  profundamente débil. O que recebeu mais atenção por parte dos media foi o escândalo dos emails do Departamento de Estado. Mas as contínuas revelações da Wikileaks também confirmaram em detalhe e sublinharam o retrato pintado por Sanders nas primárias: Clinton era uma serva de Wall Street que dizia uma coisa em discursos privados para banqueiros que lhe davam milhões e outra em público.

Os apologistas liberais procurarão culpar a classe trabalhadora branca, os apoiantes de Bernie ou ainda os votantes de Jill Stein pelo resultado. Mas como nós temos repetidamente denunciado, o Partido Democrata há muito que abandonou até a pretensão de defender os interesses da classe trabalhadora. Ao longo de décadas implementaram ou apoiaram sucessivas medidas neoliberais: desde  acabar com o estado social como nós o conhecemos”, expandindo o aprisionamento em massa, defendo o NAFTA e revogando Glass Steagall Act sob a administração Bill Clinton, até resgatar os bancos enquanto milhões de pessoas perdiam as suas casas sob a administração de Obama.

Depois do crash económico de 2008/2009, a esquerda deu a Obama carta branca. Os Democratas controlavam o Congresso e fizeram pouco para ajudar a classe trabalhadora na pior crise desde os anos 30. Isto abriu a porta ao Tea Party para mobilizar a oposição contra o resgate de Wall Street e a raiva contra os políticos.

Sob pressão dos 45% que apoiaram Sanders nas primárias, os Democratas adoptaram a plataforma mais à esquerda na sua convenção dos últimos 40 anos. Mas Clinton organizou a sua campanha focando solidamente a mensagem de que Trump era um perigo existencial para a República e que “America was already great” (América já era grande, em resposta ao slogan de Trump Make America great Again). Os doadores de Hillary não queriam que ela destacasse questões como o salário mínimo ou a dívida estudantil, por medo de alimentar as expectativas entre uma classe trabalhadora motivada. Pode ser argumentado que Hillary não tinha credibilidade como progressista, logo, o que era possível ela fazer? O que ela fez foi nomear Tim Kaine, que apoiou o TPP (Parceria Transpacífica) e a desregulação do sector bancário, seu vice-presidente, ao invés de Elizabeth Warren. Ela recusou comprometer-se a não nomear um monte de pessoal da Goldamn Sachs para a sua administração. Tudo isto foi completamente desinspirador para milhões de pessoas sedentas por uma mudança real.

Portanto não é surpresa nenhuma que Clinton tenha sido incapaz de entusiasmar uma maior afluência às urnas. Nem Trump nem Clinton obtiveram 50% dos votos. E apesar de Clinton ter obtido maioria no voto popular face a Trump, ela teve menos 6 milhões de votos que Obama em 2012 e menos 10 milhões que Obama em 2008. Entretanto, Trump obteve menos 1 milhão de votos do que Romney!

Como a Jacobin referiu: “Clinton apenas ganhou 65% dos votos latinos, comparado com os 71% de Obama quatro anos antes. Ela conseguiu isto contra o candidato que baseava o seu programa na construção de um muro ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos, um candidato que começou a sua campanha chamando os mexicanos de violadores. Clinton teve 34% dos votos das mulheres brancas sem diploma académico superior. E ela apenas conseguiu 54% dos votos das mulheres ao nível nacional, comparado com os 55% dos votos em 2012. Obviamente que Clinton candidatou-se contra um candidato que se vangloriou de agarrar as mulheres “by the pussy”. Clinton também não apelou ao voto dos negros, muitos dos quais se abstiveram. E ela perdeu nas comunidades brancas de classe trabalhadora onde o Obama tinha vencido firmemente nas anteriores eleições

Sanders deveria ter concorrido

Nos últimos anos, temos assistido a uma polarização profunda nos EUA com o crescimento, entre os jovens, do apoio ao socialismo e ao movimento anti-racista “Black Lives Matter”, ou seja, “Vidas Negras Contam” (BLM), embora também haja um crescimento da xenofobia e racismo declarados entre uma minoria da população. Mas a tendência geral na sociedade norte-americana tem sido para a esquerda, expressa no apoio ao casamento homossexual, a um aumento do salário mínimo e à taxação das fortunas. Esta eleição não altera essa realidade subjacente mas coloca claramente a direita ao volante com o controlo da presidência, ambas as câmaras do Congresso e a maioria das legislaturas estaduais.

Um largo sector da classe trabalhadora branca e classe média utilizou, de facto, esta eleição para mostrar a sua rejeição absoluta do DP e dos republicanos tradicionais. De uma forma distorcida, dezenas de milhões procuraram uma forma de oposição à elite corporativa. Não podemos fechar os olhos ao crescimento do apoio, entre uma minoria, de ideais de extrema-direita mas é revelador, por exemplo, que sondagens à boca da urna indicam que 70% dos eleitores defendeu que os imigrantes não documentados “deveriam ser legalizados” contra 25% que disse que deveriam ser deportados.

Por isto tudo, é tão trágico que Bernie Sanders não fosse também uma opção. Nós apelámos a que se candidatasse como independente em Setembro de 2014, quando pela primeira vez ele falou na hipótese de se candidatar à presidência. Quando ele decidiu candidatar-se dentro das primárias do Partido Democrata, nós discordámos mas continuámos ligados aos seus apoiantes, discutindo sobre como colocar em prática o seu programa e reivindicando a necessidade de um novo partido.

Os nossos alertas sobre as consequências de apoiar Hillary materializaram-se drasticamente. Se Sanders tivesse continuado na corrida até Novembro, a sua presença teria radicalmente alterado o carácter desta campanha. Ele teria forçado a sua entrada nos debates presidenciais e estaríamos agora a discutir a questão imediata da formação de um novo partido dos 99%, baseado nos muitos milhões de votos que ele teria recebido. Esta foi uma grande oportunidade perdida.

O SA apoiou a candidatura da Jill Stein do Partido Verde, que recebeu pouco mais de um milhão de votos, porque também ela apresentou uma plataforma que respondia aos interesses dos trabalhadores. A campanha de Stein teve muitas limitações mas, apesar disso, o seu voto indica um pouco o potencial massivo que existe para o desenvolvimento de uma alternativa de massas de esquerda.

Uma presidência de caos e luta

A eleição de Donald Trump é um desastre que trará muitas consequências negativas. Mas representa também uma fase no processo de insurgência política e social nos EUA. O capitalismo e as suas instituições estão desacreditadas, talvez como nunca antes, um processo que se prolongou até ao fim da eleição geral com o FBI a intrometer-se no processo político e Trump vociferando contra o sistema político corrupto.

Será inevitável, em alguns sectores da esquerda, o desespero generalizado e o sentimento de que todas as tentativas para fazer progredir a sociedade são inúteis. É absolutamente essencial contrariar este sentimento. A mudança real, como indicou Bernie Sanders, vem de baixo, dos movimentos de massas nos locais de trabalho e nas ruas.

A vitória de Trump representa o “chicote da contra-revolução”. Existirá caos e provocações que levarão milhões à defensiva. Por isso é que aqueles que se radicalizaram no período recente devem redobrar os seus esforços para construir um movimento de massas real pela mudança, independente do controlo corporativo. Os movimentos sociais dos anos recentes e especialmente o BLM mostram potencial.

Mas é também essencial notar que Trump irá, inevitavelmente, desapontar os seus próprios apoiantes. “Construir o muro” não criará milhões de trabalhos com boas condições para substituir os que se perderam com deslocalizações e automação. E apesar das promessas em investir em infraestrutura do século XXI, ele está também comprometido com isenções fiscais ainda maiores para bilionários como ele. Um movimento de massas contra Trump terá de apelar directamente à classe trabalhadora branca e explicar como podemos criar um futuro onde todos os jovens possam ter uma vida digna, em vez de tentar recriar o “sonho americano”, aprofundando a divisão racial. Tal futuro só poderá ser alcançado com políticas socialistas.