Labour: por um partido dos trabalhadores

Posted on 23 de Outubro de 2016 por

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João Gorizia e Minerva Martins, Socialismo Revolucionário Lisboa, artigo originalmente publica n’A Centelha nº 6

Será o Labour Party capaz de representar os trabalhadores no Reino Unido e apresentar uma verdadeira alternativa anti-austeridade?

O Labour Party surgiu no ano 1900, opondo-se ao Partido Liberal, como um partido dos sindicatos e da classe trabalhadora, independente da burguesia. Este foi um projecto de sindicalistas, socialistas, mulheres activas na luta pelo direito de voto e movimentos cooperativistas de trabalhadores. Apesar disso, e sobretudo após os 20 anos de liderança de Tony Blair (1994-2007), Gordon Brown (2007-2010) e Edward Miliband (2010-2015), o partido tornou-se um fiel representante da elite capitalista.

Uma lufada de ar fresco

Em 2015, assistiu-se à eleição de Jeremy Corbyn como líder do Labour. Corbyn dirigiu-se às bases do partido e à população afectada pelos recentes cortes, privatizações e miséria a que se assiste hoje no Reino Unido com uma mensagem anti-austeridade, de apoio aos direitos sindicais, de defesa de uma educação gratuita e da habitação social.

Esta vitória representou a revolta da classe trabalhadora após décadas de perdas nos salários e condições de vida. Alterou ainda os termos da discussão política e abriu oportunidades de mudança interna do partido, que poderão ser exacerbadas pela reeleição de Corbyn e pela mobilização em torno da campanha #KeepCorbyn (“mantenham o Corbyn”).

A disputa no interior do Labour, que se tem desenvolvido nos últimos meses, é de classe: entre uma ala direita que protege os interesses dos capitalistas e uma oposição de bases trabalhadoras e jovens que apoiam o programa de Corbyn como alternativa à austeridade.

A ala direita, ainda maioritária nos órgãos de liderança do Labour, proibiu as reuniões locais que decorriam entre os militantes de base e apelou para que os novos 130 000 membros que entraram no partido desde Janeiro — a maioria apoiantes do programa de Corbyn — não tivessem oportunidade de participar nas votações internas. Esta ala, que já mostrou ser capaz de implementar medidas repressivas e anti-democráticas, não irá nunca aceitar as posições anti-austeridade e anti-guerra de Corbyn. Para além disso, não deve ser prioridade para quem diz lutar pelos direitos dos trabalhadores e jovens estabelecer alianças com uma agenda política capitalista.

Um Labour anti-austeridade

Para uma maior democracia no partido, é importante que o Labour retorne à constituição inicial de partido que congregava várias forças organizadas. Essa estrutura federalista possibilitaria hoje a junção de forças que lutam por um programa anti-austeritário, envolvendo não só o Socialist Party (secção inglesa e galesa do CIT), como também o partido dos Verdes e a Coligação Sindicalista e Socialista (TUSC). Possibilitaria, por isso, a participação activa das mais significativas organizações democráticas da classe trabalhadora do Reino Unido — os sindicatos. Apesar da diversidade de grupos e plataformas dentro de um mesmo partido, estas organizações estariam unidas em torno de um programa único progressista.

A possível cisão da ala direita do partido não poria em causa este cenário nem implicaria um desmantelamento do Labour Party. Pelo contrário, seria uma ocorrência benéfica para avançar no sentido da implementação de um programa de esquerda que se apresente como uma real alternativa aos problemas actuais com que se confrontam a classe trabalhadora, os jovens e os sectores proletarizados da pequena burguesia. Seria também um gigantesco passo rumo à construção de um partido de massas dos trabalhadores enquanto espaço de discussão e organização para superar o capitalismo e desenvolver uma sociedade democrática e socialista.

As próximas eleições para a liderança do Labour irão decorrer até ao dia 21 de Setembro. Ao contrário das declarações e interesses da ala direita, é mais do que provável que Corbyn ganhe as eleições internas e, posteriormente, alcance ainda um resultado favorável nas eleições gerais mantendo o seu programa.

Mas para que um programa anti-austeridade seja realmente implementado aos vários níveis de intervenção do partido — sindical, local e parlamentar — é preciso que os representantes eleitos não sabotem as indicações das bases e da direcção de Corbyn, como tem acontecido até agora. Todos os deputados e vereadores municipais e locais que se recusem a implementar medidas anti-austeridade ou a lutar por elas e que continuem a seguir a política anti-sindical dos blairistas devem sofrer um processo de re-selecção obrigatória. Este processo significa serem destituídos do seu cargo para que sejam eleitos no seu lugar militantes do Labour dispostos a executar um programa pró-classe trabalhadora e anti-austeridade.

A direita entrista

Contra as várias acusações recentes dirigidas ao Socialist Party (CIT), de “entrismo trotskista” como obstáculo ao desenvolvimento do Labour, respondemos que o esvaziamento de centenas de milhares de membros e de cerca de cinco milhões de eleitores durante os anos catastróficos pró-capitalistas do blairismo é que constituiu um problema. Por outro lado, a tendência Militant dentro do Labour, antecessor do Socialist Party, teve um papel fundamental na vitória do Conselho Municipal de Liverpool e no movimento de massas que se organizou contra o governo conservador de Thatcher nos anos 80, antes da expulsão do Militant do Labour Party.

Curiosamente, a ala direita acusa o Socialist Party de querer ser “um partido dentro de um partido”. Mas quando deputados blairistas votam a favor dos cortes, da guerra e das privatizações e desrespeitam a vontade das bases, não serão eles um partido dentro do Labour?

Uma reestruturação interna do Labour Party é necessária para que o partido possa voltar a ter um impacto decisivo na vitória de futuras batalhas da classe trabalhadora.

Perigos e possibilidades

A vitória de Corbyn abrirá um novo capítulo para a luta de classes, com claras implicações para o resto da Europa. As várias greves e protestos anti-austeridade sairão reforçados com esta eleição e os jovens, que compõem a maioria deste novo Labour estarão na frente desse movimento. Este é, sem dúvida, um passo importante na reconstrução de um movimento dos trabalhadores democrático e combativo, que corte com as antigas burocracias sindicais e que volte a colocar as ideias socialistas na ordem do dia.

No entanto, a vitória de Corbyn também fará aumentar a resposta do capitalismo e seus representantes. Por um lado, aumentará a guerra civil dentro do Labour com o boicote sistemático do programa anti-austeridade e com as perseguições a Corbyn e à sua equipa; por outro lado, aumentará a pressão para a conciliação de Corbyn ou de alguns elementos de esquerda com o establishment numa tentativa de isolar o movimento. Existe ainda o perigo de capitulação de Corbyn, observado no caso do Syriza de Tsipras — que hoje aplica um pacote de austeridade duríssimo sobre os trabalhadores gregos — e no caso de Bernie Sanders, que apoia a candidata de Wall St. e da guerra, Hillary Clinton.

Apesar disto, é necessário notar que o Labour Party tem uma estrutura que, se bem utilizada, poderá dificultar um eventual recuo de Corbyn. Ao contrário do Partido Democrata que praticamente não tinha bases antes de Sanders, e do Syriza, cujo modelo de organização interna é essencialmente “movimentista” e sem células de base onde as massas possam intervir, o Labour tem as estruturas necessárias para exercer algum controlo e pressão de base.

Apesar de altamente controladas pelos burocratas, existem secções locais do Labour onde os militantes podem eleger representantes locais, delegados ao congresso do partido, o que permite uma actividade democrática na base. Foi por isso que parte das reuniões destas secções foram suspensas — tentou-se conter as bases. Reclamando estas secções como verdadeiros órgãos de base é possível politizar e organizar dezenas de milhares de trabalhadores e jovens recém-chegados. E organizando esta massa, é possível utilizá-la para pressionar Corbyn para a esquerda.

Dar continuidade ao voto pelo Brexit, por uma via socialista e internacionalista

Após uma vitória do Brexit no referendo sobre a permanência ou saída do Reino Unido da União Europeia, o establishment capitalista está novamente a ser abalado pelo movimento alargado de apoio à orientação anti-austeritária e pró-classe trabalhadora de Corbyn. Foram organizados os maiores comícios das últimas décadas, em cidades como Liverpool, Hull, Leeds ou Bristol. O Reino Unido é, por isso, um dos centros actuais do desenvolvimento da luta de classes na Europa e no mundo.

Apesar da concessão de Corbyn à direita do Labour na defesa de uma anterior campanha pelo “Remain”, é fundamental que este, após ser reeleito como líder do Labour, dê continuidade às perspectivas de melhoria significativa das condições de vida da classe trabalhadora e jovens britânicos, apenas concretizáveis através de uma saída da União Europeia. A contribuição de Corbyn neste sentido será fundamental para combater as expressões nacionalistas, racistas e xenófobas que se manifestaram durante o processo de campanha. Deve reivindicar o espaço da revolta para a esquerda, não permitindo que os campos da direita populista e extrema-direita continuem a mobilizar o descontentamento das massas populares.

É necessário insistir na batalha contra as forças capitalistas, dentro e fora do Labour, que hoje procuram oportunidades de reverter a votação do referendo por uma saída do Reino Unido da UE. Desta forma, com uma abordagem socialista e internacionalista da saída, possibilita-se o desenvolvimento de movimentos anti-UE em vários outros países-membro, como Portugal.

Posted in: Brexit, Europa, Inglaterra