“Ou estamos todos ou caímos todos!” — entrevista a Sérgio Sousa da direcção do SETC

Posted on 17 de Agosto de 2016 por

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Sérgio Sousa, membro da direcção do SETC

O SETC – Sindicato dos Estivadores, Trabalhadores de Tráfego e Conferentes Marítimos do Centro e Sul de Portugal, integrado numa associação internacional de sindicatos — o International Dockworkers Council (IDC) —, combate a precariedade nos únicos portos de Portugal — Lisboa e Figueira da Foz — onde os patrões não foram capazes de esmagar a organização dos trabalhadores e extinguir a contratação colectiva. Para a classe trabalhadora do país, esta luta é uma das mais importantes actualmente. Em primeiro lugar, porque os estivadores, pela função que desempenham, podem golpear duramente os capitalistas onde estes sentem dor: nos seus lucros. Em segundo lugar, porque esta luta faz tremer toda a direita (incluindo o PS), e qualquer vitória dos estivadores tem potencial para estilhaçar a paz social sobre a qual se equilibra habilmente o governo trapezista de Costa.

A Centelha entrevistou Sérgio Sousa, estivador do porto de Lisboa e membro da direcção do SETC, para dar a conhecer aos seus leitores os princípios da organização.

A Centelha: Primeiro, Sérgio, podes dizer-nos como começaste a trabalhar no porto?
Sérgio Sousa: Eu trabalhava como aprendiz numa gráfica. Um tio meu, estivador, disse-me que iam abrir vagas e que devia inscrever-me. Na altura eram as ETT [Empresas de Trabalho Temporário] que contratavam. A ETP [Empresa de Trabalho Portuário] pedia trabalhadores às ETT’s e distribuía-os pelas empresas de estiva do porto. Então não éramos contratados directamente pela ETP, éramos contratados pela ETT. Esse sistema, tal como o SETC sempre denunciou, foi considerado ilegal, e a ETP teve que começar a contratar directamente.

AC: Como te juntaste ao sindicato?
SS: Quando finalmente assinamos contrato sem termo, sindicalizamo-nos imediatamente. É uma decisão natural para todos os estivadores. Mas os trabalhadores eventuais ainda não podem. Recordo-me do caso que houve em Setúbal em que, no momento em que se sindicalizaram trabalhadores eventuais, os patrões simplesmente nunca mais os chamaram! Porque eles, todos os dias, eram contratados e despedidos. Às vezes eram contratados a um turno e ao segundo turno já não tinham trabalho. Mas estamos a aprovar uma alteração aos estatutos para que os eventuais se possam sindicalizar.

AC: Já conhecias o sindicato?
SS: O sindicato sempre teve plenários e contacto com a massa laboral. Eu sempre fui estando atento. O próprio processo de admissão foi uma luta. Quase todos os processos de luta que tivemos não foram por questões salariais. Não somos aumentados desde 2010. Os confrontos dos últimos 10 anos foram para conseguir a admissão do pessoal eventual nos quadros da ETP com contratos sem termo, para terem condições iguais às nossas.

AC: Todos os trabalhadores com contrato participam?
SS: Todos, até mesmo eventuais. Há anos atrás foi um bocado vedada a participação deles nos plenários, mas as coisas mudaram. Começou a haver uma massa de trabalhadores mais nova que compreendeu que vinha dali. Para ter pessoas que se integrem no colectivo é importante que as vás envolvendo para compreenderem o ambiente onde estão e a importância do sindicato.

AC: Como são tomadas as decisões?
SS: Em plenário ou assembleia. O último acordo foi assinado pelo sindicato, mas no dia seguinte, de manhã, rectificámo-lo em assembleia. O nosso consultor jurídico respondeu às dúvidas, as questões foram colocadas, houve discussão e foi tudo ratificado. Mas podia ter sido chumbado.

AC: A greve era impossível sem fundo de solidariedade. Podes explicar-nos como funciona o fundo?
SS: Há duas coisas distintas. Há o fundo de greve, que passa de geração em geração, para o qual nós mensalmente descontamos. Podíamos estar a pagar um automóvel ou outra coisa qualquer, mas apostamos nisto. Daí também a nossa percentagem de desconto sindical ser um bocado acima da média. É 4% do nosso salário base. Precisamos do fundo para nos precavermos de situações como esta em que entrámos agora. E depois há outra coisa que é o fundo de solidariedade que tivemos para ajudar os trabalhadores eventuais dispensados em Novembro. Foi o auxílio que decidimos prestar aos nossos companheiros, para não caírem num precipício. Resolvemos sustentá-los. Serão os próximos efectivos, não é? Isto é um investimento do sindicato, que somos todos nós. E as decisões são ratificadas em plenários ou assembleias. O tipo de fundos, os valores, por quanto tempo, etc.

AC: Os estivadores de Lisboa são alvo de uma campanha de difamação. Podes explicar porquê?
SS: Somos retratados como sacanas. Mas os verdadeiros sacanas culpam os outros enquanto escondem as sacanices no Panamá! Podíamos ser enfermeiros, podíamos ser trabalhadores do metro, podíamos ser de qualquer sítio. No nosso caso, estamos num sector estratégico da economia nacional. Sabemos os players — como eles dizem — que estão contra nós, sabemos com quem é que isto mexe. O mesmo tipo que controla os portos, controla os media. Os grupos são exactamente os mesmos! Se ao início me preocupava? Preocupava. Agora desvalorizo porque sei como as coisas são, sei que todas as palavras que saem são milimetricamente planeadas.

AC: Como é que combatem isso?
SS: Há uma campanha nos média e há outro tipo de campanha nas redes sociais, e aí nós temos um papel muito importante. Tivemos quase uma profissionalização a nível de acção de média e redes sociais de há três anos para cá. Se estamos limitados aos 15 segundos que a televisão nos dá, temos que virar a campanha para outro lado. E há o ponto de viragem quando o Bruno Bobone, da Pinto Basto, vem dizer que recebemos 5000 euros. Eles disparam números porque pega, se não houver contraditório. Atacavam nos media e nós estávamos em pontos específicos da cidade a distribuir informação. Quando tens um estivador à porta do metro a distribuir panfletos, a dizer ‘’Está aqui a verdade! Se eu ganhasse 5000 euros não vinha aqui às sete da manhã distribuir panfletos!”, aí as pessoas dizem “Espera lá, o quê que se passa aqui?”. O importante é abrir o sector. O nosso era uma portazinha fechada onde ninguém entrava. E quando começas a abrir, mostras o que és. É que o problema não está tanto nos que ganham 1500, está em todos os que ganham 500 e deviam ganhar muito mais! Não é a profissão, é a falta de dignidade! É essa falha que eu acho que há em qualquer sector de actividade neste momento, neste país. Felizmente, tenho corrido a Europa. Aqui dizem que nós não gostamos de trabalhar — bem, o Centeno [ministro das finanças] já veio dizer que trabalhamos bem e até somos baratinhos, não é? Eles contradizem-se! Nós estamos, nos portos, trinta anos atrás do resto da Europa a nível de equipamento. Quando digo o que nós aqui fazemos no dia-a-dia, eles chamam-nos malucos.

AC: O SETC é membro do IDC e pudemos ver representantes da organização internacional na manifestação de dia 16 de Junho. Podes falar-nos um pouco da história do IDC?
SS: O IDC formou-se a partir do processo do despedimento colectivo que se deu no porto de Liverpool e no qual os estivadores foram muito pouco apoiados pelas estruturas sindicais a que pertenciam — neste caso, a ITF [International Transport Workers’ Federation], central sindical que abrange todos os sectores dos transportes. Sentindo a falta de apoio, formou-se o IDC em 2000, uma organização de base dos estivadores. É constituída por trabalhadores, aquilo que nós chamamos os rank and file. Trabalha em moldes completamente diferentes da ITF, não há sindicalismo de carreira nem de cadeira. Posso dar o exemplo do coordenador geral, o Jordi. O tipo de sindicalismo praticado é o seguinte: o Jordi esteve em Lisboa, participou no Ministério do Mar nas negociações do acordo de 27 de Maio e, no dia seguinte, às 8 da manhã estava no cais, no porto de Barcelona onde trabalha. Sai dum sítio, vai para o outro. Tem 90 mil estivadores sob sua responsabilidade, com trinta e poucos anos!

AC: O funcionamento é semelhante ao do SETC?
SS: Tem um funcionamento semelhante, sim. Mas no último ano e meio teve uma adesão de mais de 30 mil associados. Agora, o debate que está a haver é que mesmo o coordenador geral está a ficar arredado da base. Fizemos um grupo de trabalho — 12 ou 13 pessoas — que se reúne quase bimestralmente. Queremos libertar um pouco o coordenador da pressão de ter de estar constantemente em decisões importantes — estamos a criar alguma autonomia. Ele já não precisa de se deslocar sempre, porque isso também desgasta muito, física e pessoalmente. Estamos numa fase em que temos que ter o cuidado de não nos tornarmos uma mini ITF. É bom crescer, mas com os pés assentes na terra.

AC: Como é que o SETC se juntou ao IDC?
SS: Esteve na preparação da sua criação mas, por questões de timings eleitorais não esteve no momento da sua fundação em Tenerife, aderiu formalmente poucos meses depois.

AC: Na manifestação ouviu-se que “hoje vencemos uma batalha, mas amanhã continua a guerra!”. Quais são os próximos objectivos?
SS: O próximo objectivo é fazer alterações aos estatutos para integrar os eventuais também e para alcançar um âmbito nacional. E no meio deste processo todo também há um processo eleitoral — o nosso mandato acabou em Março e os sócios decidiram estrategicamente não fazer eleições a meio da negociação conflituosa do contrato.

AC: A ideia então, é passar a sindicato nacional e ir conquistando os portos?
SS: Exacto! Mostrar aos outros trabalhadores que têm apoio. Mesmo os que noutros portos pensam como nós estão maniatados, neste momento não têm onde se apoiar.

AC: Fora de Lisboa só há eventuais?
SS: O sector portuário é curioso nesse aspecto. É tão diferente de porto para porto que certos trabalhadores efectivos são mais precários e têm condições laborais mais degradantes que certos eventuais.

AC: Vocês têm mobilizado muita solidariedade. Na manifestação estiveram mais alguns sindicatos, estudantes, organizações LGBTQ, partidos e outros grupos. Tens algumas palavras para os trabalhadores e jovens leitores d’A Centelha?
SS: Nunca pensem que não podem fazer a diferença. A conjunção de várias pessoas alinhadas na mesma ideia faz toda a diferença — em qualquer sector de actividade. Um sindicato não são os que estão à frente. Um sindicato só consegue ter força com as pessoas envolvidas colectivamente, só funciona quando as pessoas, com a sua acção e participação, definem o rumo da organização. E também cabe aos dirigentes sindicais fazer ver às pessoas que elas é que são importantes na tomada de decisão. É muito importante haver transparência, coisa que faz falta ao sindicalismo. Transparência perante a massa associativa! Tem que haver a coragem de dizer às pessoas assim: “Isto vai ser difícil, podemos ganhar ou podemos perder, mas uma coisa é certa, nós vamos partir para esta luta porque é justa! É nestes pontos que nos revemos, e é assim, ou estamos todos ou caímos todos!”

AC: Sérgio, muito obrigado por esta entrevista! Como costumam dizer os estivadores internacionalmente, “You’ll never walk alone!