Por uma nova Europa

Posted on 12 de Agosto de 2016 por

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Editorial d’A Centelha nº5 Edição Julho/Agosto

Há um ano, perante a capitulação de Tsipras na Grécia, declarámos que o europeísmo de esquerda estava morto. Grande parte das direcções da esquerda europeia, no entanto, parece ser incapaz de enterrar esse cadáver político. Assim, no Reino Unido, a maioria dos partidos e dos sindicatos, durante o referendo que ficou conhecido como “Brexit”, defendeu um voto pela permanência na União Europeia, entretendo ilusões na possibilidade de a reformar. Isto, como todas as formas de reformismo, explica-se pela falta de confiança na classe trabalhadora. Entendendo a luta que uma saída da UE pela esquerda colocaria, essas direcções julgaram os trabalhadores incapazes de a travar e vencer. Assim se alhearam da classe trabalhadora e deixaram o campo da luta contra a UE aberto aos populistas de extrema-direita como Boris Johnson e Nigel Farage.

O Socialist Party, secção do CIT na Inglaterra e País de Gales, lado-a-lado com os sindicatos mais combativos, defendeu consequentemente uma posição de classe. Organizámos uma campanha socialista pela saída da UE. O Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) entendeu correctamente que a classe trabalhadora — especialmente nas suas camadas avançadas — tirou preciosas conclusões da experiência grega. As ilusões na UE estão a dissipar-se, e a imprensa burguesa, receosa, faz soar o alarme. The Telegraph, conservador diário britânico, publicou recentemente sondagens que ilustram este processo.

No país membro que mais pesadamente sentiu as consequências, a Grécia, 92% da população desaprova as políticas económicas da UE. Mas mesmo em economias imperialistas mais avançadas, como o referendo no Reino Unido deixou claro, os desenvolvimentos neste sentido são inegáveis.

Os trabalhadores de todos os países compreendem com crescente nitidez os interesses que a UE verdadeiramente serve. Não há UE sem ataques aos salários e ao Estado Social, sem desemprego crescente e crónico, sem miséria, sem guerras produzindo uma multidão de refugiados, sem terrorismo e o fortalecimento da extrema-direita chauvinista, racista e machista.

Em Portugal, foram feitas ameaças de “sanções” pelo incumprimento do limite de 3% de défice público estabelecido pelo Tratado Orçamental europeu. E se a Comissão Europeia, medindo as consequências dessa política, recuou por agora, ainda assim, a crise do Deutsche Bank não se paga sozinha. Eventualmente, Costa será pressionado a avançar com “medidas adicionais”  — leia-se ataques aos trabalhadores — não tão fáceis de disfarçar. Isto colocará a preservação do governo PS, suportado pelo PCP e pelo BE, em sério risco.

As direcções desses dois grandes partidos da esquerda em Portugal, que durante o período de negociações com o PS para a formação do governo cometeram os erros tantas vezes denunciados pel’A Centelha, terão grandes dificuldades em retirar o seu apoio ao governo sem pagar um preço elevado. No entanto, pagarão um preço ainda mais elevado caso insistam nesse apoio após a inevitável onda de “austeridade”.

O tempo passa, e o atraso das direcções partidárias, tanto em relação à situação económica como em relação à consciência da classe trabalhadora, aumenta perigosamente.

Para evitar o desastre, urge construir uma frente unida dos sindicatos e partidos de esquerda que se apresente como alternativa de governo aos dois grandes partidos da burguesia, PS e PSD. Há muito que o Socialismo Revolucionário defende esta táctica, e o primeiro passo, evidentemente, é a elaboração comum de um programa político de mobilização, organização e luta. Nesse programa, como ponto central, terá forçosamente de estar uma solução para a questão da União Europeia, i.e., uma solução para a saída.

Aqueles que pretendem “preparar”, “negociar” ou “referendar” devem saber que, numa economia crescentemente dominada pelo capital imperialista dos países mais desenvolvidos e sem moeda própria, não há saídas à inglesa. Estaremos tão preparados quanto a classe trabalhadora estiver organizada e consciente, porque apenas esta classe é capaz de o fazer, retirando das mãos dos capitalistas o comando da economia. Não podemos escamotear os problemas ou mentir a quem trabalha!

O que é necessário não é nada menos do que a nacionalização dos sectores estruturantes da economia sob controlo democrático dos trabalhadores. Nacionalização da banca e comércio externo, energia, transportes, saúde e educação. A alternativa a estas medidas será uma repetição da experiência grega, independentemente das nuances preparatórias ou referendárias que pretenderem acrescentar-lhe.

Há que pôr um fim à velha e senil Europa do capital antes que esta ponha um fim a toda a paz. Sobre as suas ruínas será erguida uma nova Europa, socialista, unida não pelo imperialismo dos patrões mas pelo internacionalismo dos trabalhadores!

O SR, CIT em Portugal, apela a todos aqueles que querem lutar por essa nova Europa a juntar-se a si, a unir forças com milhares de combatentes comprometidos com o mesmo objectivo.