As primárias não democráticas

Posted on 18 de Maio de 2016 por

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Porque precisamos de um partido dos 99%

Kshama Sawant, Socialist Alternative Seattle (CIT nos EUA, Seattle), originalmente publicado em counterpunch.org a 21/04/2016

Apesar da vitória decisiva obtida na passada terça-feira (19 de Abril) que reforça a sua provável nomeação, de certo modo Hillary Clinton emerge das primárias de Nova Iorque mais danificada e com o partido mais dividido do que ao entrar nas primárias.

Aquela que ficou conhecida como A Batalha de Nova Iorque apenas serviu para expôr aquilo de que milhões de pessoas nos EUA já se aperceberam – as primárias do Partido Democrata estão viciadas a favor do sistema.

Uma discussão que começou por criticar o sistema vertical de super-delegados e a influência gigantesca do poder económico na política, serviu para consciencializar acerca da natureza não democrática das primárias e do próprio Partido Democrata – com a sua míriade de regras de voto anti-democráticas, a sobrevalorização dos estados conservadores, o enviesamento mediático da comunicação social e o papel antagonista dos líderes do partido contra adversários oriundos das bases como Sanders.

Antes da primárias de ontem terem sequer começado, mais de 27% dos nova-iorquinos (3 milhões de pessoas) foram excluídos através de leis de voto restritivas, assim como pela remoção de eleitores previamente registados, que foram dados como “inactivos”. Numa mesa de voto em Brooklyn [bairro pobre], as autoridades disseram que 10% dos que apareceram para votar verificaram que os seus nomes tinham sido purgados dos cadernos. No condado a que Brooklyn pertence, mais de 125.000 eleitores foram cortados dos cadernos do Partido Democrata, traduzindo-se numa diminuição massiva de 14% no número de possíveis eleitores em apenas 5 meses.

Entretanto, na região norte do estado de Nova Iorque, o horário das mesas de voto foi diminuído substancialmente em áreas mais favoráveis a Sanders. Além disto tudo, apenas eleitores que se registaram como democratas antes de 9 de Outubro puderam votar – uma regra que quase ninguém conhecia. O presidente da Câmara de Nova Iorque, Bill de Blasio, sentiu-se na obrigação de comentar, “A percepção de que a inúmeros eleitores foi negado o direito de voto, destrói a integridade do processo eleitoral e tem de ser corrigido.”. A autoridade fiscal da cidade prometeu “levar a cabo uma auditoria às operações e à gestão do Conselho de Eleições”.

Embora a vitória de Hillary por 15 pontos percentuais possa ser superior à soma das irregularidades, é no entanto claro que se os independentes e outros injustamente excluídos pudessem votar, então o resultado seria muito mais aproximado e Sanders poderia mesmo ter ganho.

Primárias fechadas como as de Nova Iorque são largamente desfavoráveis aos candidatos de base, já que purgam do processo milhões de pessoas registadas como independentes que já retiraram conclusões acerca do carácter corrupto de ambos os partidos.

O poder dos media do sistema ficou totalmente demonstrado durante estas primárias ao declarar guerra aberta a Sanders. Até jornais “progressivos” como o New York Daily News fizeram capa com ataques sensacionalistas e difamatórios.

Talvez o resultado mais importante das primárias de Nova Iorque não tenha sido o voto, mas o impacto político da campanha de Sanders nas dezenas de milhares que se envolveram activamente ou que a acompanharam de perto, durante os últimos dias e semanas.

Não apenas Nova Iorque

Os media a nível nacional têm apoiado fortemente Clinton durante as primárias. Primeiro recorrendo a uma censura mediática em 2015, enquanto Clinton era mostrada como a nomeação inevitável e Trump recebia 20 vezes mais cobertura mediática. Depois, como Sanders claramente mostrou ser uma ameaça, os media do sistema não pouparam a esforços para o desacreditar. Desde ataques intermináveis às suas propostas políticas por figuras liberais proeminentes como Paul Krugman, passando por ataques como o do Washington Post de 1 de Março, que publicou um artigo anti-Sanders por hora durante 16 horas seguidas!

A nível nacional, estado após estado, têm se verificado também irregularidades eleitorais. Embora algumas tenham sido exageradas, outras influenciaram realmente o resultado. No Arizona, onde existiam filas de cinco horas nalgumas mesas, muitas pessoas viram as suas inscrições de voto ser alteradas sem o seu conhecimento.

As primárias como um todo estão fortemente enviesadas na direcção dos partidários mais ricos e velhos. A nível nacional, menos de 15% dos eleitores possíveis irão participar nas primárias democratas.

Os trabalhadores têm visto o carácter pró-corporações da liderança do partido Democrata em frente dos seus olhos. Não é por acidente que, quando o senador democrata Jeff Merkley apoiou Bernie Sanders na semana passada, ele foi o primeiro senador a fazê-lo. Por comparação, cerca de 40 senadores apoiam publicamente Hillary, assim como 166 deputados da Casa dos Representantes. Para este sistema, o apelo de Sanders a uma revolução política contra os bilionários e os financiadores ricos das campanhas é completamente inaceitável. A liderança Democrata baseia-se na troca de favores e de influências entre posições eleitas e carreiras lucrativas no sector empresarial e lobbyista. Entretanto, utilizam o seu peso e influência para colocar na linha líderes sindicais e religiosos.

Se adicionarmos a isto o poder combinado dos Super PACs [fundações milionárias que apoiam candidatos presidenciais] de Wall Street, temos umas primárias e um partido político que é terreno hostil para um candidato dos 99%.

Há um simples facto que demonstra cabalmente o carácter viciado do sistema: sondagens a nível nacional apresentam sistematicamente Bernie Sanders como o candidato com a maior taxa de aprovação e que ganha a qualquer Republicano quando comparados um contra o outro. No entanto, será facilmente eliminado se continuar a jogar pelas regras do bipartidarismo.

Uma oportunidade histórica

Neste momento, entramos possivelmente na época mais favorável da história dos EUA para lançar um novo partido de esquerda. A confiança pública nos dois maiores partidos, nos media e em todas as instituições chave do capitalismo estado-unidense está a colapsar. Oito anos após a Grande Recessão, com a maioria dos trabalhadores ainda a sofrerem apesar da recuperação de Wall Street, toda esta raiva e descontentamento acumulados estão a expressar-se numa revolta amarga contra os líderes Democratas e Republicanos conotados com o sistema.

Este é o contexto para a subida vertiginosa de Bernie Sanders que foi capaz de concorrer com a campanha presidencial distintamente de esquerda mais forte na história norte-americana desde Eugene Debs (embora Debs, que concorreu pelo Partido Socialista no início do séc. XX, fosse claro acerca da dominação dos grande grupos económicos sobre o Partido Democrata e não tenha cometido o erro fundamental de concorrer dentro desse mesmo partido). Começando esta campanha sem qualquer nome reconhecido, com sondagens a dar 3%, e sem qualquer apoio de figuras significativas da política nacional, Bernie conquistou mais votos, mais primárias estaduais, mais dinheiro e mobilizou mais voluntários que qualquer adversário de esquerda na história do Partido Democrata.

Ele conseguiu-o com uma plataforma genuinamente de esquerda, recusando doações de empresas, abraçando o rótulo de socialista e fazendo da “revolução política contra a classe bilionária” a sua palavra de ordem central.

Mesmo pelos padrões da política mainstream, a força da campanha de Sanders é absolutamente impressionante. Clinton iniciou esta campanha com aquela que parecia, em teoria, a máquina eleitoral mais perfeita alguma vez posta em marcha. No entanto, nos últimos três meses, e com uma doação média de $27, Sanders conseguiu recolher muito mais do que Clinton, recorrendo à sua base de pequenos doadores – mais de $2 milhões. Em Março apenas, Sanders recolheu $44 milhões contra os $29,5 milhões de Hillary.

Apenas há um atrás, todo e qualquer cronista mainstream ainda propalava o mito de que nenhum candidato que recusasse contribuições de empresas era eleitoralmente viável, muito menos um candidato que se chamasse socialista! Essa ideia foi reduzida a pó.

Ninguém pode negar o potencial para construir um partido político de esquerda e viável a nível nacional, completamente independente de dinheiro de grupos económicos, que apresente propostas classistas e de esquerda, sem medos. A questão que se mantém por responder é a da liderança: irá Sanders tomar a iniciativa e, caso não tome, irão as forças por trás dele ser capazes?

Um novo partido

“Creio que devemos pensar muito seriamente, particularmente como pessoas de cor e progressistas, em construir um novo partido ou um novo movimento…”

Estas foram as palavras de Michelle Alexander, estimado autor de “O Novo Jim Crow”, falando com Chris Hayes na MSNBC, a 1 de Abril. Três dias mais tarde, escrevendo no New York Daily News, o quarto jornal com mais tiragem a nível nacional, a coluna de Shaun King começou com a citação acima, adicionando:

“Eu não só concordo com Alexander, como quero ir um passo mais à frente – creio que já está a acontecer em frente dos nossos olhos. Progressistas políticos por todo este país em apoio à candidatura de Bernie Sanders, estão a rejeitar completamente o Partido Democrata… Devemos formar o nosso próprio partido político em que sejamos firmemente e arrojadamente contra a pena de morte, onde sejamos por um salário digno em todo o país, por uma reformulação total do sistema de justiça, por reformas radicais para proteger o ambiente e parar o aquecimento global, onde sejamos pela erradicação do dinheiro de corporações da política, onde a educação e saúde universais sejam consideradas um direito e não um privilégio”.

Abordando esta questão mas do posicionamento político oposto, Paul Krugman na sua coluna do New York Times de 8 de Abril ecoou a análise de Shaun King de que um novo partido está a emergir “diante dos nossos olhos”. Krugman avisa Bernie para diminuir os seus ataques a Clinton ou arriscar-se a uma ruptura ainda mais profunda no Partido Democrata, inquirindo arrogantemente: “Será que o Sr. Sanders se está a posicionar para se juntar à multidão de ‘Bernie ou Nada’…? Se não, que pensa ele que está a fazer?”

Tanto Krugman como King estão correctos. À medida que a “revolução política contra a classe bilionária” de Bernie se foi fortalecendo, a ameaça para quebrar o colete de forças do Partido Democrata que é completamente dominado pelas grandes corporações, também se acentuou.

É por isso que a minha organização, o Socialist Alternative, e o #Movement4Bernie estão a fazer uma petição para que o Bernie continue a concorrer até Novembro como independente ou pelo Partido Verde com Jill Stein, caso seja bloqueado nas primárias viciadas, e apelamos a que convoque uma conferência para se discutir a formação de um partido dos 99%.

Mesmo que existam preocupações sobre ajudar à eleição de um republicano, não existe qualquer razão para que Bernie não possa concorrer pelo menos nos mais de 40 estados em que é absolutamente claro que ou um candidato republicano ou um democrata irá vencer, não concorrendo nos 5-10 estados em que a eleição está próxima do empate. Ainda assim, esta poderia ser uma campanha histórica se fosse ligada à construção de um novo partido para os 99% e lançasse as bases para a fundação de um movimento político de massas capaz de concorrer com centenas de candidatos de esquerda a todos os níveis governamentais, independente de dinheiro corporativo.

Por outro lado, se apesar dos truques sujos contra si, Sanders permanecer leal ao Partido Democrata e apoiar Clinton na eleição geral, isso representaria a desmoralização e desorganização de muito do nosso movimento. Sim, precisamos de uma estratégia para afastar os republicanos de direita, mas colapsar o movimento de massas de Bernie na campanha de Clinton – uma falsa unidade com a candidata de Wall Street e do sistema – deixaria o campo aberto a populistas de direita como Trump e Cruz para expandir a sua base de apoio. Se Sanders escolher esse caminho, então continuar a revoluçao política significa que os Sandernistas terão de ir além de Bernie.

Uma Campanha Presidencial Independente

Esta é a altura de quebrar as regras. Uma campanha presidencial independente e agressiva por Bernie Sanders, ligada à criação de um novo partido de massas para os 99%, poderia transformar radicalmente a cena política norte-americana. Bernie nem precisaria de ganhar a eleição para forçar uma viragem decisiva à esquerda na sociedade estadounidense. Mesmo que o número de votos para esse novo partido fosse de 10 a 15 milhões (e é possível ganhar muitos mais), seria desferido um importante golpe no monopólio político dos dois partidos do capitalismo estadunidense.

Por todo o Mundo, onde os trabalhadores conquistaram reformas importantes, como o sistema nacional de saúde, a educação gratuíta ou a licença de paternidade paga, tem sido através da formação de partidos de trabalhadores de massas. No Canadá, por exemplo, os sindicatos lançaram o Novo Partido Democrata com saúde socializada como a sua exigência principal. Ganharam menos de 15% dos votos nacionais, tendo sido acusados de favorecer o voto nos Conservadores, mas para parar o crescimento do Novo Partido Democrata, o governo conservador assegurou aos trabalhadores canadianos a sua principal exigência – e o sistema nacional de saúde canadiano nasceu.

Por outro lado, se Sanders desiste e apoia Clinton após as primárias, o partido Democrata sentir-se-á livre para virar à direita nas eleições, utilizando o medo dos Republicanos para manter a sua base progressista na linha.

Os riscos são demasiado elevados para deixar este momento escapar-nos entre os dedos. O capitalismo está a arrastar a humanidade em direcção à catástrofe social e ecológica. A campanha de Bernie mostra que um contra-ataque sério é possível. O que falta é uma estratégia que sustente e faça crescer o nosso movimento. Agora é o momento para criar uma alternativa política combativa e da classe trabalhadora – um partido para os milhões e não para os milionários.