Irlanda: Partidos do sistema chocam com muro de raiva

Posted on 8 de Abril de 2016 por

0


12565440_637190243089462_2010884084100554118_n

Uma crise política aproxima-se

Cillian Gillespie e deputada Ruth Coppinger, membros do Socialist Party – CIT na Irlanda

Artigo publicado originalmente no website do Socialist Party (SP), no seguimento da campanha que elegeu três membros do CIT – Paul Murphy, Ruth Coppinger e Mick Barry – para o parlamento irlandês.

Como parte da Anti Austerity Alliance (AAA), Paul, Ruth e Mick farão parte de um grupo parlamentar que une a esquerda socialista, em conjunto com 3 deputados da People Before Profit Alliance (PBP), que irá funcionar na base da paridade na partilha dos tempos de fala e outros direitos parlamentares. Este grupo irá lutar para ser reconhecimento como grupo de plenos direitos, no novo parlamento irlandês mais fragmentado.

«É cada vez mais claro que, como disse James Connolly (socialista revolucionário irlandês e fundador do Labour Party) há 100 anos atrás: “o tempo de remendar o capitalismo passou; deve ir-se.” Necessitamos de propriedade e controlo públicos da riqueza e recursos se a sociedade é para ser gerida para as necessidades das pessoas, invés do lucro.»

Estas foram as palavras de Ruth Coppinger no seu poderoso discurso onde propôs o socialista Richard Boyd Barrett para o lugar de Taoiseach (primeiro-ministro) no 32º Dáil (parlamento irlandês). A ideia, para a AAA e o SP, de nomear um candidato socialista serviu para enfatizar a necessidade de uma esquerda independente no novo parlamento recém-eleito.

Como todos os candidatos que foram nomeados, as possibilidades de vitória de Boyd Barrett eram pequenas. O falhanço em eleger um Taoiseach abrirá um período de semanas de negociações entre os principais partidos que, muito provavelmente, levará a um qualquer acordo entre o Fianna Fáil (FF) e o Fine Gael (FG) – os dois principais partidos capitalistas – para a formação de um governo.

Sistema de dois partidos e meio

As eleições demonstraram uma rejeição estrondosa do anterior governo Fine Gael/Labour. O seu slogan de campanha “continuar a recuperação” fez uma espetacular ricochete com a vasta maioria das pessoas. Os ex-ministros do Fine Gael mais associados com a agenda anti-popular de direita, como Alan Shatter e James Reilly, perderam os seus lugares.

O tradicional sistema de dois partidos e meio está acabado. O facto de o Fianna Fáil e o Fine Gael terem um apoio conjunto inferior a 50%, é a confirmação. Ao todo, os três principais partidos do sistema receberam 56% dos votos. Este declínio é espelhado num processo idêntico em muitos países europeus, com a queda drástica daqueles partidos associados com a implementação de austeridade.

O Fine Gael seguiu o modelo de campanha usado pelos Tories durantes as últimas eleições britânicas em Maio, na esperança que emular o seu sucesso e regressar ao poder. No contexto de uma crescente crise de habitação, rendas galopantes, crise de hipotecas e 500 pessoas em macas nos hospitais por tudo o país em Janeiro, a ideia de que eles representavam ‘estabilidade’ em oposição ao ‘caos’ de um governo sem eles, ganhou pouco eco. No máximo, tal como o seu discurso sobre a recuperação, isto foi mais uma vez contra produtivo.

Mesmo se o Fianna Fáil recuperou terreno, esta foi, ainda assim, a sua segunda pior eleição de sempre, mantendo-se abaixo dos 25%, quando apenas há uma década se situava nos 40%. Existiram dois fatores que contribuíram para o crescimento do partido.

Por um lado, muitos votantes tradicionais do Fianna Fáil, que “emprestaram” o seu voto ao Fine Gael nas eleições anteriores, voltaram a apoiar o Fianna Fáil, resultando assim num declínio nos votos para o Fine Gael. Por outro, o FF procurou reproduzir superficialmente uma imagem “social-democrata” com Míchael Martin a falar da natureza desigual da recuperação e da necessidade de investir em serviços públicos. O cinismo de tal abordagem não devia surpreender ninguém, no entanto, de alguma forma o voto no Fianna Fáil reflete, parcialmente, uma oposição ao neoliberalismo, que este patrocinou enquanto no poder.

Para o Labour Party, foi uma eleição desastrosa, onde quer a líder do partido como o seu vice tiveram dificuldades em assegurar os últimos lugares nas suas respetivas áreas. O Labour foi o mais castigado pelas suas traições e está reduzido a 7 deputados, quando nas últimas eleições em 2011 obteve 37 lugares. Em termos percentuais o seu voto caiu de 19,4% em 2011 para 6,6% agora. O desaparecimento colocou na agenda a necessidade de construir uma verdadeira esquerda que quebre com a lógica da austeridade e do capitalismo.

Embora alguns resultados sejam contraditórios, em geral há uma continuada viragem à esquerda na sociedade. Renua, um partido de direita neoliberal, altamente promovido e encorajado pelos media dominantes, foi completamente esmagado.

O Sinn Féin vira à direita

O Sinn Féin (SF) elegeu mais 9 deputados, mas com 13,8% dos votos, em comparação com os 9,9% alcançados em 2011, não se deu o grande avanço indicado alguns meses atrás. Ao longo da campanha, o SF verbalizou a raiva sentido por aqueles que sofreram com a austeridade, mas aceitou os parâmetros económicos do sistema e propôs apenas reformas mínimas.

O seu manifesto advogava apenas um aumento de 50 cêntimos do salário mínimo e por 100.000 habitações sociais para serem construídas até 2030, apesar do facto de haverem hoje 130.000 pessoas em listas de espera para uma habitação. No debate em volta do “espaço fiscal” (o ‘superavit’ fiscal conseguido com as políticas de austeridade) o SF apressou-se a mostrar a sua natureza “responsável” à elite capitalista, defendendo apenas a reversão de 20% das medidas austeritárias implementadas desde 2009 ao longo do mandato do próximo governo.

Não fizeram qualquer referência a uma fiscalidade progressiva ou a intenção de ir atrás dos lucros das multinacionais, incluindo os 17 mil milhões de euros em dívida fiscal da Apple ao Estado Irlandês. Esta moderação na sua abordagem significou que o Sinn Féin falhou em inspirar um eleitoral trabalhador crescentemente de esquerda e anti-sistema.

A Anti Austerity Alliance avançou um programa de mudança radical e argumentou durante as eleições pelo construção de um novo partidos dos trabalhadores para tomar o lugar do desacreditado e pró-austeridade Labour Party, que lutasse por um governo de esquerda. No primeiro panfleto que produziu lia-se:

“O Labour já não é o partido de Connoly, Larkin ou da classe trabalhadora. Nenhum dos principais partidos nos representam. Infelizmente o Sinn Féin parece preparado para trazer o Fianna Fáil e o Labour de volta ao poder.

A AAA defende a criação de um novo movimeento político do povo trabalhador.

Depois das eleições, a AAA irá discutir com outras forças para ver se um governo genuinamente de esquerda, que gira a sociedade em função das necessidades das pessoas invés do lucro, pode ser formado.”

AAA – PBP

Para a plataforma Anti Austerity Alliance – People Before Profit, duplicar a sua representação para 6 lugares e receber 3,9% dos votos nacionalmente é um bom resultado. Infelizmente a AAA falhou por muito pouco a eleição de um deputado na cidade de Limmerick, onde um membro do Socialist Party, Cian Prendiville, ficou a 278 votos de derrotar Jan O’Sullivan do Labour. Para além da reeleição de Ruth Coppinger e Paul Murphy, a AAA elegeu o seu primeiro deputado fora da cidade de Dublin, com a eleição de Mick Barry, também membro do Socialist Party, em Cork. Este avanço na segunda maior cidade do país representa uma vitória importante para a AAA.

Nos 13 círculos eleitorais onde se candidatou, a AAA obteve em média 6% dos votos e conseguiu votações respeitáveis mesmo em zonas onde apenas conseguiu organizar campanhas limitadas e se candidatava pela primeira vez. Diana O’Dwyer, candidata por Dublin Central, e Fiona Ryan, em Cork South Central, receberam 721 (3%) e 937 (1,7%) dos votos preferenciais respetivamente.

Ambas as campanhas tiveram como tema central a revogação a 8ª emenda da Constituição – que criminaliza o aborto – e o direito de escolha das mulheres, exigências que estiveram em destaque em todo o material de campanha. Os seus votos representam o crescente desejo pelo direito ao aborto na Irlanda. Uma sondagem do Irish Times, na semana anterior às eleições, mostrou que 64% quer a revogação da 8ª emenda, uma sondagem mais recente da Amnistia Internacional e Cruz Vermelha, demonstrou que 73% querem um referendo.

Uma grande coligação Fianna Fáil/Fine Gael?

Existe uma certa pressão para que o Fianna Fáil e o Fine Gael coloquem de lado as suas diferenças inexistentes e formem governo. Mas este não é um cenário desejado por ambos os partidos e por grandes setores da burguesia, que temem o crescimento da esquerda ou do Sinn Féin, como resultado dessa coligação sem precedentes. Mas se tal acontecesse e um governo de bloco central continuasse, assim, as políticas de austeridade, certamente dar-se-ia uma forte reação dos trabalhadores e outros setores afetados.

Se um tal entendimento entre os principais partidos não for possível, existe a possibilidade do Fianna Fáil tente formar uma coligação ao seu redor, Sinn Féin e outros partidos pequenos e independentes.

Construir o boicote

A questão das taxas da água terá de ser resolvido por qualquer governo que se venha a formar. Fianna Fáil prometeu “abolir a Irish Water” e estaria sob pressão para suspender as taxas. Mesmo o Fine Gael não pode simplesmente forçar este fiasco profundamente impopular. Os resultados eleitorais são um encorajamento da campanha de boicote. O movimento contra as taxas da água deve mobilizar-se para exigir ao próximo governo a abolição das taxas. Podemos vencer esta luta.

A própria discussão sobre a abolição das taxas deu ímpeto para que muitos aderissem ao boicote, com notícias de muitos cancelamentos de débitos diretos para a Irish Water. O Socialist Party e a AAA desde o início, e ao contrário do Sinn Féin, argumentaram que o boicote de massas é a chave para derrotar as taxas. Existe agora uma real possibilidade de defender e alargar significativamente o boicote e dar um golpe final às taxas, independentemente das intenções do Fianna Fáil e Fine Gael, no cenário destes chegarem a acordo.

Essa vitória poderá empoderar outros movimentos para avançarem sobre outros temas como cortes, baixos salários, habitação, etc. A resiliência demonstrada pelos motoristas da Luas (elétricos) na sua greve, é um indicador do potencial de desenvolvimento de novas batalhas nos locais de trabalho, à medida que o desejo dos trabalhadores em receberem a sua parte da recuperação económica que ajudaram a criar aumenta.

Aspirações de uma mudança real

As aspirações populares são de mudança. No entanto, isso não ficou completamente refletido nos resultados eleitorais. Para além de votar, é necessário que as pessoas se tornem ativas e se envolvam na política e na luta. Isto aconteceu, de forma parcial, com o movimento contra as taxas da água e o referendo por casamento entre o mesmo sexo. Precisamos de um novo partido que tome o lugar do Labour e que reflita as aspirações de mudança real, um partido que envolva a classe trabalhadora na ação política. Todos os que se encontram genuinamente no campo da esquerda devem ter lugar nesse partido.

O grupo parlamentar alargado da AAA-PBP pode desempenhar um papel decisivo defendendo, no novo parlamento, as suas posições independentes, para que a riqueza da sociedade seja usada, através de medidas socialistas, para acabar com toda a austeridade. Defender, igualmente, a independência da esquerda face aos grandes partidos, ao nomear um candidato para Taoiseach, a AAA-PBP procurou enfatizar a necessidade de uma esquerda independente de partidos, incluindo o Sinn Féin, que defendem o sistema capitalista.

O grupo pode fazer pressão para a abolição de impostos e taxas austeritárias injustas e para a implementação de um programa pública de construção de habitação e para a construção de melhores serviços públicos. Pode, igualmente, ser uma força de lidere a luta pelo progresso social e pela revogação da 8ª emenda. Devia também procurar ganhar apoio popular para que a riqueza e dos recursos da sociedade sejam propriedade pública, gerida democraticamente, para responder às necessidades da maioria através de um planeamento económico socialista.

O Socialist Party irá continuar a trabalhar no seio da AAA e da nova esquerda parlamentar como parte da luta por um governo de esquerda neste país. Os nossos membros Ruth Coppinger, Paul Murphy e Mick Barry irão apoiar e dar voz às principais lutas dos trabalhadores, juventude e mulheres na sociedade irlandesa, assim como defender a necessidade de uma alternativa socialista ao podre sistema capitalista na Irlanda.