Bernie Sanders: Um comboio do qual a esquerda não se pode apear

Posted on 29 de Março de 2016 por

0


Bernie Sanders em Madison falando para mais de 10.000 pessoas, foto retirada do digitaljournal.com

João Reberti, Socialismo Revolucionário

As Primárias

Como acontece de 4 em 4 anos, o foco dos media internacionais aponta, qual fiel girassol adulador, para o “free world”: os estimados Estados Unidos da América. A razão da preocupação? A eleição do general supremo da maior potência mundial. Não é preciso ser especialista em relações internacionais para perceber o impacto das alterações, por mais subtis que aparentem ser, na correlação de forças políticas da América do Norte. A maior economia do mundo tem tanto a capacidade como a pretensão de se imiscuir em todos os assuntos mundiais. Não há apenas um Estado imperialista. No entanto, a balança de poder cai, ainda confortavelmente, para o lado do imperialismo americano.

Entende-se, portanto, a natureza da atenção dada às primárias estadunidenses no plano internacional. Por esta altura, já é seguro afirmar que as duas corridas realmente existentes são: Donald Trump vs Ted Cruz, no partido Republicano; Hillary Clinton vs Bernie Sanders, por parte do dito Partido Democrata. Porquê “dito”? Porque, como veremos, este se encontra blindado de várias formas à real influência das votantes.

As primárias vão-se sucedendo, estado após estado, e a votação pelos registados elege delegados. Um certo número de votantes dá direito a um delegado, e é este que vota pelas pessoas no candidato da primária. Se houver empates na eleição de um delegado, recorre-se ao lançamento de moeda (curiosamente, Clinton ganhou 5 lançamentos seguidos no mesmo estado). Mas para além dos delegados, que representam a vontade de centenas de pessoas, há ainda os super-delegados — ex-membros do congresso, ex-senadores, entre outros, ainda afectos ao Partido Democrata — que individualmente têm o mesmo peso que os “simples” delegados e que, conjuntamente, constituem 20% do total dos delegados! A resistência a alterações significativas vindas de baixo dá-se com este sistema.

Mas esquecendo os detalhes, se bem que importantes, dos meandros da política norte-americana, o interesse de qualquer verdadeiro socialista em Bernie Sanders advém da oportunidade que ele representa para a classe trabalhadora estadunidense. Produto das circunstâncias históricas, uma consciencialização e politização pós-crise de 2008, Bernie e a sua retórica alicerçada em temáticas económicas encontraram tracção na mobilização de vastos sectores da classe trabalhadora. É devido a essa preferência que se torna possível estabelecer laços com a classe trabalhadora de forma mais alargada, pois esta mobiliza-se por necessidade como um sistema nacional de saúde, um ensino superior gratuito e um salário mínimo nacional.

Sabemos, no entanto, que nada disso depende única e somente da eleição de Bernie, mas é no processo de discussão e luta concreta que isto se tornará evidente para um grupo maior de pessoas. Falamos de comícios tão participados que centenas de pessoas acabaram por ficar à porta. Pelo contrário, nos comícios dos seus adversários, sabe-se que foi necessário recorrer a agências de figurantes para criar uma mancha humana.

O que fazer?

“Qual o papel dos socialistas?”, pergunta a nossa secção irmã, Socialist Alternative. O movimento por detrás da campanha Bernie é um presságio do potencial revolucionário da classe trabalhadora e, em particular, da juventude. Esta, após a crise de 2008, carregou nas costas a recuperação económica norte-americana. Apesar de uma taxa de desemprego relativamente baixa (5% neste momento), o sub-emprego, a precariedade, a dívida estudantil e um salário mínimo de pobreza (somente capaz de impedir ao trabalhador o recurso a food-stamps), radicalizaram camadas vastas dos jovens trabalhadores americanos. Quando se fala em ensino superior gratuito a nível federal até os estudantes menos politizados demonstram interesse. A situação é tal que o 2º maior tipo de dívida nos EUA é a dívida aos bancos para poder estudar, atrás apenas das dívidas para habitação! Portanto, quando surge um candidato que põe em causa esse sistema de ensino e oferece uma alternativa, por mais reformista que seja, torna-se evidente que posições de facto socialistas podem produzir um eco nas mentes de milhares de pessoas.

Mas permanece a pergunta: o que deve fazer um socialista? Alguns consideram mais importante denunciar Sanders como social-democrata e recusar-se a participar no movimento, esquecendo que qualquer pessoa que tem pretensões de emancipar a classe trabalhadora tem de manter-se, de facto, junto da classe trabalhadora! Trata-se de aproveitar o momento para radicalizar milhares de trabalhadores, fazendo a crítica à natureza antidemocrática e burguesa do Partido Democrata, defendendo a necessidade de um movimento de bases, organizado, batendo-se por mudanças efectivas através da luta concreta nos diferentes espaços de acção.

É certo que não será fácil. Os novos militantes ou simpatizantes aparecerão com diferentes níveis de conhecimento político. O desafio da educação recai sobre aqueles que têm o entendimento, devido à militância e à formação, da necessidade objectiva de crescer enquanto movimento, quer qualitativamente, quer quantitativamente. Tal é estritamente necessário para um partido socialista alargar as bases para além das pessoas com uma predisposição para o marxismo, para além dos círculos universitários e sindicais.

Os momentos possibilitados pela campanha são inestimáveis. Estar em contacto com movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) e sindicatos, torna inevitável a criação de ligações e a concertação de acções. Em altura alguma se define Bernie Sanders como um fim. Pelo contrário, a sua campanha é conscientemente utilizada como um meio.

E depois?

Como é que se garante a sobrevivência do movimento após as primárias, ou até após as presidenciais? A verdade é que não se garante. O máximo que podemos propor-nos a obter é a consolidação de novos camaradas e aliados, transformando tanto as condições objectivas como as subjectivas da luta de classes. O sectarismo tem o perverso efeito de assegurar que a “pureza” das convicções não chega a ninguém, sendo no entanto uma aposta segura, sem riscos, sem diluição de carácter. É também uma aposta que relega essas seitas para um canto da luta de classes, gritando ao comboio que passa.

É tarefa de qualquer revolucionário organizar o proletariado, e para organizar é preciso informar. É nesse sentido que a nossa secção irmã não se coíbe de criticar abertamente as posições do Bernie. Por exemplo condena a falta de internacionalismo de que é prova a política externa de Sanders, condena o prometido apoio a Hillary Clinton caso perca as primárias e defende a candidatura independente de Sanders nesse cenário.

É preciso ter em consideração que falamos do coração do império, a potência hegemónica num sistema quasi-unipolar. A ideologia dominante — plasmada em miriades de matizes, desde o anticomunismo patente nas gerações mais velhas ao american dream que se desvanece progressivamente — foi enfraquecida mas permanece forte. As condições objectivas influenciaram a consciência colectiva. Com a crise de 2008 ficou demonstrado, cristalinamante, o teor da opção política que salvaguardou os bancos, a clara opção de classe que determinou o resgate da banca financeira. Todavia, a estrutura, a organização ou partido capaz de encaixar essa crise e canalizar o descontentamento para mobilizações concretas, com um programa político, ainda não existia, face ao período de refluxo após a queda da União Soviética.

Estes últimos anos foram, portanto, anos de reconfiguração política, de reorganização de forças, depois de retiradas as devidas lições do porquê do aparente falhanço dos últimos movimentos. Não podemos senão procurar guiar e influenciar a classe trabalhadora durante o próximo período de crise que se avizinha. Sabemos que sem um partido organizado e munido do marxismo, os esforços conjurados serão em vão ou, no máximo, pouco eficazes.