A política identitária e a luta contra a opressão

Posted on 5 de Fevereiro de 2016 por

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LGSM

Hannah Sell, Socialism Today Nº 192 Outubro 2015 (revista mensal do Socialist Party, CIT em Inglaterra e no País de Gales), traduzido e adaptado

Nos últimos anos, houve um crescimento do que geralmente se chama “identity politics” (política identitária) entre jovens radicalizados perante as várias formas de opressão.

A história mostra que estes movimentos precisam de ir além da identidade. O ponto mais alto da revolta contra o racismo nos EUA, nas décadas de 1950-60, por exem-plo, foi alcançado com o partido das Panteras Negras, fundado em 1966 com a mensagem brilhante: “Não combatemos o racismo com o racismo. Combatemos o racismo com a solidariedade. Não combatemos o capitalis-mo com o capitalismo negro. Combatemos o capitalismo com o socialismo”.

Hoje em dia, tanto o movimento Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam) como o movimento 15Now (pelo salário mínimo de $15 à hora) são as primeiras etapas de uma nova insurreição contra a pobreza e o racismo nos EUA. Apesar disto, o retrocesso da consciência após o colapso da URSS e o triunfalismo capitalista que o acompanhou, significam que o movimento não começa com uma visão socialista, tal como as Panteras o deixaram.

A política que tem emanado das universidades concentra-se na discussão das experiências pessoais. Aqui se destacam a interseccionalidade e a teoria do privilégio. No Reino Unido, estas teorias têm-se tornado lugar-comum entre grupos feministas universitários. Os interseccionalistas defendem que as opressões se intersectam. Isto acontece: uma mulher negra de classe trabalhadora é triplamente oprimida, por exemplo. Mas os interseccionalistas, muitas vezes, ficam-se por catalogar opressões.

Apoiantes da teoria do privilégio são conhecidos pela frase “verifica o teu pri-vilégio!” (“check your privilege”). A fundadora desta teoria, Peggy McIntosh, defende que um homem heterossexual, branco e de classe alta, por exemplo, carregava consigo um “saco invisível” de privilégios imerecidos. Diz ela que o poder não está concentrado numa classe ou no Estado, mas espa-lhado pela sociedade, existindo em todas as relações pessoais e sociais. Assim, foca-se em exortações à mudança individual.

O racismo enraizado

No Reino Unido, onde o racismo é muito difundido, o racismo óbvio é muito menos  socialmente aceitável do que era há 30 anos. Isto aconteceu devido a um conjunto de razões, acima de tudo a determinação e confiança acrescida das populações negras e asiáticas na luta contra o racismo. Outro importante factor foi o grande envolvimento de trabalhadores negros e asiáticos nos sindicatos e na luta conjunta com trabalhadores brancos. Estes factores ajudaram a desenvolver um sentimento anti-racista forte entre largas camadas da população branca, especialmente os jovens.

Mas o racismo continua enraizado. A probabilidade de se ser parado e revistado pela polícia é 28 vezes superior sendo-se negro ou asiático. A diferença salarial entre trabalhadores brancos e os de minorias étnicas tem até aumentado nos últimos anos. A taxa de desemprego dos jovens negros é mais do dobro da dos jovens brancos.

Nos EUA, a diferença é ainda maior. Assistiu-se ao desenvolvimento de uma classe média e até de uma pequena elite negra e ambos os processos se reflectem na eleição de um homem negro como presidente. A vasta maioria da população negra continua, apesar disso, entre a mais pobre e oprimida da sociedade, sob violenta repressão estatal. Cento e trinta e cinco afro-americanos foram mortos pela polícia só na primeira metade de 2015.

O racismo não provém de preconceitos individuais, mas de algo mais profundo: a natureza e desenvolvimento do capitalismo. Malcolm X bem afirmou que “não se poder ter capitalismo sem racismo”. O capita-lismo, como Marx famosamente escreveu, referindo-se ao papel da escravatura na acumulação primitiva de capital, surgiu “da cabeça aos pés, a escorrer sangue e lama por todos os poros”. Com ele desenvolveram-se toda a espécie de teorias pseudo-científicas forjadas como justificação da escravização de africanos.

Estas ideias foram depois adaptadas para justificar o colonialismo, uma dominação que só cessou devido aos movimentos revo-lucionários. A exploração económica, no entanto, é mais brutal que nunca. Há 250 anos, a desigualdade entre países mais pobres e mais ricos era de cerca de um para cinco. Hoje é de um para quatrocentos.

A opressão das mulheres

Também o sexismo flagrante não é aceite tal como no passado, particularmente nos países capitalistas avançados. Não obstante, a opressão continua, sem ter origem meramente nas atitudes individuais, mas antes no papel da mulher na família e na sociedade de classes.

A maioria de nós pensa na “família” como sendo as pessoas que lhe são mais queridas. Historicamente, no entanto, a ins-tituição família actua como um agente de controlo social, com o pai como “chefe de família” responsável por disciplinar a mu-lher e as crianças. E embora estas concepções tenham esmorecido com o aumento da confiança das mulheres, estão longe de ser eliminadas. A ideia da mulher como propriedade permanece, assim como a aceitação da violência e da coersão sobre ela.

Isto era lei até há pouco tempo. A violação no casamento só foi ilegalizada no  Reino Unido em 1991, em Espanha em 1992 e na Alemanha em 1997. Embora ilegal, a violação no casamento continua prática comum e impune na maioria das vezes. Estima-se que, no Reino Unido, apenas 15% das violações sejam reportadas à polícia e que, destas, apenas 7% resultem em condenação. De acordo com a ONU, de todas as mulheres mortas mundialmente em 2012, quase metade foram mortas pelos seus companheiros ou familiares. Em contraste, apenas 6% dos dos homens foram mortos por companheiras ou familiares.

Ao mesmo tempo, as mulheres continuam a suportar o trabalho doméstico. Em muitos casos, permanecem, como dizia Leon Trotsky, “as escravas dos escravos”. No Reino Unido, por exemplo, estima-se que, em média, uma mulher faz 17 horas semanais de trabalho doméstico (incluindo cuidar das crianças), enquanto um homem faz menos de 6.

Quem mais lucra, no entanto, é o  capital. Ao colocar  sobre as mulheres o fardo da vida doméstica, da educação da nova ge-ração (futura força de trabalho), e do tratamento dos doentes e mais velhos, aparta-as da participação política.

Poder concentrado na classe capitalista

Dizer que o poder não está concentrado numa classe é um erro. Hoje, a riqueza e poder estão concentrados ainda em menos mãos — os donos dos maiores bancos e corporações — do que no tempo de Marx. De acordo com a Oxfam, os 85 mais ricos do planeta têm tanta riqueza como a metade mais pobre da população mundial. Nestes 85 incluem-se cinco mulheres e um africano. O seu papel na sociedade, no entanto, não deriva primeiramente da sua cor ou género, mas do facto de fazerem parte de uma ínfima elite.

As 100 maiores empresas controlam 70% do comércio global. Mesmo que as suas administrações incluíssem muitos negros ou mulheres, não faria qualquer diferença material para a classe trabalhadora e para os pobres em todo o mundo. Basta olhar para a África do Sul, onde a incorporação de uma minoria negra na classe capitalista não fez qualquer diferença para a maioria. O capitalismo é já incapaz de ser um agente de progresso social. Muitos dos direitos dados por garantidos pelas gerações mais velhas na Europa, como um trabalho seguro, casa e reforma, são agora coisas do passado.

Dizer que as relações sociais da sociedade moderna são capitalistas não equivale a uma visão “economicista”, a assumir que cada aspecto da superestrutura — o Estado, a política, a cultura — é rigidamente determinado pela economia. Existe, sim, uma relação entre ambas. As atitudes sociais e políticas reflectem não apenas o estado actual do capitalismo, como também algumas reminiscências do passado e — particularmente nas lutas da classe trabalhadora e dos oprimidos — as sementes de um futuro me-lhor.

Não obstante, enquanto vivermos numa sociedade capitalista, onde a riqueza e o poder pertencem a uma pequena elite que controla e detém a indústria e a ciência, então a superestrutura dessa sociedade irá, em última instância, reflectir os interesses dessa elite.

Se a luta de massas força o capitalismo a adaptar-se — como tem sido o caso dos direitos LGBT, igualdade salarial e outras medidas —, a mudança profunda e duradoura só será alcançada pelo socialismo.

Na Rússia, em 1917, a classe traba-lhadora liderou um movimento que derrubou o capitalismo pela primeira e, para já, única vez na História. A pobreza extrema e o isolamento do Estado Operário levaram à sua degeneração.

Na Rússia “atrasada”, foram introduzidas rápidas mudanças legais que estavam décadas à frente de qualquer país capitalista. Entre elas o sufrágio universal, o casamento civil e o divórcio quando requerido por qualquer uma das partes, o salário igual, a licença de maternidade, o direito ao aborto e a legalização da homossexualidade. Às nacionalidades oprimidas foi dado o direito à auto-determinação.

Evidentemente, isto não basta. Décadas após a legislação de igualdade salarial ter sido aprovada no Reino Unido, as mulheres ganham, em média, menos 5000£ por ano que os homens. Questionando a opressão feminina na URSS, Trotsky escreveu que a igualdade legal era um passo em frente, mas que a igualdade real nas relações sociais precisava de um “arado mais fundo”, capaz de gerar a igualdade económica real, levantar o fardo doméstico e eliminar comportamentos milenares. Várias medidas começaram a ser implementadas após a Revolução (creches grátis, refeitórios comunitários e lavandarias públicas), e  embora nunca totalmente realizadas devido à degeneração da URSS, mostraram que as tarefas domésticas podem desaparecer.

Muitos interseccionalistas põem pouca ênfase na exigência de medidas práticas e económicas capazes de diminuir o fardo da mulher. Mas libertar as mulheres de serem as cuidadoras, as cozinheiras e as lavadeiras de toda a sociedade é um pré-requisito essencial para acabar com a opressão. O capitalismo, em vez disso, anda para trás.

A austeridade afecta severamente as mulheres, cortando serviços públicos que aliviavam trabalhos que recaem sobre elas. Isto aplica-se igualmente às consequências nefastas, por vezes mortais, que afectam as pessoas portadoras de deficiência.

O combate ao preconceito

Apontar a necessidade de mudança radical não minimiza a  importância do combate à opressão enquanto vivemos nesta sociedade. Esta é uma batalha constante.

Os interseccionalistas defendem a criação de “espaços seguros” com tolerância zero a qualquer opressão. Mas é utópico tentar criar um espaço separado da sociedade. Isto pode até levar a ambientes anti-democráticos nos quais indivíduos que dominem um dado “espaço” se declaram oprimidos por ideias com as quais discordam.

Existe ainda a tendência perigosa de medir o valor da contribuição de alguém para uma discussão pelas opressões que sofre. Isto é um erro. A única primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, sofria opressão individual enquanto mulher, mas o seu programa neoliberal foi completamente oposto aos interesses das trabalhadoras.

O capitalismo molda a perspectiva de todos desde o nascimento, com todas as distorções da personalidade humana que isso comporta. Isto inclui comportamentos que se esperam de cada um, em conformidade com um género determinado. É impossível escapar-lhe totalmente. Claro que os socia-listas apoiam o direito dos indivíduos definirem o seu género e sexualidade. No entanto, apesar da radicalização nestas questões, isso não significa que seja possível criar espaços dentro do capitalismo completamente livres das pressões da sociedade. Nesta sociedade, os papéis de género são uma realidade objectiva. Até a rejeição das normas de género capitalistas significa reagir a essas normas, e portanto ser afectado por elas. Não é possível prever exactamente como as relações humanas, incluindo o género, irão florescer no futuro, libertas do rígido colete de forças imposto pelo capitalismo.

O papel da classe trabalhadora

Hoje, como quando Marx chamou à classe trabalhadora “coveira do capitalismo”, esta é a força capaz de nos livrar do sistema. Tanto a teoria do privilégio como a interseccionalidade listariam o “classismo” como uma forma de opressão, entendido normalmente como preconceito contra pessoas pelo seu sotaque ou código postal.

A ideia de que um trabalhador nigeria-no tem mais em comum com um trabalha-dor britânico do que com Aliko Dangote, o único africano na lista dos 85 mais ricos do planeta, não é compreendida. O facto de ser a classe trabalhadora a responsável pela criação dos lucros dos capitalistas e capaz, através da acção colectiva, de travar o capitalismo, é dispensado como ideia antiquada.

No entanto, esta classe não “desaparece”. É hoje mais forte do que na época da Re-volução Russa. Países onde os trabalhadores constituíam uma pequena minoria há um século, têm hoje enormes classes traba-lhadoras. Nos países desenvolvidos, a desindustrialização significa uma diminuição do operariado fabril, mas os trabalhadores têm o poder imenso de parar a sociedade quando entram em greve.

A desindustrialização não levou a juventude a tornar-se “classe média”. Empurrou-a para baixos salários, trabalho temporário, normalmente no sector terciário. Igualmente, largas camadas da população — incluindo funcionários públicos e professores — antes considerados classe média, são arrastados para a classe trabalhadora.

Tem havido um aumento global de conflito social, e até movimentos revolucioná-rios. A partir destas lutas, maioritariamente derrotadas, conclui-se o que é necessário para mudar a sociedade. Tal requer um mo-vimento revolucionário de massas, que junte diferentes sectores da classe trabalhadora — com diferentes experiências e perspectivas — num partido de massas com um programa claro e uma liderança responsabilizável e determinada.

É, portanto, crucial que um tal partido de massas inclua nas suas fileiras as camadas mais oprimidas da classe trabalhadora e que seja uma força vibrante e democrática em que todos os participantes se expressem. O seu programa tem de lutar pelos direitos não só da classe trabalhadora em geral, mas dos grupos oprimidos, tal como fizeram os bolcheviques.

É a luta que unifica

É ridículo dizer que quem luta contra a sua opressão específica deve sentar-se e “esperar” pela luta de toda a classe trabalhadora. Mas um movimento tem sempre mais hipóteses de ser bem sucedido se conseguir chegar a outros sectores da classe traba-lhadora. É importante que o programa desse movimento tente fazê-lo.

Para acabar de vez com o racismo nos EUA, será necessário acabar com o capita-lismo e, portanto, envolver na luta diferentes sectores da classe trabalhadora — negros, hispânicos, asiáticos e brancos. A população afro-americana constitui 13% da população, não vencerá sozinha.

A classe capitalista aumenta a sua força dividindo os oprimidos. Os oprimidos aumentam a sua força unindo-se.
Muitas das pessoas que procuram uma maneira de alterar a sociedade e são atraídas pela política identitária, rapidamente esbarram com os seus limites.

Uma pequena indicação desta tendência é a popularidade do filme Pride entre jovens. O filme conta a história verídica do “Lésbicas e Gays em Apoio aos Mineiros” (LGSM, na sigla original). O LGSM reco-nheceu as semelhanças entre a luta contra os conservadores e a luta que os mineiros ingleses travaram durante a greve de 1984/85. O seu apoio aos mineiros não foi fácil — com preconceitos de ambos os lados — mas, no final, forjaram a unidade. O LGSM compreendeu que a vitória para os mineiros era uma vitória para si, e uma derrota massiva para a Thatcher, para os conservadores e para a classe capitalista. Não disse aos mineiros, tipicamente homens brancos, hete-rossexuais e inicialmente homofóbicos, para “verificar o seu privilégio”. Por causa disto, grandes sectores do movimento dos traba-lhadores participaram plenamente na luta pela emancipação LGBT, incluindo o Sindicato Nacional de Mineiros.

Esta greve foi um evento histórico no Reino Unido que será eclipsado pela luta futura. Para alguns interseccionalistas, será necessário ver o poder da classe trabalhadora para concluir que o caminho não é o dos grupelhos fragmentados, mas sim o da luta de classes. Números crescentes de jovens, particularmente quando participam em lutas concretas, já estão a ser atraídos pelas ideias socialistas como a única via para a emancipação de toda a humanidade.