Um presidente de classe e de luta

Posted on 11 de Janeiro de 2016 por

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Os candidatos à Presidência da República, Edgar Silva (D) e Marisa Matias (E) à saida do debate com os 10 candidatos às Eleições Presidenciais na Antena 1, em Lisboa, 4  de janeiro de 2016. MÁRIO CRUZ/LUSA

Editorial d’A Centelha nº 2 Janeiro/Fevereiro 2016

Após dez anos de serviço, Cavaco abandona o Palácio de Belém com o acre fedor do neoliberalismo entranhado nas luxuosas poltronas. Com seu beneplácito, os governos de Sócrates, Coelho e Portas reescreveram as leis laborais abandonando os trabalhadores aos caprichos do patronato. Sob sua protecção, a banca privada delapidou o erário público. Entre as suas raras aparições, nas quais titubeava boçalidades sobre a repartição de sacrifícios, o Estado Social — a educação, a saúde, os transportes — foi desmontado e entregue em peças ao capital privado para que este lucrasse com as necessidades e direitos básicos dos pobres e dos trabalhadores. Como acto final do seu mandato, suportou o governo PSD/CDS até às mais absurdas consequências e, sempre que para tal foi necessário, espezinhou a Constituição. Em suma, Cavaco, durante esta longa década, foi o zeloso defensor dos interesses da sua classe contra os interesses da nossa.

Simultaneamente, preparava essa classe de proprietários um outro representante: Marcelo Rebelo de Sousa.

O “professor”, como é meigamente chamado nos programas televisivos onde, entre incontáveis aldrabices, defendeu a solidez do BES, é orgulhoso filho do Ministro do Ultramar de Marcello Caetano — e nomeado em homenagem ao ditador —, além de presidente vitalício da Fundação Casa de Bragança, uma organização monárquica. Mas apesar destas pouco democráticas credenciais, viu-se durante anos não só a fazer a sua campanha, como também a ser pago para isso. Um voto neste veterano do PSD é um voto na continuação de Cavaco, e toda a comunicação social, aparelho de propaganda do grande capital, fala já no seu “professor” como vencedor garantido.

Ainda assim, o espectáculo da democracia burguesa não pode parar. Apoiada pela ala direita do PS, é também candidata ao mais alto cargo da República a beata Maria de Belém, ex-presidente do seu partido e ministra da saúde no governo de Guterres, após o qual a conjugou o cargo de Presidente da Comissão Parlamentar de Saúde com uma conveniente posição no Grupo Espírito Santo Saúde. Defende a permanência na NATO e até o envio de tropas portuguesas para os conflitos imperialistas dos EUA. Diremos sucintamente que, sob a camada de laca que fixa a sua cabeleira, habitam as mesmíssimas ideias que encontraram um mais austero agasalho sob a careca marcelista.

Numa débil espécie de oposição a este duo ergueu-se o candidato da ala esquerda do PS, Sampaio da Nóvoa, durante anos reitor da Universidade de Lisboa. No seu manifesto lê-se o vazio da moribunda social-democracia. “Tempo da cidadania”, “presidente de causas”, “dignidade humana”… Questões centrais, como a União Europeia, a dívida, o Estado Social, as leis laborais e o emprego são dissolvidas em chavões insonsos. O seu discurso é um interminável chorrilho de coisa nenhuma, com um único fio condutor: a conciliação. Este é, sem dúvida, o candidato da conciliação de classes, da paz social, da sonolência. Representa, acima de tudo, as aspirações ingénuas das camadas pequeno-burguesas e de funcionários públicos que resistem à radicalização. Fará, no entanto, não a política dessas obtusas camadas, mas antes a firme política da burguesia que escapou à embriaguez triunfal da restauração do capital monopolista, aquela que entende o perigo de continuar um ataque declarado aos trabalhadores e pretende uma gestão cautelosa do capitalismo. Um voto em Nóvoa é um voto numa austeridade cor-de-rosa, no mesmo fardo que representa a sua camarada Maria de Belém e até o “professor” Marcelo, mas redistribuído com redobrada atenciosidade pelos lombos de quem trabalha.

Apenas dois candidatos figuram como alternativas à política de direita. São Edgar Silva, do PCP, e Marisa Matias, do BE, com candidaturas difíceis de distinguir.

É lamentável que, mais uma vez, as direcções destes partidos não tenham forjado a união necessária para apresentar um candidato único da esquerda, capaz de reunir os votos dos que procuram uma arma para golpear os seus capatazes, por mais romba que seja. E, sem dúvida, estas são armas rombas. Não  está reflectida nos manifestos e discursos destes candidatos, a cada vez mais aguda e militante consciência que germina nas bases dos seus partidos.

Os manifestos são cópias dos programas eleitorais apresentados nas legislativas de 2015. Mas, aqui, Silva mostra-se ainda mais recuado que o PCP, admitindo, em nome de um mirabolante “sentido de responsabilidade”, que aprovaria o orçamento rectificativo do PS. Aprovaria um roubo aos trabalhadores para dar à banca privada… responsavelmente!

Marisa Matias, por seu lado, não aprovaria o roubo. Apesar disso, as lições que a experiência grega deixou à classe trabalhadora permanecem por tirar não só em Silva, como também em Matias.

Mais uma vez, as campanhas da esquerda vergam-se ao institucionalismo, em vez de brotarem das ruas e dos locais de trabalho, mobilizando os explorados. Importante, no entanto, é notar que estes candidatos são os mais susceptíveis à pressão das organizações dos trabalhadores, e especialmente dos militantes de base dos seus partidos. A vitória de um deles seria um pequeno passo rumo ao aprofundamento da contradição de classes, a uma conjuntura política mais favorável não só a conquistas das organizações de trabalhadores mas também à maior e melhor organização da classe durante o processo de luta.

O que tanto Silva como Matias, tal como as suas direcções partidárias, não compreendem, é que defendem um “interesse nacional” que não existe senão na fantasia constitucional. Ou bem que defendem o interesse do Trabalho, ou bem que defendem o interesse do Capital. Não podeis servir a Deus e a Mamom.