Suécia: Tentativa de fogo posto contra membros do CIT

Posted on 7 de Novembro de 2015 por

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Violência racista aumenta, mas a solidariedade prevalece

Repórteres do Offensiv, jornal semanal do Partido da Justiça Social (RS na sigla original) (CIT na Suécia)

Três apartamentos de membros do CIT na Suécia foram sujeitos a fogo posto às 3h da manhã no passado Domingo (25/10/2015). Dois dias antes, tiveram lugar as primeiras mortes em escolas na Suécia quando um jovem racista esfaqueou duas pessoas até à morte e feriu gravemente outras duas.

Na mesma semana, cinco edifícios que abrigavam refugiados ou seriam utilizados para esse fim foram incendiados, em diferentes partes da Suécia. O que se está a passar na Suécia e quais as perspectivas?

Fogo posto em Gothenburg

O fogo posto contra membros do CIT aconteceu num dos bastiões da organização, Hammarkullen em Gotemburgo. Um dos apartamentos pertencente a Kristofer Lundberg, dirigente do RS na Suécia Ocidental e secretário-geral de uma Associação de Moradores de uma zona que engloba o nordeste de Gotemburgo, incluindo Hammarkullen. O partido é bem conhecido nesta cidade devido às suas várias campanhas locais por habitação e contra os cortes, pela sua liderança no movimento anti-racista e por apoiar a luta dos curdos.

Os perpetradores tentaram incendiar os três apartamentos através das caixas de correio e caixotes do lixo localizados nas escadas. Felizmente, um dos incêndios foi imediatamente descoberto e os restantes rapidamente extintos. Trinta e cinco bombeiros estiveram envolvidos durante três horas e meia para extinguir o fogo nas escadas.

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Reunião local de emergência organizada por membros do RS em resposta ao ataque

Um grupo de membros do RS reuniu-se imediatamente e uma reunião foi convocada para o meio-dia. Os camaradas decidiram informar cada casa da área e convidar todos os residentes para uma reunião mais tarde no mesmo dia, organizada em nome do partido. Mais de 70 pessoas participaram, com muitos a expressar solidariedade e vontade de agir. Alguns formaram uma patrulha nocturna, enquanto outros foram postos de aviso. Uma concentração está a ser convocada para terça-feira e uma nova reunião pública para quarta.

Os media regionais reportaram este caso e a polícia afirmou informalmente que o viam como um crime político, ligado aos incêndios a abrigos para refugiados.

Incêndios e assassinatos na escola

Desde Março que 17 abrigos (activos ou prospectivos) para refugiados foram afectados por fogo posto e ataques violentos, um terço dos quais só na última semana. no caso de três deles, foram atacados apenas alguns dias após o anúncio de que iriam acolher refugiados. Num estudo publicado  pela revista anti-racista Expo, foi descoberto que os abrigos para crianças refugiadas são particularmente vulneráveis.

Na quinta, 22 de Outubro, um terrorista racista atacou uma escola em Trollhättan, uma cidade no oeste da Suécia. Anton Lundin Pettersson chegou à escola disfarçado de cavaleiro, uma variante do “cavalheiro” norueguês Anders Behring Breivik. Utilizava um capacete do exército alemão da Segunda Guerra Mundial. Transportava duas armas, uma espada e uma faca longa.

Numa carta de despedida, escreveu que os “estrangeiros” seriam o alvo do ataque e que a “Suécia não deveria aceitar tantos imigrantes”. Escolheu uma escola com uma grande população imigrante e as suas vítimas foram escolhidas com base na cor da pele. Um estudante assistente de 20 anos, Lavin Eskander, foi morto quando tentava parar o atacante, enquanto Ahmed Hassan de 15 anos foi esfaqueado até à morte, quando abriu uma porta. Duas outras vítimas foram seriamente feridas.

O assassino tinha uma conta no YouTube com um foco claro: filmes celebrando Hitler e a Alemanha Nazi, assim como o incitamento ao racismo contra o Islão e os Judeus. Também seguia material de Nazis contemporâneos, incluindo um blog que propaga a “importância da raça na sociedade”. Tal como no caso do “manifesto” de Anders Breivik, o multiculturalismo é visto como “um projecto do inferno”.

Ódio racista

Esta terrível atrocidade terrorista e outros ataques foram prepetrados no quadro de um aumento da polarização na Suécia, com os refugiados a servirem de bodes expiatórios e com opiniões de “não podemos aceitar mais”. O ódio racista na internet aumenta. Os ataques a alojamentos para refugiados têm sido apluadidos por racista anónimos. Um político local de um partido racista, os Democratas Suecos, perguntou porque não estava uma metralhadora instalada na ponte de Oresund [separa a Dinamarca da Suécia], numa publicação online, há umas semanas.

Na última semana, os Democratas Suecos apelaram aos seus seguidores para “actuarem” para parar os refugiados e a alocação de abrigos. “Agora está lançado”, disse Kent Ekeroth, um deputado dos Democratas Suecos num discurso em Trelleborg, no sul da Suécia.

Os países nórdicos viram no passado actos racistas odiosos deterrorismo. Em 1991-92, durante seis meses, o ‘Laserman’, John Ausonius, fez onze ataques com armas, dos quais um resultou em morte e os restantes em feridos graves. Em 2009-10, Malmö foi aterrorizada pelo ‘Laserman 2’, Peter Mang, que assassinou duas pessoas e tentou matar outras seis. Anders Behring Breivik assassinou 77 pessoas e feriu outras 42, a maioria das quais eram jovens social-democratas no seu campo de verão em Utøya.

Comum entre estes três eram as suas crenças racistas. Ausonius, Mang e Breivik estavam convencidos que a imigração era uma invasão de pessoas inferiores. A estes casos, juntam-se pelo menos trinta homícidos perpetrados por Nazis desde a década de 1980.

Esta não é uma questão de doença mental ou de “lunáticos”, como alguns tentaram fazer passar relativamente a Breivik. É terror e homícidio motivados por questões políticas e racistas, sempre ligados ao meio da extrema-direita, racista e Nazi. É possível que os indivíduos por trás destes ataques não estejam organizados, mas as suas ideias vêm de racistas organizados e são apoiadas por estes.

Os Democratas Suecos

As políticas dos Democratas Suecos (DS) são dominadas pelo slogan “Fim total à imigração por asilo”. A isto juntam exigências nacionalistas para que se dê mais atenção à bandeira nacional, ao rei e ao hino nacional.

Nós respondemos-lhes chamando à atenção para as suas propostas de cortes e privatizações. Por exemplo, eles propõem que as dotações do estado aos municípios sejam cortadas em cerca de €5 mil milhões até 2018 – o equivalente a eliminar 100 mil postos de trabalho municipais. Hoje em dia, os DS querem abolir a ajuda estatal aos municípios na assistência a novos refugiados.

Os DS espalham a mentira de que a vinda de menos refugiados permitiria mais dinheiro para os pensionistas e para a segurança social. Mas esta tendência de cortes sociais existe há mais de 20 anos, independentemente do número de refugiados – e tem sido apoiada pelos DS. Isto aplica-se quer na Suécia quer noutros países.

Cada vez mais, políticos de direita querem cooperar com os DS. Ao mesmo tempo, o partido aumenta a propaganda racista e atrai apoiantes nazis.

Anti-racismo e solidariedade

A chegada de refugiados à Suécia é a maior desde a Segunda Guerra Mundial. A última estimativa aponta para 140 mil a 190 mil novos refugiados este ano. Inicialmente, mesmo os políticos do regime perceberam a onda de solidariedade das pessoas comuns. O Primeiro-Ministro social-democrata, Stefan Löfven, chegou a discursar na primeira manifestação ‘Bem-vindos Refugiados’, em que participaram 15 mil pessoas.

No entanto, em linha com os restantes políticos da UE, o governo (social-democratas e verdes) chegou agora a um acordo com os quatro partidos da oposição burguesa sobre introduzir uma política mais restritiva. Isto inclui vistos de residência temporários, critérios de segurança mais apertados, deportações mais céleres, que os refugiados que chegam possam ser transferidos para outros países da UE e que os que ficam possam ser forçados a aceitar trabalhos precários e mal pagos.

Entre os trabalhadores e as pessoas comuns, tal como noutros países, tem havido uma mudança brusca na opinião pública relativamente aos refugiados. No final de Setembro, 44% afirmava que a Suécia deveria aceitar mais refugiados, comparativamente com 28% em Fevereiro. 31% chegava a considerar albergar um refugiado em sua casa.

Milhares estiveram envolvidos como voluntários nas estações de comboio e centros de refugiados. Colectas de dinheiro foram organizadas em escolas e locais de trabalho, tendo alcançado valores recorde.

No entanto, este sentimento pode ser revertido pela combinação da continuação de cortes sociais, que leva a menores recursos para os muncípios, do desenrolar da crise de habitação e da propaganda de políticos racistas e do regime acerca dos custos da imigração.

O movimento necessário

Precisamos de um movimento anti-racista que actue contra o racismo em todo o lado. Em Trollhättan, 5000 pessoas participaram numa manifestação, três dias após o ataque à escola. O sentimento era uma mistura de angústia e anti-racismo forte. Temos a experiência das últimas décadas que o racismo e o nazismo podem recuar com grandes mobilizações, campanhas e actividades nos locais de trabalho, escolas e bairros.

Ao mesmo tempo, o anti-racismo tem também que lutar contra a austeridade e o neoliberalismo, as políticas que são os nutrientes do racismo. Os sindicatos, redes e organizações de base têm de lutar por trabalho, habitação, saúde e educação para todos. Os municípios têm de ter mais capacidade financeira para travar os cortes, aumentar o bem-estar social e dar assistência aos refugiados.

Mas esta luta tem de ser também sobre a defesa do direito ao asilo, contra o acordo que o governo fez recentemente com os partidos de direita. As deportações e as políticas de asilo mais restritivas apenas encorajam os racistas a promover a idea de que aceitar menos refugiados solucionará os problemas.

O sistema capitalista e os seus políticos querem atacar um grupo de cada vez. Hoje na Suécia, ataques a refugiados são acompanhados por cortes na saúde. Como socialistas, posicionamo-nos pela luta contra qualquer variante da austeridade. Somos a favor da luta conjunta contra o racismo, assim como contra o capitalismo e o imperialismo que o criaram e pela justiça e o socialismo.