BE: As amarras da social-democracia

Posted on 30 de Setembro de 2015 por

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Bloco-Esquerda-bandeira

Francisco d’Oliveira Raposo, Socialismo Revolucionário

O programa eleitoral do Bloco de Esquerda (BE) reflete a encruzilhada em que esta organização se encontra.

Lançada há 15 anos pela confluência da UDP, do PSR e de um pequeno grupo de dissidentes do PCP,  afirmava no seu documento fundador, Começar de Novo: “(…)a civilização do capitalismo na era da globalização não assegura a realização dos mais elementares Direitos do Homem.”. Nesse mesmo documento, porém, estão patentes as ilusões da capacidade dos povos de transformar a União Europeia, cimento que o BE usou até à derrocada do projecto reformista de Tsipras.

A luta interna desencadeada com o apoio a Manuel Alegre nas eleições presidenciais de 2011 e a tendência para se assumir como parceiro do PS, foi atenuada na ultima Convenção, mas a vida pública do BE continua quer atribulada quer baseada em pequeníssimos grupos de activistas. Sem implantação nem nos sindicatos nem nos bairros, o BE é essencialmente um partido de eleitores, isto é, desperdiçou o enorme potencial que tinha de se construir como uma organização de luta. Ora, é natural que o seu Programa reflicta esse processo.

Para uma organização que se reivindicava da «esquerda radical», mas que organicamente se construiu como partido de eleitores e que é, no seu núcleo activo, constituída por elementos da academia e de quadros técnicos especializados, é absolutamente natural que o programa apresente um largo conjunto de propostas interessantes.

Mas a falta de clareza é notória: por exemplo, nas medidas que propõe para o sector financeiro propõe o «controlo público» da finança. Como e por quem fica no vazio. De referir que, em ultima instância, o Estado Capitalista também controla publicamente bancos, mas que o faz em função dos interesses dos banqueiros.

Contudo, nunca é claro como é que o BE se propõe disputar o poder e que forças considera necessárias mobilizar nesse campo.

Se apresenta um programa claramente anti-austeritário, defendendo a renegociação da dívida e opondo-se ao Tratado Orçamental e ao TIPP, propõe, hoje, depois do esmagamento dos seus companheiros da direcção do Syriza, a famigerada renegociação da dívida e, tal como o PCP/CDU, avança para a necessidade de «estudar a saída do Euro».

A maioria das suas propostas são apresentadas como se a relação de forças no Parlamento e na UE fossem favoráveis e é absolutamente confrangedor ver que o capítulo que dedica ao Trabalho se limita a elencar um conjunto de medidas legislativas que no previsível quadro pós-eleitoral, terá um quadro de realização quase nulo.

É exactamente no discurso virado para a pequena burguesia e juventude universitária que se reforça a ideia que o BE ainda não ultrapassou a fase de “cretinismo parlamentar”, isto é, que recusa ter como eixo de acção a luta de classes e procura idealisticamente encontrar uma refundação social-democrata que restaure o Estado Social e conceda aos explorados uma melhoria, no quadro do sistema de relações de produção capitalista. É curioso que em todo o Manifesto a palavra classe aparece uma vez, não em relação a classe social, mas à efeciência energética das habitações.

Aliás, é sintomático que o Mandatário Nacional do BE seja o mais ferrenho defensor do sindicalismo de conciliação de classe social-democrata, à imagem das direcções amarelas dos sindicatos alemães, e que tem no seu currículo o célebre acordo de concertação social na Autoeuropa, que o Presidente da Volkswagen achou tão bom que veio a Palmela felicitá-lo pessoalmente. Posteriormente, usou esse acordo para fazer chantagem nas fábricas Volkswagen em Espanha e na Bélgica.

Contudo, as opções de conciliação de classe que este individuo manifesta contrastam vivamente com muitos dos activistas do BE que nos seus campos de acção se batem contra a austeridade capitalista e trabalham unitariamente para alargar a resistência.

O Socialismo Revolucionário sempre defendeu, e continua a defender, a necessidade da unidade na acção dos trabalhadores e que o BE, bem como o PCP, têm a responsabilidade histórica de construir uma alternativa social e política ao actual bipartidarismo austeritário.

Isso não significa, de forma nenhuma, que não formulemos críticas e ao mesmo tempo incitemos os militantes do BE genuinamente socialistas a “correrem por fora”, isto é, a analisar a sociedade do ponto de vista das necessidades dos trabalhadores e pobres e centrar-se em acções de solidariedade e unidade das centenas de lutas que se travam no país para ganhar novos activistas, ganhando-os não para melhorar este sistema mas para a luta pela sua superação revolucionária.