Economia mundial: Os motores de crescimento tornam-se travões

Posted on 24 de Setembro de 2015 por

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Abrandamento agudo nos BRIC

Per-Åke Westerlund, Rättvisepartiet Socialisterna (Partido da Justiça Socialista, o CIT na Suécia)

Original em inglês: http://www.socialistworld.net/doc/7334

Os mais recentes motores da economia mundial – os BRIC – transformaram-se em travões e desencadeiam novas crises. “O que está a acontecer é um grande revelador das condições de mercado dos últimos 15 anos”, comentou um analista do Financial Times.

Antes e depois da cimeira do G20 na Turquia, a maioria dos prognósticos de crescimento económico – global, bem como país a país – estão a ser reduzidas. No centro da crescente preocupação está a China como o maior dos países dos BRICS – o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e, mais recentemente, a África do Sul. Estes cinco dominam os Mercados Emergentes (ME) e a maioria deles foi severamente atingida por enormes saídas de capital e um colapso dos preços das commodities (matérias primas) que compõem uma grande parte das suas exportações. Isso está ligado às políticas dos EUA e de outros países capitalistas avançados.

A anterior saída – desvalorizações da moeda – não teve nenhum efeito no aumento das exportações. Pelo contrário, ter moedas mais fracas levou à diminuição das importações. O volume do comércio mundial está actualmente em queda.  Outro efeito das muitas desvalorizações é acelerar a saída de capitais de países “instáveis” e dos seus mercados de acções.

Motores de crescimento

Nos últimos 15 anos, os chamados mercados emergentes registaram um crescimento económico do dobro do ritmo dos países capitalistas avançados. Foi o caso antes e depois da crise de 2008-09. O grupo dos Mercados Emergentes abrange cerca de 40 países – as principais economias da Ásia (excepto Japão), da África, da América Latina e da Europa Oriental.

Neste período, de 1997 a 2014, as economias dos Mercados Emergentes cresceram até representar a maioria do PIB global, passando de 38% para 52% medido em paridade de poder compra (ou de 23% a 35% em termos nominais). Uma empresa em cada quatro na lista da Fortune Global 500 está agora sediada em países dos Mercados Emergentes.

Estima-se que este ano, porém, a taxa de crescimento desses países continue a cair pelo sexto ano consecutivo, para 3.6%. Esse prognóstico é baseado no crescimento de 7% da China, um dado cada vez mais questionável.

Desaceleração aguda

Dentro do grupo dos Mercados Emergentes, os próprios BRICS têm tido uma quebra acentuada. Os quatro países do BRIC originais (um termo inventado pela Goldman Sachs em 2001) representavam 23% do crescimento económico global entre 2000 e 2014, com um PIB combinado de 20% do PIB global.

Ao comparar-se 2006 e 2010 com 2015 demonstra-se a nitidez da desaceleração. Para o Brasil, os números são 6%, 7.6% e -2.61% (para o segundo trimestre de 2015). A crise ainda está a aprofundar-se. A exportação de minério de ferro do Brasil para a China caiu 47% no primeiro trimestre deste ano. O prognóstico é a contracção da economia em 2% ou mais neste ano. A moeda, o ‘real’, perdeu a metade de seu valor em pouco mais de dois anos. Este ex-campeão das exportações agora tem um déficit comercial.

Para a Rússia, a queda é semelhante – de 8.5% de crescimento em 2006 e 4.5% em 2010 para -4.6% no segundo trimestre deste ano. A Índia passou de 10.1% para 7.5% e a China de 10.7%, na melhor das hipóteses, para 7%. No entanto, essas são as estatísticas oficiais. Outros, apontando para a grande queda no consumo de energia eléctrica, transporte de carga e de preços de produção, estimam que a China terá uma taxa de crescimento de 4% ou menos. As exportações têm vindo a diminuir, bem como a produção na indústria transformadora. O Índice dos Gestores de Compras – uma medida da actividade económica – está  bem abaixo de 50, mostrando que o sector da manufactura não está a avançar.

Uma vez que a China usa metade do aço e outros minerais do mundo, e 1/3 do arroz e do algodão globais, os efeitos serão sentidos por toda parte. Os preços das commodities entraram em colapso – 40% nos últimos três anos. “As gotas são atordoantes. O petróleo caiu em mais de metade no último ano, o minério de ferro mergulhou um terço e o carvão e o cobre mais de um quarto. Até mesmo os preços do trigo e do milho caíram mais da metade em dois anos “, informou a agência de notícias AP. O comércio da China com a África, por exemplo, é agora metade em relação ao seu pico de há poucos anos atrás.

Enormes dívidas

Os países emergentes aumentaram as suas dívidas a um ritmo mais rápido do que o crescimento do seu PIB. O capital de quantitative easing (flexibilização quantitativa) nos EUA e noutros lugares fluiu para crédito, acções, investimentos directos e títulos. (O mercado de títulos nos Mercados Emergentes duplicou em 2010-2014.)

Agora, o fluxo inverteu-se. Em 2015, até Agosto, 40 mil milhões de dólares norte-americanos deixaram os mercados de acções dos países ME. Isso é 40% do fluxo de entrada nos anos 2009-2013. De 2007 a 2013, os países de Mercados Emergentes foram responsáveis ​​por metade do aumento da dívida global.

A dívida combinada das famílias, empresas não financeiras e do estado, em comparação com o PIB destes países, aumentou dramaticamente – na Malásia de 49% para 222% e na Tailândia de 43% para 187%. Em Taiwan aumentou mais de dez vezes de 16% para 178%, na Coreia do Sul de 45% para 231% e no Brasil de 27% para 128% do PIB. (Dados do Financial Times, 2 de Abril de 2015). A dívida da China, em proporção do PIB, aumentou de 83% para 250%, ou até mais de acordo com algumas estimativas.

Desvalorizações

A recente reunião do G20 tentou adoptar uma posição de força, afirmando que eles “vão abster-se de desvalorizações competitivas, e resistir a todas as formas de proteccionismo”. No entanto, isto é o oposto total do que está a acontecer.

Uma onda de desvalorizações já teve lugar este ano. Na sequência da desvalorização surpresa da China, em Agosto, outros oito países desvalorizaram as suas moedas, entre eles a Indonésia, a Tailândia, o Vietname (pela terceira vez este ano) e o Cazaquistão.

Um site especializado em moedas relatou que, desde 2014, as moedas dos Mercados Emergentes chave, tais como “a Rússia, a Colômbia, o Brasil, a Turquia, o México e o Chile caíram em 20-50% contra” o dólar norte-americano.

No entanto, o efeito esperado – aumento das exportações – não aconteceu. Em vez disso, as moedas mais fracas têm reduzido as importações e, assim, reduzido o comércio mundial. Com o aumento do nacionalismo económico, as exportações estão a perder o seu papel como uma força para o crescimento económico.

Será que a Reserva Federal irá aumentar as taxas de juro?

As políticas financeiras mais retorcidas de sempre – com, a partir de 2008, o quantitative easing, taxas de juros de zero ou negativas e operações para salvar bancos, etc.- provavelmente significavam que a grave crise terminou numa Grande Recessão em vez de uma Depressão como nos anos 1930.

Há dois anos atrás, os planos anunciados pela Reserva Federal para parar o quantitative easing causaram uma primeira onda de impacto negativo para a economia mundial. Agora, os planos para aumentar as taxas de juro nos Estados Unidos (a taxa dos fundos federais) estão por trás de grande parte da ansiedade presente nos países de Mercados Emergentes.

O FED não eleva as taxas de juros desde 2006 e manteve-as entre 0 e 0.25 nos últimos sete anos. O principal argumento para aumentar as taxas é o medo de uma nova, ainda maior, bolha financeira e a necessidade de voltar à “normalidade”. Mas a recente turbulência, especialmente a queda do mercado de acções chinesa e a desvalorização, tornou menos provável que eles avancem com uma subida da taxa, prevista para 16 de Setembro. Entre os que hesitam está William C. Dudley, presidente do Federal Reserve Bank de Nova Iorque.

Não apenas a finança

As repercussões, no entanto, não serão limitadas aos mercados financeiros. A desaceleração na China já desacelerou o comércio. As importações chinesas em Agosto caíram 14.3% em comparação com o ano anterior e as exportações caíram 6.1%. Isto já teve os seus efeitos sobre a produção industrial, por exemplo, nos EUA e na Grã-Bretanha. Canadá, Japão e França são outros países do G7 que estão a lutar para ter qualquer tipo de crescimento.

Para os EUA, o boom do petróleo ajudou a criar novos postos de trabalho. O consumo é o principal factor por trás do seu crescimento. Mas o aumento do dólar contra as outras moedas está agora a causar novos problemas, com as exportações a cair e as importações a aumentar. Talvez um terço dos novos empregos nos EUA desde 2009 estejam no sector exportador. Um aumento das taxas de juro aumentaria a pressão ascendente sobre o dólar.

Consequências políticas

As “políticas heterodoxas” também distorceram as consequências políticas da crise, com ondas de protesto e revoltas de um carácter de massa em cerca de 90 países ao longo dos últimos cinco anos (Tunísia, Egipto, Turquia, Brasil, etc.). Muitos trabalhadores e jovens têm vivido a sua experiência através do neoliberalismo e do mercado e tirado daí as suas conclusões. As políticas de mercado adoptadas não deram lugar a qualquer abertura democrática; pelo contrário, a maioria dos regimes aumentou a repressão para permanecer no poder, ao mesmo tempo que a corrupção também tem aumentado.

A “salvação” do mundo a partir de uma Depressão também criou uma nova auto-confiança artificial entre os capitalistas e os políticos. Eles foram capazes de sobreviver.

Juntamente com a vontade de lutar das massas, novas forças e tendências surgiram, indicando a forte vontade de encontrar uma nova alternativa de esquerda na política. Poucos deles, no entanto, ofereceram uma alternativa real ao capitalismo ou tentaram organizar a classe trabalhadora.

Possíveis novos pontos de viragem na economia mundial também terão novos efeitos políticos. Uma camada maior do que antes vai ver o capitalismo como a razão para as crises e compreender a necessidade de uma alternativa socialista.