China: Crash da bolsa pode transformar-se em crise política

Posted on 13 de Julho de 2015 por

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Regime adopta medidas desesperadas à medida que o crash nos mercados ameaça uma recessão económica

Entrevista com o editor do chinaworker.info, Vincent Kolo

Quão sério é o crash da bolsa de valores e como está o governo a reagir?

Vincent Kolo: A enorme bolha que foi criada ao longo dos anos está a implodir. A escala e ritmo do crash têm sido dramáticos. O regime chinês está em estado de choque porque não esperava estes desenvolvimentos – por louco que pareça – porque toda a gente o previu. O “pânico” mundial é a descrição mais comum usada pelos media internacionais para as medidas do governo e é um descrição exacta.

O mercado bolsista atingiu um valor de $10 biliões (capitalização total do mercado) no início de Junho, um ganho de $6,7 biliões num ano. Este foi equivalente à capitalização total da bolsa de Tokyo, a terceira maior do mundo depois de Nova Iorque e Shangai-Shenzhen. Nos primeiros meses deste ano, bilionários – em dólares não em yuan – estavam a ser criados a um ritmo de 4 por semana devido ao crescimento do mercado bolsista. Mas o mercado perdeu $3 biliões nas passadas 3 semanas, caindo um terço desde 15 de Junho. Esta soma equivale 6 vezes a dívida externa grega, ou 11 anos de produção na Grécia. O Securities Times publicou em Shenzhen relatórios onde 750 empresas, que é mais de uma quarto de todas as empresas listadas em Shangai e Shenzhen, suspenderam operações na semana passada. Isto equivale a um progressivo “encerramento” do mercado bolsista, que na realidade não seria algo mau.

Os pequenos investidores atingem agora os 90 milhões, o que, pela primeira vez, é mais que os afiliados do Partido Comunista (PCC). Milhões de pessoas – cerca de 40 milhões – lançaram-se no mercado desde o começo deste ano e quase todos perderam dinheiro. Muitos queixam-se de não poder sair porque muitas acções estão a cair nos máximos diários de 10%, que quando atingido são suspensas as transacções. Para aqueles que contraíram dívidas enormes para apostarem através da chamada margem comercial, isto significa pura e simplesmente, a ruína. Estamos a falar de uma camada social significante, classe média urbana principalmente, necessária ao PCC como base social para a continuação do regime. Estas camadas foram atingidas pela queda do mercado imobiliário, um dos elementos pensados pelo regime para fomentar o boom do mercado de acções e abrir um meio alternativo desta classe social aumentar a sua riqueza, para manter o nível de consumo e evitar agitação. Este é o “Sonho Chinês” de Xi Jinping e foi abalado até às suas raízes no espaço de 3 semanas.

Vês as medidas do governo para resgatar o mercado bolsista terem sucesso?

Isso ainda está para se ver. A questão notável é como as medidas do governo têm falhado; eles têm sido esmagados pelas vendas em debandada. Podemos esperar mais medidas porque têm sido anunciadas novas políticas numa base diária. Desde 27 de Junho cortaram taxas de juro, injectaram mais dinheiro nos bancos, bloquearam novas emissões de acções (Ofertas públicas iniciais – IPOs), ordenaram corretoras, fundos de pensões e SEEs a comprar acções, e lançaram um “fundo de estabilização do mercado”. Pequim treinou a sua artilharia no mercado, como quando se bombardeiam as nuvens para fazer chover. Eles mobilizaram o sector financeiro estatal numa massiva operação de resgate que culminou esta semana (no Domingo, 5 de Julho) com o anúncio de que o banco central irá agir como “comprador de último recurso” para parar a derrapagem do mercado. Isto está a ser descrito como “QE[QE = quantitative easing] chinês” por alguns analistas financeiros. Mas o sistema bancário já está sobre stress na China no seguimento do massivo endividamento dos últimos 5 anos, então não é uma questão dos bancos salvarem o mercado bolsista, mas do governo lutar para salvar ambos.

Então, é claro que o regime está perplexo, em pânico, quando estas políticas, que em períodos anteriores teriam tido algum efeito, estão a ser postas de lado. Mas isto reflecte um mal-estar económico mais abrangente, com o crescimento mais lento num quarto de século. O crescimento real do PIB é, no máximo, 3-4%, um terço das províncias estão em recessão e a indústria está a destruir emprego. As pessoas sabiam que o boom bolsista era uma aberração, mas acreditavam que se Pequim quisesse que ele crescesse, ele cresceria. É esta crença que foi abalada pela derrocada das últimas semanas. Isto pode ter um efeito psicológico massivo em quebrar o mito de que o governo é todo-poderoso e que pode “comandar” a economia para fazer tudo o que quer.

Este não é apenas um problema económico; abalou a imagem de um governo “forte”. O New York Times de hoje diz que o falhanço do governo em travar o tumulto nos mercados prejudicou a “aura de invencibilidade” à volta de Xi Jinping. Leio um analista da Fitch avisar que isto pode levar a uma “crise de confiança no aparelho de Estado”. A revista The Economist chama a isto “o primeiro golpe na imagem pública da dupla Xi-Li.” É isto que a burguesia teme internacionalmente – o potencial para uma crise política na China – porque apesar das suas pretensões “democráticas” eles apoiaram este Estado, uma ditadura de partido único, para fornecer os bens económicos ao capitalismo.

As últimas medidas de apoio ao mercado não têm precedentes, como mesmo Xinhua as descreve, elas tresandam a desespero. Serão suficientes para deter a queda? Possivelmente. Mas será mais difícil de travar dissidentes. Mas também é provável que os mercados se irão manter muito voláteis. Isto apesar de o governo, como uma ditadura, poder fazer muitas coisas que governos “democráticos” não fazem tão eficientemente – primeiramente na mobilização do sector financeiro para um resgate e segundo, também muito importante, pode proibir más notícias. Foi dito aos media que não podem usar termos como “desastre patrimonial” e “resgate ao mercado”. Eles estão proibidos de reportar suicídios ligados ao caos no mercado. A polícia começou detenções de pessoas por “espalharem rumores”. E, ao mesmo tempo, o Diário do Povo canta louvores aos mercados, dizendo-nos, “Arco-íris aparecem sempre depois de chover”! No entanto, nada disto garante sucesso, especialmente quando a real situação económica escapa ao governo.

Se a intervenção massiva do governo conseguir restaurar a calma, apenas significa que a bolha irá crescer de novo, porque os especuladores incorrerão em riscos ainda maiores, acreditando que têm um governo que os apoia garantidamente. É o que os economistas liberais chamam de “risco moral”. Um mercado bolsista galopante está em completa dissonância com o lúgubre estado da economia chinesa neste momento, e o resultado inevitável será um crash ainda maior mais à frente.

Porque está o regime do PCC tão desesperado em resgatar a bolsa?

Neste momento, é um problema de prestígio para o regime – se eles não conseguirem salvar o mercado isso será uma derrota pública muito humilhante. Terá implicações políticas. Os primeiros protestos de operadores furiosos estão a ser reportados, e isso é algo que o PCC não quer de todo. Se as medidas não funcionarem isso significa uma perda de autoridade política que, para uma ditadura, pode ser fatal. Também ameaça agravar aquilo que já é uma séria crise económica. As razões pelas quais o PCC decidiu construir um mercado altista, vêem de quando o actuais líderes tomaram posse no final de 2012, porque esta é uma base chave na estratégia de reforma de Xi Jinping, de dar ao mercado um “papel decisivo” – o que soa muito irónico hoje. Com o seu modelo económico de capitalismo de Estado chinês e crescimento baseado no crédito agora exaustos e entrando numa crise deflacionária, o regime quer usar uma bolsa flutuante como a linha-de-vida da economia, para retirar pressão do sistema bancário que se afunda numa crise de mau crédito. Esta táctica é especialmente para resgatar as empresas endividadas, dando-lhes a chance de emitirem acções e usar esses fundos para saldar dívidas. O rácio Dívida-PIB na China é cerca de 280% neste momento, que é quase o dobro do grego, e a maior parte da dívida chinesa está nas empresas estatais (SEEs) e governos locais.

Agora, esta estratégia parece ter-lhes explodido na cara – os bancos e as SEEs estão provavelmente a encaixar grandes perdas das quedas nas acções. O objectivo da actual enxurrada de medidas de resgate pode ser, na verdade, de curto-prazo, para providenciar algum folgo para estas empresas descarregarem o seus maus “investimentos” antes do mercado cair de novo. Isto é possível; o regime vê um cenário diferente, mais preciso, e pode ser bem mais feio que aquele tornado público.

O Wall Street Journal comparou as medidas de emergência de Pequim à “grande bazooka” de Hank Paulson [Secretário do Tesouro dos EUA] para salvar Wall Street em 2008. É também importante notar que a China não é o único país que faz isto. O Japão está a fazê-lo neste momento – manipular o mercado bolsista. A questão importante sobre a China é que a manipulação do governo, que é numa escala muito maior, tem sido contínua – eles criaram o boom do mercado – e ainda assim perderam o controlo e agora estão a pagar o preço economicamente, mas também politicamente, especialmente se o nível de pertubação continuar.

O próprio governo despoletou o pânico no mercado, que teria acontecido mais cedo ou mais tarde de qualquer das formas, quando, em Junho, impôs regras mais apertadas às margens financeiras (endividamento para comprar acções). O enorme volume de dívida de margem nas bolsas chinesas, que cresceu 9 vezes nos dois últimos anos para cerca de 6 biliões de yuan ($1 bilião) se contarmos com os empréstimos oficiais e não oficiais, coloca enormes riscos adicionais e que é, de qualquer forma, um jogo de especulação financeira, porque os credores retiram os seus empréstimos que as perdas dos apostadores aumentam, forçando mais acções a serem vendidas, causando um efeito em cascata. De acordo com o Citigroup, apenas um quarto das compras em margem foram desbloqueadas nas últimas três semanas, com as restantes “presas” na bolsa, à espera de saírem. Isto sugere que a turbulência continue por mais algum tempo.

Um mercado bolsista “normal” é um casino glorificado, mas a escala de dívida de margem que impulsionou as valorizações de acções faz da bolsa chinesa mais um “jogo de roleta russa” citando a economista Anne Stevenson-Yang. Agora, apenas três semanas depois das restrições, o governo recuou completamente, assustado com o colapso do mercado. Abandonou as suas medidas restritivas e flexibilizou ainda mais as regras sobre as margens financeiras. Está mesmo a permitir que os operadores de margens usem as suas casas como colaterais para obter empréstimos, o que obviamente é pouco inteligente.

Que efeitos pode isto ter no resto da economia?

O desespero nas medidas que o PCC é forçado a aplicar diz-nos que as coisas estão na verdade pior do que aparentam (ainda pior que o colapso de 30% na bolsa). Pode haver uma reacção em cadeia quando as empresas, cujas acções são muitas vezes usadas como colaterais para empréstimos bancários, descobrirem que enfrentam uma contracção do crédito. A exposição dos bancos a toda esta dívida nos mercados bolsistas é uma das questões. Poderá haver contágio financeiro, especialmente através do sector bancário sombra? A China tem o segundo maior sector bancário sombra do mundo depois dos EUA, mas estes credores não oficiais e empresas fiduciárias são, na verdade, um complemento dos bancos estatais. Eles têm estado profundamente envolvidos na corrida às acções, em operações de margens e em criar toda uma rede de novos produtos financeiros para alimentar a euforia dos mercados. Então, as medidas desesperadas dos últimos dias, são um indício de que o regime chinês vê o perigo de risco sistémico, uma ameaça a todo o sistema financeiro, e é por isso estão a fazer de tudo para prevenir uma maior implosão no mercado.

Muitos comentadores internacionais estão a dizer que a crise na Grécia é grave, mas isto é pior, a China terá um impacto ainda maior na economia global. O mercado global de mercadorias está a cambalear – estabilizaram mas agora o preço do cobre, petróleo, e metais está em nova queda – devidos aos receios sobre a economia chinesa e de queda na procura. A China é de longe a maior importadora da maior parte das mercadorias. Há muitas outras formas de uma crise na China afectar a economia mundial. É por isso que outros, não apenas nós socialistas, avisámos que o aprofundamento da crise na China, do qual o crash bolsista é apenas mais uma expressão, pode despoletar uma nova ronda de tumultos no capitalismo mundial, seguindo o exemplo da crise de Wall Street em 2008 e a actual crise da Zona Euro.