Tsipras ultrapassou o ponto sem retorno

Posted on 11 de Julho de 2015 por

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http://www.socialistworld.net, 10/07/2015
Site do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores, CIT

É chegada a hora de uma nova esquerda, revolucionária e de massas, se opor a toda a austeridade!

Editorial Xekinima (CIT na Grécia)

O dia 9 de Julho foi um dia negro para a esquerda grega. A direcção do Syriza, em torno do Primeiro-Ministro Alexis Tsipras, submeteu-se completa e absolutamente às exigências dos credores da Troika. A classe trabalhadora grega encontra-se numa posição trágica. Votaram no Syriza como forma de solucionar os seus problemas e para escapar dos memorandos (pacotes de austeridade). No entanto, após cinco meses no governo, a única coisa que o Syriza foi capaz de oferecer foi outro memorando catastrófico que finaliza as políticas pró-austeridade dos governos anteriores da Nova Democracia e do Pasok.

As massas trabalhadoras não esquecem que os mesmos que hoje traem as ideias e princípios da Esquerda são aqueles que tinham prometido livrar-se do memorando “dentro de um dia e com um decreto”. São as mesmas pessoas que prometeram o Programa de Salónica (programa pré-eleitoral do Syriza, mais radical) que, reclamavam, seria posto em prática independentemente das negociaçõess com a Troika.

A direcção do Syriza e Alexis Tsipras têm-se provado tragicamente incapazes de responder às tarefas do momento e de merecer a confiança da classe trabalhadora. Não merecem o ‘Não’ esmagador do dia 5 de Julho, que reverberou por toda a Europa e pelo Mundo. Traíram a grande luta encetada pela Esquerda e pela classe trabalhadora, por toda a Europa, em solidariedade com os trabalhadores gregos em luta.

E no entanto, os líderes do Syriza em torno de Tsipras têm o desplante de pedir às pessoas que se reunam em apoio do ‘Não’ porque, supostamente, este “governo de Esquerda” necessita do apoio do povo nas ruas! Mas por que haveria a classe trabalhadora de se manifestar a favor de quem a apunhalou pelas costas? Particularmente quando, há apenas alguns dias, na sexta 3 de Julho, centenas de milhares de trabalhadores e jovens sairam à rua no centro de Atenas e no dia 5 votaram no ‘Não’ com massivos 61,3%.

As chamadas negociações com a Troika continuam e, ao que parece, a única possibilidade, embora remota, de reverter o processo de subordinação do Syriza é a possível decisão de alguns sectores das classes dominantes europeias de expulsar a Grécia da Zona Euro. Esta seria a única situação na qual Tsipras poderia chegar a colidir frontalmente com a Zona Euro. Se tal acontecesse, evidentemente, as críticas à liderança do Syriza que acima foram feitas não se alteraríam nem numa única letra.

O dia 9 de Julho representa o ponto de viragem histórico na transformação do Syriza de um partido de Esquerda num partido ao serviço do sistema capitalista. Tsipras e a liderança ultrapassaram o ponto sem retorno. E continuarão por este caminho mesmo que isso os lance nas mãos de um “governo de salvação nacional” juntamente com os inimigos de ontem, mesmo que tenham de expulsar a ala esquerda do Syriza e “destruir” o partido.

O está por detrás desta nova tragédia histórica na Esquerda grega não é mais do que uma completa falta de entendimento, por parte da direcção, acerca do carácter de classe da realidade concreta. Uma completa falta de conhecimento sobre o que é a luta de classes. Dirigiram-se à UE para “lutar pelas suas propostas” usando pistolas de água contra metralhadoras. Tentaram “explicar” e “convencer” Schauble e o resto do gang capitalista que lidera a UE, ingénua e estupidamente, que estes estavam a aplicar políticas erradas e que deveriam alterá-las. Nunca tiveram nem nunca mostraram ter confiança no poder da classe trabalhadora e na sua habilidade de tomar o destino nas próprias mãos. Engoliram o conto de fadas perpetuado pela classe dominante de que o seu sistema do lucro é invencível, que o capitalismo nunca poderá ser derrubado e que a saída do Euro seria igual à catástrofe social.

A derrota para a qual Tsipras e o seu governo levaram a classe trabalhadora grega é histórica mas não final. Não é como a derrota sofrida pela Esquerda e pela classe trabalhadora durante a Guerra Civil na Grécia. Existe ainda um grande potencial de resistência.

A tarefa imediata é a junção das forças de esquerda que entendam a necessidade de uma união à volta do socialismo revolucionário, para planearem os próximos passos. Existem forças extra-parlamentares sérias, dentro da Antarsya (Esquerda anticapitalista) e do Syriza, etc., que entendem que sem romper com o sistema capitalista e com a Zona Euro não existe nenhuma perspectiva de uma vida melhor. Estas forças têm de se reunir urgentemente e discutir e tomar todos os passos necessários para formar uma nova Esquerda de massas e revolucionária. Para liderar as lutas de amanhã e oferecer uma perspectiva de luta por um futuro contra as falsas esperanças de Tsipras e do seu círculo próximo.

Na noite de 10 de Julho haverá uma manifestação do Syriza planeada para a Praça Sintagma, no centro de Atenas, que agora se transformará num protesto sobretudo da Esquerda do Syriza e da Antarsya contra a marcha-atrás de Tsipras. Os membros do Xekinima, CIT na Grécia, distribuíram a declaração abaixo durante o protesto:

Xekinima (CIT na Grécia) apela aos deputados da Esquerda do Syriza e deputados de outros partidos de Esquerda para se oporem e votar contra as últimas propostas da liderança de Tsipras. A Esquerda na Grécia deve apelar aos trabalhadores e juventude para se mobilizarem contra o novo memorando, incluindo a organização de protestos e manifestações de massas, invocando o poderoso mandato popular do ‘Não’ do referendo da semana passada para se opor a qualquer traição dos seus interesses de classe.

O CIT na Grécia apela à Esquerda para quebrar com a austeridade e adoptar um programa socialista. Isto inclui a recusa de pagar a dívida; controlo de capitais; monopólio estatal do comércio externo; nacionalização da banca e sectores estratégicos da economia, sob controlo e gestão democráticas; reverter a austeridade; trabalhos para todos, com um salário digno e educação e saúde grátis e de qualidade e direito à segurança social.

Planear a economia para as necessidades do povo e não para os lucros dos capitalistas – a re-organização socialista da sociedade – significaria o fim das crises económicas, da pobreza, do desemprego e da emigração forçada.

Para atingir isto, é essencial construir um política de classe independente, dentro e fora do Syriza. No seguimento dos enormes protestos do ‘Não’ por toda a Grécia, na semana passada, continuar, aprofundar e expandir a participação activa da classe trabalhadora e juventude na luta contra a Troika e por uma alternativa socialista. Isto significa a criação de assembleias populares e comités de acção de base nos locais de trabalho e nas comunidades.

Apelar aos trabalhadores e juventude por toda a Europa para combaterem a austeridade e por uma Europa socialista.