Prazo final para o Syriza?

Posted on 11 de Junho de 2015 por

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Os trabalhadores e os pobres não podem sofrer mais austeridade desastrosa

Niall Mulholland, na revista semanal The Socialist, Número 859, do Socialist Party (CIT na Inglaterra e Gales)

Estará a ‘Grexit’ [saída da Grécia da Zona Euro] à espreita? A Grécia parece estar agora mais próxima de entrar em falência e sair da Zona Euro. Atenas tem tentado conseguir um acordo da parte da UE, BCE e FMI — a Troika a que agora chamam ‘Instituições’ — para aceder a mais de €7 mil milhões em fundos de resgate. Com a liquidez grega a chegar ao fim, o país precisa de garantir os fundos até ao fim de Junho para evitar a bancarrota. Mas os seus credores exigiram medidas draconianas (mais austeridade), que, até agora, o governo grego de esquerda do Syriza se tem recusado a aceitar.

A Troika exigiu cortes nas pensões, privatizações, ‘reformas’ laborais, aumentos do IVA e mais cortes ao já destruído Estado Social. As contra-propostas do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, foram rejeitadas liminarmente pela Troika. A arrogante atitude neo-colonial da Troika levou o governo grego a declarar que não iria pagar a dívida de €300 milhões cujo prazo venceu no passado dia 4 de Junho. Em vez disso, iria fazer um ‘pacote’ de dívida a ser pago, juntamente com outros pagamentos ao FMI, apenas no final do mês.

Tensões profundas

Demonstrando as tensões existentes entre a Troika e o governo grego, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, respondeu com um furioso ataque verbal contra Tsipras, no início da cimeira do G7 na Alemanha. Tsipras encontra-se sob imensa pressão das elites dominantes e ‘mercados’ internacionais para chegar a acordo com a Troika, enquanto, ao mesmo tempo, enfrenta oposição feroz a mais cortes por parte da classe trabalhadora grega e da ala esquerda do Syriza.

Um terço dos gregos vive oficialmente abaixo do limiar da probreza (na realidade mais de 50%) e, em média, cada agregado familiar perdeu 40% das suas receitas desde 2010. Tsipras e a Troika discutem sobre a dimensão do défice primário que a Grécia poderá apresentar. Mas, tendo em conta o pagamento dos juros, as dívidas do país são impagáveis. O nível da dívida é 175% do PIB.

Crescimento?

No entanto, os iludidos ideólogos neoliberais nas insituições europeias insistem, fanaticamente, que a economia grega poderá crescer até 3,5% ao ano, em média, durante os próximos cinco anos, o que levaria o rácio da dívida a descer até 120%. Nesta altura é defendido, sem convencer ninguém, que a Grécia será capaz de recorrer novamente aos mercados financeiros para conseguir o dinheiro que necessita, não obstante o facto de que a economia será novamente devastada pelos cortes impostos pela Troika.

As estimativas de Robert Peston, da BBC, mostram que, mesmo no cenário de crescimento absurdo proposto pela Troika, serão necessários 50 anos de austeridade para que a dívida pública grega caia para níveis ‘sustentáveis’. Mesmo o FMI, vendo quão risível é esta posição, terá no passado exercido pressão para um perdão parcial da dívida grega.

As potências da Zona Euro opuseram-se fortemente a este perdão, em particular a Alemanha, que teme que alívios à dívida levem outros países na mesma situação, como Portugal, Espanha e Irlanda, a exigir um tratamento semelhante.

Na cimeira do G7, o presidente norte-americano, Obama, apelou a um ‘compromisso’ entre a UE e a Grécia, embora com Atenas a ter de tomar “algumas difíceis escolhas políticas”. Washington receia que a saída da Grécia da Zona Euro tenha um impacto negativo na anémica economia mundial. A Casa Branca (assim como a Alemanha e outras potências da UE) teme também que o regime de Putin, na Rússia, utilize esta oportunidade para ajudar financeiramente a Grécia e use a sua influência como membro da NATO para debilitar as potências ocidentais.

‘Grexit’

A ‘Grexit’ é uma verdadeira possibilidade, quer seja ‘acidental’ ou planeada. Sob a pressão imensa da sofridaclasse trabalhadora grega, o governo Syriza pode decidir não aceitar os ditames da Troika e ser expulso da Zona Euro. Antecipando esta possibilidade, a agência de rating Moody’s anunciou a fuga de €5 mil milhões dos bancos gregos em Maio e espera que uma corrida aos depósitos leve à instauração de controlos de capital.

A Grexit significaria o fim da austeridade imposta desde o exterior e permitiria ao governo grego desvalorizar a moeda e reestruturar uma larga porção da dívida. As exportações seriam mais baratas. Mas as importações seriam mais caras e isto teria um efeito negativo nas condições de vida e poupanças. Numa base capitalista, a Grexit, por si só, não resolveria nenhum dos problemas fundamentais da sociedade e economia gregas. Embora as potências da Zona Euro acreditem estar preparadas para que uma saída da Grécia cause menos tempestades económicas do que causaria há alguns anos, permanecem preocupadas com as consequências políticas: a ‘integração europeia’ e a ortodoxia austeritária iriam sofrer grandes revezes.

A menos que Tsipras capitule totalmente à Troika, com desastrosas consequências para o Syriza, ainda é possível que a Grécia e a Troika cheguem a outro ‘vago’ acordo. Este pode envolver os credores da Grécia diminuírem as suas exigências em austeridade e dar a Atenas o dinheiro que precisa para pagar a dívida, com a possibilidade de um pequeno ‘perdão’ de dívida.

Não a um ‘compromisso’ vago!

Tsipras ameaçou levar esse acordo a referendo ou convocar eleições. Mas para os trabalhadores gregos e os pobres, não poderá haver nenhum remendo face à calamidade de mais cortes. Devido ao falhado sistema capitalista, dentro ou fora da Zona Euro, a grande maioria do povo grego enfrenta dificuldades sem fim.

O Xekinima (CIT na Grécia) apela ao Syriza para ser consistente com as suas promessas pré-eleitorais anti-austeritárias, para terminar a austeridade e adoptar um programa socialista. Isto inclui a recusa de pagar a dívida, o controlo de capitais e o monopólio estatal do comércio externo; a nacionalização da banca e sectores estratégicos da economia, sob controlo democrático dos trabalhadores; a reversão de toda a austeridade, trabalho para todos com salário digno e segurança social, educação e saúde de qualidade.

Planear a economia para dar resposta às necessidades do povo e não aos lucros dos capitalistas — a reorganização socialista da sociedade — garantiria o fim das crises económicas, da pobreza, do desemprego e da emigração forçada. Para atingir este objectivo é essencial construir uma política de classe independente, dentro ou fora do Syriza. Isto implica a criação de assembleias populares e comités de trabalhadores nos locais de trabalho e nas comunidades.

A participação activa da classe trabalhadora e da juventude na luta contra a Troika e por uma alternativa socialista é essencial. Isto constituiria um apelo aos trabalhadores e à juventude pela Europa fora, para que lutassem contra a austeridade e por uma Europa socialista.