Eleitores do Syriza querem o fim da austeridade, não outro acordo de “compromisso” com a Troika

Posted on 8 de Junho de 2015 por

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Romper com a austeridade – Por um programa socialista!

Editorial do Xekinima (CIT na Grécia) de 3 de Junho de 2015

A classe dominante grega, os meios de comunicação que trabalham para ela, pessoas como Stavros Theodorakis (líder do partido liberal ‘Potami’), JC Juncker, M. Schulz e o resto dos “meninos de ouro” do funcionalismo da UE, “explicam” incansavelmente ao povo grego que o líder do SYRIZA e primeiro-ministro, Alex Tsipras “deve agir como primeiro-ministro do país e não como o líder do SYRIZA”.

Eles convidam mesmo abertamente Alexis Tsipras para fazer um acordo com os credores do país, para colocá-lo à votação no parlamento grego, ignorando o partido Syriza e até mesmo o seu Comité Central. E no caso da ala esquerda do SYRIZA se recusar a votar a favor do acordo, pedem a Tsipras que vá em frente e “não se preocupe”, porque outros vão votar a favor do acordo – o Potami, com certeza, e, possivelmente, o PASOK e a Nova Democracia, se não oficialmente e como um todo, pelo menos alguns  entre estes dois partidos.

Este é um apelo público e provocante à liderança do SYRIZA para avançar para uma aliança aberta com a classe dominante e a Troika (agora chamada de “Instituições”) e dividir o SYRIZA.

Como respondeu o SYRIZA?

Não temos visto por parte da liderança SYRIZA sinais e declarações que clarifiquem a posição da liderança e que forcem todas as forças reaccionárias mencionadas a cessar as suas exigências ao SYRIZA.

Pelo contrário, vemos a equipe de liderança do SYRIZA continuar a “abraçar” os representantes da classe dominante. Ao mesmo tempo, não escondem o facto de que se estão a preparar para uma possível colisão com a ala esquerda do partido.

Os exemplos mais recentes e marcantes deste processo são as escolhas de L. Tagmatarhis como CEO da emissora pública, ERT, que foi nomeado como CEO no passado pelo governo austeritário do PASOK. E E. Panariti foi escolhida pelo governo do SYRIZA como representante da Grécia no FMI. Em nome do Banco Mundial, Panariti costumava trabalhar como consultora para o governo neoliberal e ultra-repressiva de Fujimori no Peru. No final, Panariti foi forçada a demitir-se da posição do FMI por causa da revolta maciça no seio do SYRIZA com a sua nomeação. Mas a verdade é que a decisão de nomear Panariti foi feita pelo gabinete do primeiro-ministro (e não apenas pelo Ministro das Finanças, Y. Varoufakis, por iniciativa própria , como inicialmente se ouviu rumores. Panariti era assistente de Varoufakis).

Nikos Pappas exige “disciplina partidária”

Ao mesmo tempo, temos as declarações de Nikos Pappas, Ministro do Estado, e um colaborador muito próximo de Tsipras, que disse que a próxima votação no Parlamento levantava a questão da “disciplina partidária”. D. Papadimulis (um deputado europeu e um dos líderes da ala direita do SYRIZA) afirmou que, se alguns dos deputados do SYRIZA ou dos Gregos Independentes (parceiros de coligação do SYRIZA) não quiseram votar a favor das propostas que o primeiro-ministro vai fazer em relação a um acordo com Bruxelas, terão de ser convocadas novas eleições. O porta-voz parlamentar, Nikos Filis, fez a mesma declaração.

Estas ameaças não são genéricas nem vagas. Elas são direcionadas especificamente contra a ala esquerda do SYRIZA. A liderança, em torno de Alexis Tsipras, ameaça essencialmente a esquerda com expulsões e novas eleições parlamentares em que eles perderiam seus assentos parlamentares (de acordo com a lei eleitoral, se as eleições tiverem lugar no prazo de 18 meses após a última eleição, cada lista partidária é decidida apenas pelo líder de cada um dos partidos).

Porque é que a liderança do SYRIZA usa tais ameaças? É porque estão preocupados que um acordo negociado nos bastidores com as «instituições» causará uma grande reacção dentro SYRIZA.

Tsipras, SYRIZA e a sociedade

Alguns quadros proeminentes do SYRIZA pensam, e dizem abertamente, que o SYRIZA atingiu 27% durante as eleições de 2012 e, em seguida, subiu para 36%, em Janeiro passado, porque tem na sua liderança “pessoas talentosas como Tsipras”. Tais ideias estão completamente fora da realidade.

A ascensão do SYRIZA teve haver com as condições objectivas na sociedade grega e nas grandes lutas sociais dos anos anteriores, juntamente com o facto de que o SYRIZA colocou a questão de tomar o poder e convidou o resto da esquerda para agir comum. De forma semelhante, em todos os países atingidos pela crise económica, temos o surgimento de novos fenómenos políticos, quer a partir da esquerda quer da direita ou ambos, que dirige o cenário político que foi dominado por décadas pelos partidos tradicionais da classe dominante. Exemplos de novos fenómenos de esquerda que têm desestabilizado a cena política ao longo do último par de anos pode ser visto não só na Grécia, mas também em Espanha e na Irlanda.

Dizemos à classe dominante e à liderança do SYRIZA que Tsipras e seu círculo não têm o direito, por conta própria, de assinar um acordo com a Troika. A Constituição grega e o sistema jurídico, criados pela classe dominante, dá poderes bonapartistas ao primeiro-ministro (o que o coloca “acima” de seu partido e acima da sociedade). Mas se Tsipras quer ser coerente com as ideias e as tradições da esquerda, ele não tem o direito de fazer uso de tais poderes bonapartistas! Em vez disso, o governo do Syriza deve abolir essas leis!

Reconhecer erros

Para começar, a liderança do SYRIZA tem uma responsabilidade diferente: reconhecer que estava errada na sua abordagem e tácticas para a com a Troika e a classe dominante. Tinham ilusões de que iriam ter uma “negociação mutuamente benéfica com «os parceiros»”, como alegaram inicialmente, apenas para descobrir mais tarde que os «parceiros» estavam determinados a dar ao Syriza uma dura lição. Varoufakis deve-se lembrar que, antes das eleições, disse que a UE estava disposta a oferecer um “presente” ao próximo governo grego, quando, na verdade, o que eles estavam a preparar era uma trela para os trabalhadores e os pobres gregos!

Depois do impasse que surgiu, os líderes do SYRIZA decidiram abandonar a ideia do “acordo provisório/ponte” e apostar no “acordo global”. Agora percebem que nem isso está sobre a mesa no que diz respeito à Troika! Por isso usam ameaças – “disciplina partidária” e “eleições”, face às divergências dentro do grupo parlamentar do SYRIZA!

Pôr um fim à miséria austeritária

Para resumir, o povo grego nas últimas eleições votou no SYRIZA, não no círculo de decisão de Tsipras. E não votou no SYRIZA “a fim de garantir que não vai deixar o euro” como todos os papagaios da classe dominante nos meios de comunicação não se cansam de repetir. Eles votaram para o SYRIZA por um fim à austeridade.

Esta é a tarefa que deve ser realizada pelo SYRIZA e é isso que a classe trabalhadora grega está à espera e a exigir do SYRIZA. Isto é o que Alexis Tsipras deve fazer, se não quer entrar para a história como mais um de tantos outros líderes de esquerda que se comprometeram e se venderam às classes dominantes.

O Xekinima (CIT na Grécia) apela ao SYRIZA para ser coerente com as suas promessas eleitorais anti-cortes, para romper com a austeridade da Zona Euro e adoptar um programa socialista, que inclui:

  • Recusa de pagar a dívida
  • Controles sobre fluxos de capitais e monopólio estatal do comércio exterior para proteger a economia do ataque dos “mercados”
  • A nacionalização dos bancos e os sectores chave da economia, sob o controle e gestão democrática dos trabalhadores – planificação da economia para as necessidades do povo e não os lucros dos capitalistas
  • Reverter todos os cortes de austeridade e introduzir empregos para todos, com um salário digno e saúde e educação gratuitas, de qualidade e bem-estar
  • A criação de assembleias populares e comités de base de acção nos locais de trabalho e comunidades – para a participação activa da classe operária e da juventude na luta contra a Troika e por uma alternativa socialista
  • Apelo aos trabalhadores e jovens em Espanha, Portugal, Irlanda e em toda a Europa para se juntarem à luta anti-auteridade e para lutar por uma Europa socialista
Posted in: Europa, Grécia, Syriza