Grécia: Subordinação à Troika ou ruptura com a austeridade?

Posted on 29 de Maio de 2015 por

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tsipras_juncker

As escolhas que se colocam à classe trabalhadora

Editorial do Xekinima (no. 410, 6-20 Maio  2015), semanário do CIT na Grécia

O quadro grego está a tornar-se cada vez mais claro. Estamos em Maio, o 4º mês do novo governo dirigido pelo Syriza e o resultado das chamadas “negociações” com a Troika é zero!

A posição assumida pelos chamados «parceiros europeus» não é apenas inaceitável mas também maliciosa e criminosa! Eles continuam a exigir receber cada prestação do pagamento da dívida grega, sem darem um único euro de novos empréstimos! Isso representa uma política consciente de sabotagem e estrangulamento da economia grega com o objectivo de forçar o Syriza a dobrar-se às suas exigências!

Como deixou claro o porta voz do governo, G.Sakellaridis, a soma que o governo já deu aos credores é superior a 6,5 mil milhões de euros!!

Seis mil e quinhentos milhões de euros nestas condições representam uma quantia absolutamente colossal! Uma quantia que poderia, num muito curto espaço de tempo, abolir o problema de sobrevivência com que se defrontam as camadas mais afectadas da população e também dar um arranque rápido à economia e colocá-la no caminho do crescimento, se partes dessa soma fossem direcionadas para investimentos públicos.

A questão não é porque é que os chamados «parceiros» seguem esta politica de sufocamento da economia! Porque era previsível – e o Syriza tinha de o saber! A questão é porque é que o Syriza continua a fazer pagamentos de débitos quando a Troika tem um comportamento tão hostil.

A Grexit é falada globalmente – quando é que a tomamos seriamente cá?

Na comunicação social internacional está a ser travado um contínuo debate sobre a ‘Grexit’. O presidente holandês do Eurogrupo, J. Dijsselbloem, declarou o seguinte “Estamos prontos para uma Grexit, temos um plano B… A Holanda e a Zona Euro estão prontas para todas as possibilidades. Há um plano B para a Grécia. Ainda assim, esperamos chegar a um acordo com a Grécia”

Jerry Rice, porta-vos do FMI disse que o FMI “está a examinar vários cenários, mas não esperamos a saída da Grécia da Zona Euro” [nota: “não esperamos” não significa “não estamos preparados para essa possibilidade”]

Alister Wilson, Administrador Executivo da Moody, declarou ao canal CNBC TV Channel: ”A Zona Euro irá provavelmente recuperar rapidamente de uma Grexit, mas o impacto no ânimo dos investidores e na confiança será bastante agudo e de longa duração”

O jornal italiano La Stampa, escreveu: “Berlim e Frankfurt estão a preparar planos Bs para a Grécia…. Com a introdução de algum tipo de controles internos … de forma a evitar o colapso dos bancos…”

Todas estas declarações foram feitas apenas num dia (30 de Abril). As principais instituições internacionais, estados poderosos e centros de análise por todo o mundo estão a preparar (de acordo com a imprensa, não apenas estrangeira mas também grega) planos para a saída da Grécia da Zona Euro! Mas na Grécia não há nenhuma discussão sobre qual o plano para essa eventualidade!

Mesmo agora, ainda não é tarde!

A classe dominante grega, os seus partidos políticos e os órgãos de comunicação social estão a “esconder-se” por detrás do suposto “desejo do povo grego em manter-se, de qualquer maneira, na Zona Euro”, de acordo com as sondagens que eles próprios prepararam. Mas o quadro que é apresentado pelas massas provará que isto é completamente falso e poderá mudar para o seu oposto se o Syriza mudar a sua posição.

Se o Syriza for consistente com as suas declarações pré-eleitorais tem de:

Parar de Recuar! O Syriza abandonou o cancelamento da dívida, comprometeu-se na questão das privatizações, abandonou, suspenso no ar, o movimento contra a mina de ouro em Halkidiki, “adiou” uma série de medidas, como o direito à contratação colectiva, questões relacionadas com o Trabalho, o aumento do salário mínimo, o subsídio de Natal para os pensionistas pobres, a abolição dos impostos sobre propriedade para os pobres, etc. E mesmo assim, a Troika (agora chamada de «instituições») recusa-se a recuar no que quer que seja.

Dizer a verdade ao povo trabalhador! Isto é, se o governo grego se recusar a ceder às exigências da Troika, esses «parceiros» irão obrigar a Grécia a sair da Zona Euro.

Reconhecer, de forma a ser consistentes com as suas declarações pré-eleitorais, que o Syriza tem de romper com a Zona Euro e ir na direcção de um programa socialista! Isso inclui a recusa de pagar a dívida, a nacionalização dos bancos e sectores chave da economia, controlo e gestão dos trabalhadores e da sociedade – democracia na produção e planificação da economia para as necessidades do povo e não dos lucros dos capitalistas.

Se não…

Se o Syriza não for nessa direcção, não será capaz de cumprir mesmo as mais básicas das suas promessas. Não será capaz de levar a cabo o Programa de Salónica (Manifesto eleitoral do Syriza) e então o desapontamento entre as fileiras dos trabalhadores será imenso!

Algumas das mais recentes sondagens dão ao Syriza um avanço de 10% sobre o partido da direita, a Nova Democracia (NM). Não foi há muito tempo que o fosso entre o Syriza e a ND era de 25%. Os perigos são reais e estão presentes e o pior que a Esquerda pode fazer é ignorar isso.

O Syriza deve dizer a verdade ao povo trabalhador na Grécia e não discutir nos bastidores (diplomacia secreta) sem que os trabalhadores saibam exactamente o que se passa. Se o Syriza mudar o seu curso haverá um gigantesco e entusiástico apoio das massas trabalhadoras na Grécia!

A questão de um referendo sobre a saída da Zona Euro está agora em discussão aberta na sociedade grega. Dizemos que se um referendo for levado a cabo (ou convocadas novas eleições – dependendo das circunstâncias) não podem ser baseadas na apresentação de um acordo podre com a Troika em nome de manter o país na Zona Euro! Devem ser realizados com base numa proposta clara de saída da Zona Euro como parte de uma abordagem de alternativa socialista pró-trabalhadores, juventude e pensionistas (semelhante às linhas apresentadas acima). Isto necessita de ser combinado com o encorajamento de um movimento de massas, a criação de assembleias populares e comités de acção das bases, nos locais de trabalho e bairros, de forma a que a classe trabalhadora e a juventude possam participar activamente na luta contra a Troika e por uma alternativa socialista.

Uma coisa se tornará absolutamente clara: a classe trabalhadora e os pobres darão a tal programa um apoio total com toda a sua força. A condição para isso é uma e só uma: o Syriza tem de decidir lutar e lutar até ao fim!

Enfrentando uma condição de «submissão ou ruptura» o povo trabalhador grego se decidirá pela segunda alternativa sem hesitação. A história de gerações inteiras de luta prova isso. É tempo da direcção do Syriza decidir-se!