Estado Islâmico derrota exércitos nacionais em Ramadi e Palmira

Posted on 28 de Maio de 2015 por

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IS_insurgents,_Anbar_Province,_Iraq

Movimento unido da classe trabalhadora necessário para pôr de parte as milícias sectárias e os políticos reaccionários

Niall Mulholland, CIT, publicado a 23/05/2015 em http://www.socialistworld.net/

Dias após a captura de Ramadi pelo Estado Islâmico (EI), a capital de Anbar (a maior província iraquiana) e a cidade síria de Palmira caíram aos pés dos jihadistas sunitas. Em ambos os países, um avanço fulminante do EI levou a mais uma debandada de um exército nacional, a refugiados em fuga e um aumento de moral para o EI.

De acordo com o regime de Bagdad e a administração norte-americana, o EI deveria estar na defensiva no Iraque. No início deste ano, o EI foi derrotado através da combinação de esforços da resistência curda e de ataques aéreos norte-americanos em Kobane, no norte da Síria, mais tarde foram expulsos de Tikrit, no centro do Iraque. O EI foi forçado a ceder cerca de 20.000 quilómetros quadrados de território no Norte do Iraque.

Embora os bombardeamentos tenham causado danos ao EI, nunca foram capazes de compensar pelas forças iraquianas no terreno, que provaram ser incompetentes e corruptas. Tal como a queda dramática de Mosul, no ano passado, o exército iraquiano fugiu perante a ofensiva do EI em Ramadi, abandonando artilharia e munições. Daí, as forças dos jihadistas atacaram a cidade de Husaibah, perto de Ramadi. A política dos EUA de reconstruir o exército iraquiano e assisti-lo com ataques aéreos para derrotar o EI encontra-se em farrapos, assim como o plano de ‘activar’ tribos sunitas contra o EI.

Na Síria, as ‘elites’ leais ao Presidente Bashar-al-Assad, estariam destacadas para defender campos de gás cruciais a norte de Palmira. Mas assim que a batalha se intensificou, eles renderam a área por inteiro ao EI, deixando grandes quantidades de munições para trás. Neste momento, o EI controla alegadamente mais de 50% da Síria.

Os ganhos conseguidos pelo EI têm mais que ver com as fraquezas dos estados da Síria e do Iraque, do que com a força do EI. O brutal regime de Assad discriminou a maioria sunita durante décadas e o regime pró-xiita de Bagdad é temido e desprezado pela minoria sunita no país.

A queda de Ramadi e Palmira veio juntar-se à longa lista de desastres humanitários nos dois países vizinhos. Mais de 25.000 pessoas fugiram de Ramadi e cerca de um terço das 200.000 que habitam os arredores de Palmira. Os que ficaram para trás enfrentam a barbárie do EI. Nas redes sociais surgiram fotos de homens executados nas ruas. Para adicionar a isto, o EI devastou o património mundial da UNESCO em Palmira. Dado que o grupo fundamentalista islâmico demoliu ruínas antigas no Iraque, a destruição das ruínas de Palmira é um perigo real e iminente.

O governo iraquiano tem recorrido agora a milícias xiitas para liderar a resistência ao EI e para recuperar Ramadi assim como a província de maioria sunita de Anbar. Estas milícias apenas aumentarão as tensões sectárias e as atrocidades cometidas. De acordo com a Human Rights Watch, milícias xiitas e forças especiais iraquianas cometeram vários crimes de guerra, incluíndo pilhagem, provocar incêndios, tortura e execuções sumárias de sunitas, quando capturaram a cidade de Amerli ao EI, em Setembro último. Enquanto as decapitações monstruosas do EI são ruidosamente condenadas pelos governos ocidentais, barbaridades semelhantes perpetradas pelos aliados xiitas dos EUA no Iraque passam incólumes.

Por outro lado, no seio da classe dominante norte-americana existe debate sobre como lidar com o EI. Cerca de 5000 tropas terrestres dos EUA estão no Iraque, actuando como “conselheiros especiais”. Vozes em Washington apelam a um grande aumento das tropas americanas no teatro de operações. Mas Obama resiste em envolver os EUA em mais um conflito prolongado, sangrento e custoso no Iraque, sem garantias de sucesso.

Na Síria, os EUA apoiam os rebeldes denominados ‘moderados’ contra o EI e o regime de Assad. Perto de $500 milhões estão a ser gastos para treinar os rebeldes. Mas dada a ineficácia de uma grande parte das forças anti-Assad, a ‘ajuda’ norte-americana acaba nas mãos da filial local da Al Qaeda, a Al Nusra, que também se encontra em conflito com o EI.

Contradições da política ocidental

As contradições gritantes da política ocidental, a hipocrisia dos EUA, na região são consequência de uma dúzia de anos de agressão imperialista: guerras, ocupações sangrentas e bombardeamentos militares, desde a Líbia à Síria. Estima-se que mais de 1 milhão de pessoas morreram como resultado da carnificina resultante das acções dos EUA e outras potências ocidentais, como o Reino Unido. A prossecução de objectivos geoestratégicos vitais, assegurar o petróleo e conseguir lucros milionários para as grandes corporações são as linhas mestras das acções das potências ocidentais, e não as vidas dos povos do Médio Oriente.

A política norte-americana na região aplica os métodos de ‘dividir para reinar’, opondo sunitas a xiitas. Mas isso cria monstruosidades como o Estado Islâmico. Na sua primeira incarnação, a força jihadista sunita fazia parte da revolta sunita contra o regime xiita do Iraque, apoiado pelos EUA. Após o chamado ‘Acordar’ sunita, quando as tribos sunitas se revoltaram contra o domínio brutal da Al Qaeda local, muitos jihadistas acabaram na guerra civil que se desenrolava na vizinha Síria. Algumas destas forças rapidamente se tornaram o Estado Islâmico do Iraque e Síria e cresceram rapidamente como parte das forças anti-Assad, que eram financiadas e armadas pelos governo reaccionários do Golfo (aliados próximos dos EUA). Empolgado com as vitórias quer contra Assad quer contra grupos rivais de jihadistas, o EI virou-se para o Iraque, ganhando apoio nas áreas sunitas que sofreram repressão estatal sob o governo pró-xiita de Bagdad durante anos. Esta espiral sangrenta mostra que, dentro do capitalismo e sob o comando de elites reaccionárias e forças sectárias, mais conflitos e catástrofes humanitárias esperam o Médio Oriente. Apenas os trabalhadores da região, aliados aos trabalhadores de todo o mundo, conseguirão encontrar um caminho para sair deste pesadelo aparentemente eterno.

Esse potencial foi claramente vislumbrado durante a ‘Primavera Árabe’, quando ditadores foram depostos por movimentos de massas de trabalhadores e pobres na Tunísia e Egipto. Mas a estes movimentos, emergindo de décadas de ditadura, faltava-lhes uma liderança determinada e pró-trabalhadores que pudesse mobilizar as massas com sucesso na luta contra os tiranos locais e contra o sistema capitalista. A contra-revolução, com o apoio dos poderes ocidentais, foi capaz de ganhar a dianteira. O Egipto voltou a ter um ‘homem forte’ do exército e os movimentos de oposição de massas na Líbia e Síria degeneraram em conflitos sectários e tribais.

Revolta

Mas as classes trabalhadores da região, através das suas experiências amargas, retomarão o caminho da luta de massas outra vez, em oposição quer aos ditadores quer a todas as forças sectárias. É uma medida do profundo ódio dos sunitas ao regime de Bagdad, o facto de alguns saudarem o domínio medieval do EI e o tolerarem, até certo ponto. Esperam assim que signifique o fim da perseguição xiita e que traga alguma ‘estabilidade’ e ‘lei e ordem’. Mas a realidade de viver sob o barbarismo fundamentalista levará muitos sunitas a resistir ao EI. O jornalista irlandês, Patrick Cockburn, relatou recentemente a situação apavorante que os sunitas vivem nos territórios controlados pelo EI no Iraque, onde raparigas são forçadas a casar com jihadistas e tudo, desde música a alimentar pombos, foi banido.

Os trabalhadores e pobres do Iraque e Síria e de toda a região podem contar apenas com a sua auto-organização para acabar com a guerra e a miséria social. É necessário um movimento unido e independente da classe trabalhadora para organizar a auto-defesa em todas as comunidades e minorias. Armado com um programa socialista, esse movimento poderia encontrar aliados da classe trabalhadora a nível regional e internacional, na sua luta pelo derrube de regimes apodrecidos, expulsar o imperialismo e varrer do panorama todos os políticos e milícias reaccionárias e sectárias e pela reorganização democrática e socialista da sociedade.