Chile – o sangrento golpe de 1973 e as lições para hoje

Posted on 29 de Abril de 2015 por

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Chile 1973

Pedro Viegas e Tomás Nunes, Socialismo Revolucionário

No dia 11 de Setembro de 1973, o Chile viveu um golpe de Estado perpetrado pelas Forças Armadas chilenas juntamente com a CIA, resultando numa ditadura que perdurou até 1990. Foram 17 anos de brutalidade e ataques contra o povo chileno. Hoje ainda se vivem as consequências diretas de uma política neoliberal que destruiu os direitos e conquistas dos trabalhadores chilenos.

O golpe de Estado deu-se na sequência da eleição de Salvador Allende, líder da Unidad Popular (UP), que agregava o Partido Socialista do Chile (PSCh) e o Partido Comunista Chileno (PCCh) em conjunto com outros partidos de esquerda e alguns partidos liberais. Com a vitória da UP, a burguesia chilena viu-se ameaçada. Um pouco à semelhança do Syriza na Grécia hoje, que congrega vários partidos da esquerda radical à social-democracia europeísta e cuja recente vitória confirmou o receio do grande capital e dos seus partidos.

Em 1973, o Chile apresentou-se como uma ameaça à classe dirigente europeia e estadunidense, revelando-se um impulso para os trabalhadores dos países latino-americanos. Com as devidas diferenças, também a Grécia se apresenta hoje como uma esperança para os povos da Europa subjugados à política sufocante da austeridade.

As reformas da UP e o papel da classe operária

A UP surgiu vitoriosa de eleições devido ao grande descontentamento da classe média que já não depositava confiança política no partido Democracia Cristã (DC). Com uma vitória de 36.6 %, Allende tomou a presidência, prometendo não interferir nas Forças Armadas. Pouco depois da UP subir ao poder, iniciou-se uma grande campanha de nacionalizações da indústria e da Banca. A direita chilena, juntamente com Nixon, presidente dos EUA, não perdeu tempo e iniciou um embargo económico e financiou múltiplos ataques terroristas.

Os operários tiveram um papel central no crescimento da UP. Criaram várias associações onde se discutia o futuro da revolução e táticas para avançar com o processo revolucionário. As JAP (Juntas de Abastecimento Popular) impossibilitaram a especulação financeira dos produtos alimentares. Os operários mostraram-se cada vez mais radicalizados em comparação com os partidos políticos que os apoiavam. O Syriza também cresceu graças ao apoio popular às clínicas populares, cantinas e ajuda social, o que uniu o povo à volta de um projeto político.

Planos para um golpe militar

Mas as coisas complicaram-se. À medida que os EUA e as forças fascistas se organizavam para derrubar o Governo de Allende, os sindicatos e a UP abrandaram o processo revolucionário, apelando ao diálogo com a burguesia e com as Forças Armadas. A máquina do Estado foi deixada nas mãos dos generais e da reação. Este mesmo erro é cometido hoje, em 2015, pelo Syriza, que não está a democratizar nem a força policial que se encontra repleta de militantes e simpatizantes fascistas, nem as forças armadas, cuja tutela entregou ao partido de direita nacionalista ANEL, e que procura o apaziguamento social, apoiando um candidato presidencial de direita, tentando uma conciliação impossível com os inimigos de classe dos trabalhadores.

Dois dias antes do golpe de Pinochet, mais de um milhão de pessoas manifestou-se em frente ao Palácio Presidencial com Allende na varanda. Esses operários, jovens trabalhadores e estudantes, sabendo do golpe iminente, exigiam armas para defender a Revolução. Os dirigentes da esquerda do PSCh, entre outros, prometeram que as armas seriam distribuídas se necessário. Mas chegada a hora, nada foi feito para armar os trabalhadores contra a sangrenta contra-revolução. Não houve ousadia para completar o próximo passo numa sequência de etapas revolucionárias. O receio e o conformismo político ditaram o futuro do Chile.

O golpe e a chegada dos Chicago Boys

Dois dias depois, os conspiradores atacaram. No dia do golpe, a Central Única dos Trabalhadores, CUT, apelou aos trabalhadores para irem para as fábricas e aguardarem instruções.

No Chile, em Setembro de 1973, uma manifestação de massas em armas e um apelo claro aos soldados e marinheiros para se juntarem à revolução era a única alternativa nesta fase tardia, para salvar a revolução e derrotar o golpe. Em vez disso, com o desencadear do golpe, os trabalhadores foram deixados isolados nas fábricas, esperando até serem apanhados por destacamentos militares.

Uma vez no poder, os militares desencadearam uma sangrenta era de repressão e massacres.

O golpe no Chile foi acompanhado pela chegada dos ‘Chicago boys’ – uma equipa de economistas de direita – que desencadearam um conjunto de políticas neoliberais para acompanhar a ditadura experimentalista e que tiveram um efeito devastador sobre a classe trabalhadora chilena. O regime militar durou 17 anos até 1990. Não lhe chamamos ditadura experimentalista ao acaso. O Chile foi um autêntico laboratório económico, onde se desregulamentou a economia, privatizaram-se firmas estratégicas e brincou-se com a vida dos trabalhadores a bel-prazer dos Chicago Boys, ideólogos para Reagan e Thatcher.

A economia chilena foi definida como um modelo para toda a América Latina, e mesmo para o mundo. A economia cresceu a uma média anual de 5,5%, e foi usada para justificar as politicas neoliberais iniciadas sob o regime militar e continuadas desde aí. Contudo, apesar do crescimento, o Chile tornou-se uma das três sociedades mais desiguais da América Latina.

Também hoje, um governo de esquerda com apoio maioritário da classe trabalhadora, como o governo Syriza, deve usar esse apoio para impulsionar as lutas contra a classe dominante, única forma de conseguir vitórias e de evitar derrotas tão grandes como a do Chile em 1973. O Syriza não pode abandonar o seu compromisso com o povo grego e este deve unir-se para garantir que o Syriza não se perde numa espiral de “negociações” e “cartas”. Cada dia que o Syriza perde tempo com esperanças vãs, o povo perde alento e confiança.