Grécia: Um passo atrás, quantos à frente?

Posted on 17 de Abril de 2015 por

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OS23 - Syriza

Frederico Aleixo e João Carreiras, Socialismo Revolucionário, artigo do Ofensiva Socialista nº 23

Muita tinta já correu sobre a negociação entre a Grécia e as “Instituições”. A classe traba-lhadora, atingida por um programa que destruiu empregos e salários, e a pequena-burguesia, esmagada pela contracção do mercado interno, confiaram um mandato ao Syriza para que colocasse fim à austeridade e à submissão perante a Troika. Contudo, e apesar das várias manifestações populares de apoio ao governo, o programa de Salónica, já de si recuado em relação às propostas do Syriza de há 4 anos atrás, foi posto em causa logo a seguir à sua eleição, em Janeiro. Após sucessivas reuniões do Eurogrupo, a Grécia foi encostada à parede e o Syriza acabou a negociar uma extensão do memorando por 4 meses, em troca de medidas “que não comprometessem a execução fiscal”.

As propostas apresentadas a Bruxelas protegem os salários e pensões mas deixam cair o aumento imediato do salário mínimo, substituindo-o por um aumento progressivo que “salvaguarde a competitividade e as perspectivas de emprego” e negociado com os credores. Relativamente às privatizações, as já existentes manter-se-ão e, no caso das ainda não concluídas, o governo compromete-se a renegociá-las em seu benefício. Esta posição já foi entretanto duramente criticada pelo Ministro da Energia, Panagiotis Lafazanis, que se recusa a concluir o processo de privatização de duas empresas estratégicas do ramo da electricidade. Mas as cedências não ficam por aqui. No que concerne à despesa pública, a lista de reformas apresentada inclui uma revisão e um controlo da despesa em cada área governamental, o que significa cortes e reduções. Mesmo que tenhamos em consideração a vontade de aplicar um programa progressista de crescimento e combate à crise humanitária, a verdade é que qualquer iniciativa terá a supervisão e o acordo dos seus credores.

Há algo que esta negociação expôs claramente: a UE nunca representará os interesses dos trabalhadores e povos da Europa e não respeitará tão pouco a soberania de um país cujo governo não siga a cartilha neoliberal. O capitalismo europeu — em especial o capital alemão — não está disposto a prescindir das “galinhas dos ovos de ouro” que tantos lucros lhes trouxeram. Além disso, os seus representantes políticos teriam de explicar a metamorfose do discurso relativamente aos benefícios dos programas de ajustamento e conter a revolta dos trabalhadores nos outros países intervencionados.

O que deve então o governo Syriza fazer?

As opções do Syriza têm-se pautado pela tentativa de agradar aos mercados, enquanto defende medidas a favor dos trabalhadores. Esta abordagem foi bem patente com a escolha do Presidente da República, um ex-ministro do anterior governo de direita da Nova Democracia, mas outras posições do aparelho repressivo foram dadas à direita: o Ministro da Defesa é do parceiro de coligação Gregos Independentes, o ministro da Administração Interna vem de uma cisão à direita do Syriza e o chefe da polícia secreta é ex-Pasok. Manter a estrutura do Exército e da Polícia nas mãos da direita poderá trazer problemas a médio ou longo prazo. A democratização das várias polícias, expulsando os membros fascistas das suas chefias deveria ter sido iniciada pelo governo de Tsipras assim que tomou posse.

O Xekinima, CIT na Grécia, defende que o Syriza deve também preparar e mobilizar a classe trabalhadora para defender um pacote de medidas concretas que incluiria o controlo do fluxo de capitais e a nacionalização sob gestão democrática da Banca, comércio externo e sectores chave da economia, como comunicações, energia e transportes. Estas medidas permitiriam começar o planeamento da economia no interesse da maioria e reequilibrar o défice à custa da oligarquia grega. Mas antes necessita de suspender o pagamento da dívida e criar uma comissão independente de auditoria que conduza ao repúdio de qualquer obrigação perante a Troika. O Syriza perdeu muito tempo a ser chantageado pela Europa dos patrões. Chegou a vez de se virar para a Europa dos trabalhadores.

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