“Quantitative Easing” ou o desespero capitalista

Posted on 15 de Abril de 2015 por

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Mario-Draghi

O plano Draghi

Abel Lopes, Socialismo Revolucionário

Para a maioria dos trabalhadores, acompanhar as políticas económicas da União Europeia é como assistir a uma missa em latim. O jargão utilizado pela im-prensa burguesa é propositadamente nevoento, e sob a protecção dessa névoa os acólitos do capital espalham todo o tipo de mentiras nos jornais, na rádio e na televisão.

Uma das medidas económicas que surgiram nos últimos anos e têm sido utilizadas, por exemplo, pelo Banco de Inglaterra, é o Quantitative Easing — algo normalmente traduzido como “flexibilização quantitativa”. Mas o que é exactamente o QE?

Pode dizer-se que o QE é uma política le-vada a cabo por um banco central — no caso dos países da UE, o Banco Central Europeu — que consiste na emissão de uma massa gigantesca de dinheiro e na compra de títulos de dívida pública (bonds) à banca privada. Por outras palavras, BCE faz Quantitative Easing quando entrega dinheiro à banca privada em troca de títulos de dívida.

A compra de bonds faz aumentar os seus preços, ou seja, faz com que cada bond se torne um investimento menos lucrativo e mais arriscado, o que incentivará a banca privada a fazer outros tipos de investimentos e empréstimos com juros mais baixos que, garantem os muito doutos defensores desta política, resultarão numa revitalização das economias nacionais. Os investimentos, segundo estes “economistas”, serão em parte empréstimos a pequenas empresas e famílias traba-lhadoras, o que impulsionará um crescimento dessas empresas, aumentará o emprego e, por isso, o consumo interno, possibilitando ainda mais crescimento de empresas e criando um “ciclo virtuoso”.

Depois de ter este ciclo em funcionamento, o banco central revenderia os bonds e destruiria o dinheiro que emitiu inicialmente, anulando por isso qualquer tendência inflaccionária.

Trata-se, portanto, de uma nova promessa de prosperidade feita pelos capitalistas aos traba-lhadores que vêem as suas condições piorar de dia para dia. E tudo parece fazer sentido, se não tivermos em conta nem o funcionamento real nem o estado actual do capitalismo.

Na verdade, o exemplo de Inglaterra é ilustrativo. Após 6 anos de QE, nenhum dos resultados que os “economistas” previam ou diziam prever se realizou. Os 5 bancos que detêm mais de 9 décimos dos depósitos bancários no Reino Unido não têm qualquer interesse em fazer investimentos que melhorem as condições de vida dos trabalhadores e dos pobres. O que de facto ocupa os banqueiros, como até uma criança saberá explicar, é conseguir o maior lucro possível, e os maiores lucros são feitos em acordos e empréstimos concedidos a grandes multinacionais, em investimentos na indústria de armamento e outro tipo de negociatas que só afectam negativamente as vidas das famílias trabalhadoras e dos pequenos comerciantes, tanto na Europa como por todo o mundo.

De facto, não há qualquer indício de que uma política de QE revitalize a economia a não ser no sentido de estancar ligeiramente uma descida da taxa de lucro, mas mesmo isto não passa de um penso rápido sobre uma ferida gangrenosa.

Com efeito, o QE, sendo incapaz de resolver a penúria dos trabalhadores, é igualmente incapaz de resolver o impasse em que se encontram os grandes capitalistas. A acumulação e concentração de capital atingiram nos nosso dias um grau inaudito. Não existe, portanto, qualquer necessidade de recapitalizar a banca, como tentam fazer-nos crer alguns charlatães. O problema não é falta de capital, mas precisamente o contrário! Os grandes capitalistas não têm onde investir o seu capital de forma a obter lucros satisfatórios — todo o sistema está, uma vez mais, à beira de um cataclismo. E se Mario Draghi, o presidente do BCE, se prepara para inciar uma política de QE, fá-lo apenas porque não tem qualquer medida mais adequada. É em parte por ser uma declaração de desespero que o anúncio destas medidas despertou alguma polémica. Outros “economistas”, procurando avançar nas suas carreiras, propõem medidas alternativas para salvar o capitalismo. Estas são, apesar de todos os ares pedantes destes doutores, igualmente inúteis.

Para os trabalhadores, todos os remédios capitalistas, sejam mais ou menos açucarados, não passam de veneno. O Socialismo Revolucionário declara que o capitalismo caducou! A política que servirá não só para reverter a austeridade, mas também para ga-rantir que ela não regressará no espaço de uma geração é uma política de nacionalizações dos sectores chave da economia sob controlo democrático, o principal dos quais é a banca. Há que sujeitar o grande capital aos interesses da maioria — em suma, a solução dos traba-lhadores é a destruição implacável de uma economia que aprisiona a vida humana, porque só assim se abrem as portas à construção de uma economia que a liberta.

Posted in: Análise, Economia, Europa