O início do fim do bipartidarismo

Posted on 9 de Abril de 2015 por

0


syriza_a7394_copy

Também por cá, construir uma alternativa de quem trabalha!

Editorial do nº 23  jornal Ofensiva Socialista

A importância da vitória do Syriza.

Este ano começou com uma viragem no ciclo político europeu e até mundial. A Coligação de Esquerda Radical, Syriza, ganhou as eleições na Grécia — país mais devastado pela austeridade — prometendo acabar com a crise humanitária grega. Uma esperança ressurgiu na classe trabalhadora grega, que protagonizou 33 greves gerais entre 2009 e 2013, ao ver um partido defensor dos seus direitos chegar ao poder. Mas, há que dizê-lo, o entusiasmo foi moderado dentro de portas, dada a deriva de direita da liderança do Syriza e a aliança com o partido pró-capitalista Gregos Independentes. Este entusiasmo foi bastante superior fora da Grécia, onde milhões de trabalhadores e oprimidos celebraram esta vitória.
Este é um partido que, tendo cerca de 5% nas votações há 4 anos atrás, conseguiu 36.3% nas últimas eleições e reúne, segundo sondagens recentes, mais de 70% do apoio dos gregos à sua governação. Provocou o colapso do bipartidarismo grego. Importa analisar este processo para tirar lições que nos permitam acabar com a austeridade assassina e organizar o ataque contra a crise capitalista.

A ascensão do Syriza coincidiu com a implosão do Pasok, partido semelhante ao PS português. Como muitos outros partidos da chamada ex-social-democracia na Europa, o Pasok, ao ver-se ante a austeridade, não hesitou em aplicá-la, tal como o governo de Sócrates em 2011. Assumiu uma postura “responsável” e “realista” perante a Troika: destruir o Estado Social, privatizar, cortar rendimentos do Trabalho. Neste sentido, traiu a classe trabalhadora e povo gregos e revelou inegavelmente quem serve: as classes dominantes grega e europeia.

O fenómeno de ruptura com o bipartidarismo, com os partidos do chamado “centrão” — na realidade partidos pró-capitalistas — é consequência do agravamento da crise do sistema capitalista, em particular na sua vertente europeia de crise das dívidas soberanas e subsequente austeridade.

Podemos a caminho.

Também no Estado Espanhol, este processo se desenrola. 2015 será um ano de eleições a todos os níveis, desde municipais a legislativas, e abrirá um novo ciclo político em Espanha que influenciará certamente a política em Portugal.

Após anos de austeridade e de um forte movimento social de contestação, tudo indica que a alternância PP–PSOE será quebrada. Nas últimas eleições europeias, o recém-formado partido Podemos foi a grande revelação, elegendo 5 eurodeputados e ameaçando o PSOE, principal partido na oposição. Para este ano, as sondagens dão a vantagem ao partido de Iglesias, com 28,2%, à frente do PSOE com 23,5% e do PP com 19,2%. Embora não se preveja um colapso do PSOE, como aconteceu com o Pasok, estes números mostram claramente uma ruptura com o bipartidarismo no Estado Espanhol, fruto da política anti-trabalhadores dos partidos da classe dominante.

Constituído à volta de muitas das reivindicações do movimento dos Indignados, o Podemos adoptou desde o início uma retórica “cidadã” e propostas concretas em defesa do povo e contra a “casta”, captando o apoio da nova camada de activistas e jovens que se politizaram após a crise de 2008, e dos empobrecidos pela austeridade.

As nossas tarefas.

Em Portugal, esta ruptura parece improvável para já, não tendo aparecido à esquerda um pólo agregador que transforme o descrédito dos “políticos”, i.e. do bipartidarismo, num movimento de resistência capaz de travar a austeridade e apresentar uma alternativa. O que falta então para as actuais lideranças partidárias e sindicais para se aproximarem das suas bases e radicalizarem as lutas que hoje se travam e de as unir num tal movimento?

Temos assistido a várias tentativas de formação de novos partidos à esquerda. Que trazem de novo estas formações? Capitalizarão a crise do centrão? Poderão promover um movimento de massas capaz de unir as lutas e derrubar os governos da austeridade? Sem uma ligação às lutas de quem trabalha ou programas alternativos ao PCP e o BE, não nos parece. Apenas fragmentam o campo dos trabalhadores, diluem a sua força política e confundem quem procura uma alternativa aos “políticos do costume” ao replicar os seus hábitos. Assim, quanto muito, empurram os trabalhadores empobrecidos e desesperados para os braços do novo salvador da classe dominante: António Costa.

Neste momento aqueles que dizem querer acabar com o bipartidarismo deviam estar a lutar pela unidade da esquerda.

Construir a Frente Unida.

O Socialismo Revolucionário defende a necessidade de uma frente de esquerda entre PCP, BE, CGTP e movimentos sociais que se apresente às próximas eleições com um programa baseado nas reivindicações dos trabalhadores e que rompa claramente com a austeridade e o rumo traçado pelo governo PSD/CDS nos últimos anos — que António Costa promete continuar. Um programa comum que repudie a dívida e que nacionalize sob gestão democrática de trabalhadores e utentes a banca e os sectores estratégicos, de forma a reconstruir os serviços públicos e a criar uma política de pleno emprego digno e socialmente útil.

São milhares os activistas sindicais e trabalhadores que compreendem, pela experiência diária da luta, a necessidade de unir a classe trabalhadora e, obviamente, os partidos que a dizem representar. PCP e BE têm particular responsabilidade na construção dessa frente de esquerda combativa, sem medo de romper com o sistema.

As reuniões que as direcções destes partidos já tiveram são um passo importante. Devem ser aprofundadas. O processo de construção da unidade deve ser feito pela base, pela união dos milhares de lutas que se travam hoje de forma isolada. Uma frente constituída por estes dois partidos às próximas eleições galvanizaria certamente um apoio esmagador de quem não aguenta mais austeridade e colocaria em cima da mesa o colapso do bipartidarismo em Portugal.